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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Domingo: dia de Missa

Os Bispos da Irlanda mostram-se preocupados com os tantos entretenimentos ou afazeres outros que afastam os jovens da missa aos domingos. A chamada dos Bispos recai sobre os "pais, treinadores esportivos e empregadores", como noticia a Agência Zenit, em 13 de março de 2008.

Na cultura moderna, o Domingo cedeu lugar para o "fim de semana", ou ainda para o "feriadão", "feriado prolongado", ou outra denominação.

O Domingo, enquanto Dia da Ressurreição do Senhor, é de criação cristã e é fundamental para os cristãos. Sua origem mais distante está no grego kyriaké hemera ou simplesmente kyriaké, que quer dizer "dia do senhor", traduzido para o latim como dies dominicus ("dia do senhor"), ou simplesmente dominicus, ou dominicum (dominus). E a nossa palavra domingo provém do latim.

O dies solis ("dia do sol") dos romanos acabou perdendo o lugar para o dies dominicus.

Os primeiros cristãos tinham-no como tempo sagrado, celebrativo, sem o qual o existir para eles perdia sentido. E isso pode ser constatado pelos escritos antigos, como atestam as Actas dos Mártires [1]. Com efeito, os antigos cristãos afirmavam, com sólida convicção e sem temor, perante as autoridades do Império Romano, que: "não podemos viver sem o dominicum". Essa resposta foi dada pelo cristão Emérito ao procônsul romano, no ano 304, na ocasião em que eles e seus companheiros foram surpreendidos celebrando "uma reunião e o dominicum." E isso aconteceu na região de Abitinas, que ficava na África proconsular – província do Império Romano, correspondendo hoje ao norte da Tunísia e à costa mediterrânica da Líbia. A essas alturas, os cristãos eram proibidos de se reunirem.


O tema comporta outras colocações, posto não ser coisa exclusiva da Irlanda mas também de tantos outros países. E também envolve jovens, adultos e famílias inteiras. Ainda: a mudança no quadro sócio-econômico, como a industrialização, o deslocamento das pessoas da zona rural para as cidades. As cidades que se esvaziam nos chamados "fins de semana", ou "feriadão"...

A preocupação pastoral dos Bispos irlandeses não deixa de ser um alerta para toda a Igreja, para todos os cristãos. Recuperar o sentido fundante do Domingo: Dia do Senhor. Motivar a sociedade.

Ou a religião, ou melhor Deus, não é mais determinante para o mundo de hoje?


Leia mais:




[1] Antologia Litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio, recolha de textos, tradução e organização da obra: José de Leão Cordeiro, Fátima (Portugal), Secretariado Nacional da Liturgia, pp. 580-583.


Fonte da primeira imagem:
http://cantodapaz.com.br/blog/09-o-que-e-a-quaresma/domingo-de-pascoa/

Fonte da segunda imagem:
http://deiatatu.wordpress.com/2007/10/04/irlanda/


terça-feira, 5 de junho de 2007

Da missa assistida à missa celebrada - parte 1 de 2

Fazei isto em minha memória (1Cor 11, 24-25)


Recordo-me que meu professor de português, lá pela década de 50 do século passado, ao dar exemplo de verbo transitivo de dupla regência mencionava o verbo "assistir". Para a regência direta (transitivo direto): "o médico assiste o doente", isto é, o médico socorre o paciente; o médico age. Para a regência indireta (transitivo indireto): "você assiste à missa" (ou eu assisto à missa), isto é, está presente ao ato litúrgico; não age.

Os exemplos - muito compreensíveis para a época - objetivavam demonstrar que num exemplo, quando o objeto é direto, o sujeito da frase tem um comportamento ativo, participa da ação. N'outro, quanto o objeto é indireto, o sujeito da frase tem um comportamento meramente passivo, de nada participa, apenas vê.

Com esse ilustrativo exemplo, pretendo falar de uma mudança: de sujeito passivo para sujeito ativo da missa.

A figura abaixo, que ilustra o texto, dá uma visão da missa dita pelo padre, e assistida pelo povo, que era modelo celebrativo anterior à implementação da Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965).

1. Antes, porém, uma sucinta abordagem sobre a fração do pão, ou ceia do Senhor, no alvorecer do cristianismo.

Os cristãos se reuniam para celebrar a ceia instituída por Cristo, dela participando comunitária e ativamente. E tão comunitários eram que procuravam ter tudo em comum.

