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sábado, 11 de agosto de 2007

Palavra Missa


Em latim se escreve missa, que nada mais é do que uma substantivação de missus, particípio passado do verbo mittere. Aquilo que era verbo no particípio passado passa a ser substantivo no gênero feminino.

Em português, missa. Como se escreve em latim.

O verbo mittere significa, em português, deixar ir, deixar partir. Em sentido figurado, significa mandar, enviar.

A palavra missa era usada para indicar a despedida ao fim de qualquer reunião religiosa.

Com o tempo, como se verá, o sentido do vocábulo missa se amplificou, de modo a compreender toda a celebração. Do pouco (despedida) passou a designar o muito (o culto todo).

A evolução para a aplicação da palavra missa com o objetivo de designar a celebração eucarística no conjunto todo remonta ao fim do século V e início do século VI.

Repetindo, é entre o fim do século V e o início do século VI que se torna costumeiro indicar com o termo missa a união da liturgia da palavra e da liturgia eucaristíca, que formam, com os ritos iniciais e os de encerramento, a celebração eucarística (missa).

A expressão Ite, Missa est (da antiga missa em latim), que uns traduzem como "ide, (as preces) foram enviadas" [1], mas que, em verdade, o então Cânon da Missa do Missal Quotidiano traduz por "Ide, a missa terminou", é hodiernamente considerada uma expressão dita "pastoral", no sentido de "missão confiada àqueles que participaram da eucaristia" [2]. Nessa linha, se situa o Catecismo da Igreja Católica, a "Santa Missa (...) termina com o envio dos fiéis ("missio") para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana" (n. 1332).

Anote-se que a palavra latina missio, empregada pelo Catecismo, é da família do verbo mittere (acima mencionado). Missio traz a idéia de despedida e de envio.

A expressão Ite, Missa est não deixa de ser parte do rito de despedida, com o qual se desfaz, se dissolve a assembléia. E o atual Missal Romano, em português, implantado a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), tem a seguinte versão: "Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe".

Não obstante alguns Padres da Igreja considerarem a pobreza do termo missa para expressar "aquilo que constitui o centro da vida cristã" (S. Gregório Magno e S. Cesário de Arles) [3], o Catecismo da Igreja Católica vê nessa palavra e em tantas outras que: "A riqueza inesgotável deste sacramento [da Eucaristia] exprime-se nos diversos nomes que lhe são dados. Cada uma destas expressões evoca alguns de seus aspectos" (n. 1328).

[1] Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Lexikon Editora Digital, 3ª edição, 2007, p. 524.
[2] cf. A. Nocent, história da celebração da eucaristia, in A Eucaristia teologia e história da celebração, de S. Marsili, A. Nocent, M. Augé, A.J. Chupungco, coleção Anámnesis 3, tradução de Benôni Lemos, São Paulo, Editora Paulus, 2ª edição, 1996, p. 206.
[3] cf. A. Nocent, Obra citada, p. 206.


Imagem: "Os discípulos de Emaús" (1601), de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). Fonte: www.nationalgallery.org.uk

terça-feira, 5 de junho de 2007

Da missa assistida à missa celebrada - parte 1 de 2

Fazei isto em minha memória (1Cor 11, 24-25)


Recordo-me que meu professor de português, lá pela década de 50 do século passado, ao dar exemplo de verbo transitivo de dupla regência mencionava o verbo "assistir". Para a regência direta (transitivo direto): "o médico assiste o doente", isto é, o médico socorre o paciente; o médico age. Para a regência indireta (transitivo indireto): "você assiste à missa" (ou eu assisto à missa), isto é, está presente ao ato litúrgico; não age.

Os exemplos - muito compreensíveis para a época - objetivavam demonstrar que num exemplo, quando o objeto é direto, o sujeito da frase tem um comportamento ativo, participa da ação. N'outro, quanto o objeto é indireto, o sujeito da frase tem um comportamento meramente passivo, de nada participa, apenas vê.

Com esse ilustrativo exemplo, pretendo falar de uma mudança: de sujeito passivo para sujeito ativo da missa.

A figura abaixo, que ilustra o texto, dá uma visão da missa dita pelo padre, e assistida pelo povo, que era modelo celebrativo anterior à implementação da Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965).

1. Antes, porém, uma sucinta abordagem sobre a fração do pão, ou ceia do Senhor, no alvorecer do cristianismo.

Os cristãos se reuniam para celebrar a ceia instituída por Cristo, dela participando comunitária e ativamente. E tão comunitários eram que procuravam ter tudo em comum.

O povo reunido, juntamente com o pastor que a presidia, era verdadeiramente o ator da celebração. E os cristãos tinham consciência de ser um povo sacerdotal (povo escolhido e mediador entre Deus e o mundo) numa comunidade toda ministerial, isto é, serviçal segundo o carisma ou dom de cada um.

Os cristãos celebravam e viviam o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Cristo. Cristo era a centralidade da celebração.

O valor e a dignidade dada à ceia do Senhor levaram os primeiros cristãos a se reunirem festivamente para celebrá-la no próprio dia da ressurreição do Senhor, denominado Domingo. O ato de reunir-se no domingo significava celebrar a eucaristia, tão vital para os primeiros cristãos.

Os cristãos de Abitinas (que ficava na África proconsular – província do Império Romano, correspondendo hoje ao norte da Tunísia e à costa mediterrânica da Líbia), no ano 304, foram martirizados pelo fato de se reunirem para celebrarem o dominicum. Dizia um deles (Emérito) ao procônsul romano ao ser interrogado: “Não podia [proibi-los de se reunirem], porque não podemos viver sem o dominicum...” (Actas dos Mártires in Antologia Litúrgica, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, org. José de Leão Cordeiro, págs. 580-583).

A vida era modelada pela eucaristia celebrada – eucaristia vivida. A palavra celebrada era penetrante na vida dos cristãos. Escritas no coração, e não numa Bíblia muitas vezes fechada, elas também modelavam a vida dos cristãos – palavra vivida. Dizia outro deles (Ampélio) ao mesmo procônsul romano ao ser interrogado: “Sim, reuni-me com os meus irmãos, celebrei o dominicum e tenho comigo as Escrituras, mas escritas no meu coração. Dou-Te graças, Cristo. Escuta-me, Cristo” (ob. cit.).

“Fazei isto em minha memória” era não apenas uma fórmula eucarística, mas também uma fórmula de vida.

2. Entretanto: “No segundo milênio da era cristã (por influência remota dos povos franco-germânicos, a partir do século IX, e pelo posterior centralismo romano) aconteceu um impressionante deslocamento de eixo na compreensão e vivência da Liturgia.” (Frei José Ariovaldo da Silva, OFM, Sacrosanctum Concilium e reforma litúrgica pós-conciliar no Brasil, in A Sagrada Liturgia 40 anos depois, da coleção “Estudos da CNBB” nº 87, Paulus, 2003, pág. 36). E o articulista esclarece esse deslocamento de eixo: “A centralidade da Liturgia como celebração do mistério pascal cedeu lugar às devoções (devoção aos santos e ao Santíssimo Sacramento). As devoções passaram a ocupar o lugar central” (ob. cit., pág. 37).

Segue-se que a assembléia deixou de ser celebrante. E o padre assumiu o papel de único celebrante. A missa passou a ser coisa do padre, nele estava centrada a liturgia. A estrutura da Igreja favoreceu isso: altar bem mais elevado e distante do povo. E o padre, de costas voltadas para o povo, rezava a missa na língua litúrgica – o latim. A palavra não era mais proclamada, mas apenas lida pelo padre para si mesmo, em voz baixa. O próprio padre tornara-se refém do ritualismo: qualquer deslize nas palavras e nos herméticos gestos podia afetar a eficácia do ato.

Com o suceder dos tempos, o latim deixou de ser a língua comumente falada, cedendo lugar as suas variantes hoje conhecidas (italiano, castelhano, português...). Mas a liturgia da missa continuou sendo em latim.

Diante dessa mutação do latim, como não foi feita a formação do povo para a língua litúrgica, o povo foi deixando de compreender as palavras pronunciadas na missa. Não obstante, o povo continuou tendo por ela forte atração devocional. E o povo acrescentava outras devoções no curso da missa, em particular, a reza individual do terço.

Para o povo a consagração, ou melhor, a elevação da hóstia grande, passou a ser o momento privilegiado da missa. Esse momento era assinalado pelo toque da campainha. O padre, como se disse, de costas voltadas para o povo, elevava a hóstia grande bem acima de sua cabeça, para que pudesse ser vista. Para o povo essa era a centralidade da missa: ver e adorar a hóstia consagrada.

Em resumo. O mistério pascal celebrado deixa de ser a fonte da espiritualidade. Cede lugar para as devoções populares. A eucaristia não é mais uma festa, onde todos celebram.