O povo reunido, juntamente com o pastor que a presidia, era verdadeiramente o ator da celebração. E os cristãos tinham consciência de ser um povo sacerdotal (povo escolhido e mediador entre Deus e o mundo) numa comunidade toda ministerial, isto é, serviçal segundo o carisma ou dom de cada um.

Os cristãos celebravam e viviam o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Cristo. Cristo era a centralidade da celebração.

O valor e a dignidade dada à ceia do Senhor levaram os primeiros cristãos a se reunirem festivamente para celebrá-la no próprio dia da ressurreição do Senhor, denominado Domingo. O ato de reunir-se no domingo significava celebrar a eucaristia, tão vital para os primeiros cristãos.

Os cristãos de Abitinas (que ficava na África proconsular – província do Império Romano, correspondendo hoje ao norte da Tunísia e à costa mediterrânica da Líbia), no ano 304, foram martirizados pelo fato de se reunirem para celebrarem o dominicum. Dizia um deles (Emérito) ao procônsul romano ao ser interrogado: “Não podia [proibi-los de se reunirem], porque não podemos viver sem o dominicum...” (Actas dos Mártires in Antologia Litúrgica, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, org. José de Leão Cordeiro, págs. 580-583).

A vida era modelada pela eucaristia celebrada – eucaristia vivida. A palavra celebrada era penetrante na vida dos cristãos. Escritas no coração, e não numa Bíblia muitas vezes fechada, elas também modelavam a vida dos cristãos – palavra vivida. Dizia outro deles (Ampélio) ao mesmo procônsul romano ao ser interrogado: “Sim, reuni-me com os meus irmãos, celebrei o dominicum e tenho comigo as Escrituras, mas escritas no meu coração. Dou-Te graças, Cristo. Escuta-me, Cristo” (ob. cit.).

“Fazei isto em minha memória” era não apenas uma fórmula eucarística, mas também uma fórmula de vida.

2. Entretanto: “No segundo milênio da era cristã (por influência remota dos povos franco-germânicos, a partir do século IX, e pelo posterior centralismo romano) aconteceu um impressionante deslocamento de eixo na compreensão e vivência da Liturgia.” (Frei José Ariovaldo da Silva, OFM, Sacrosanctum Concilium e reforma litúrgica pós-conciliar no Brasil, in A Sagrada Liturgia 40 anos depois, da coleção “Estudos da CNBB” nº 87, Paulus, 2003, pág. 36). E o articulista esclarece esse deslocamento de eixo: “A centralidade da Liturgia como celebração do mistério pascal cedeu lugar às devoções (devoção aos santos e ao Santíssimo Sacramento). As devoções passaram a ocupar o lugar central” (ob. cit., pág. 37).

Segue-se que a assembléia deixou de ser celebrante. E o padre assumiu o papel de único celebrante. A missa passou a ser coisa do padre, nele estava centrada a liturgia. A estrutura da Igreja favoreceu isso: altar bem mais elevado e distante do povo. E o padre, de costas voltadas para o povo, rezava a missa na língua litúrgica – o latim. A palavra não era mais proclamada, mas apenas lida pelo padre para si mesmo, em voz baixa. O próprio padre tornara-se refém do ritualismo: qualquer deslize nas palavras e nos herméticos gestos podia afetar a eficácia do ato.

Com o suceder dos tempos, o latim deixou de ser a língua comumente falada, cedendo lugar as suas variantes hoje conhecidas (italiano, castelhano, português...). Mas a liturgia da missa continuou sendo em latim.

Diante dessa mutação do latim, como não foi feita a formação do povo para a língua litúrgica, o povo foi deixando de compreender as palavras pronunciadas na missa. Não obstante, o povo continuou tendo por ela forte atração devocional. E o povo acrescentava outras devoções no curso da missa, em particular, a reza individual do terço.

Para o povo a consagração, ou melhor, a elevação da hóstia grande, passou a ser o momento privilegiado da missa. Esse momento era assinalado pelo toque da campainha. O padre, como se disse, de costas voltadas para o povo, elevava a hóstia grande bem acima de sua cabeça, para que pudesse ser vista. Para o povo essa era a centralidade da missa: ver e adorar a hóstia consagrada.

Em resumo. O mistério pascal celebrado deixa de ser a fonte da espiritualidade. Cede lugar para as devoções populares. A eucaristia não é mais uma festa, onde todos celebram.