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sexta-feira, 11 de maio de 2007

Recomeçar a partir de Cristo

Na santificada tarde de sexta-feira, o Papa e os bispos brasileiros celebraram as Vésperas da Liturgia das Horas, na Catedral da Sé, no centro da cidade de São Paulo. Bento XVI fez um discurso (homilia) dos mais contundentes até agora pronunciados.

Neste post, não enfocaremos todos os temas abordados pelo discurso. Fiquemos apenas com este:

Recomeçar a partir de Cristo em todos os âmbitos da missão, afirma o Papa.

Isso mesmo: recomeçar é o que a Igreja precisa no tempo atual. E recomeçar a partir do evento fundador: Jesus de Nazaré, o Cristo.

Tempos houve em que a Igreja esteve despreocupada com a evangelização contínua e profunda. Contentava-se com aquela ingênua catequese para a primeira comunhão, e só. Despreocupada porque todos se sentiam católicos e em tudo se respirava o catolicismo. Grande parte da população estava no campo. E a situação aqui, quer econômica quer social e familiar (grande família), favorecia a permanência de valores cristãos.

Tempos mudaram. Kant, filósofo alemão, diz que o homem atinge sua maioridade. Não necessita ser tutelado pela religião. A Revolução Francesa, com seu ideário de liberdade, igualdade e fraternidade, influenciou movimentos de emancipação política. A Razão, e tão somente ela, é deusa da vida. Deus sai do centro. Laicismo se opõe a sagrado (Igreja, clerical...). O Estado se define simplesmente laico (O Estado brasileiro é laico a partir da proclamação da República, em 1889).

É a modernidade. Que, no final, decepciona o homem na felicidade a ele prometida.

Pois bem, esse conjunto de coisas alterou aquele cenário do catolicismo que se reproduzia naturalmente pelo estímulo das condições culturais sem rivais da época. Aquela fé educada numa catequese ingênua se revelou débil para se sustentar, para fazer frente a essa nova cultura. O campo se esvaziou e a cidade inchou. Os valores cristãos cederam lugar aos apelos da vida urbana: consumista e utilitarista.

A população campestre que veio para a cidade, caindo em situação de pauperidade e sentindo a falta de um contato mais direto de alguém para auscultar suas ansiedades, pendeu para o segmento religioso que melhor lhe aprouve. E a isso se some que a população, fragilizada por aquela ingênua formação catequética, acabou por caracterizar que tanto faz seguir indiferentemente este ou aquele segmento religioso.

Casos há, porém, que a perda de fiéis se credita à ausência de padres nas cercanias das grandes cidades e nas pequenas cidades do interior.

Diante desse quadro, quer seja pelo laicismo da sociedade ou pela precariedade da evangelização, quer seja pelo fluxo migratório do campo para a cidade ou pelo insuficiente número de padres, quer seja pela ausência de um discurso atualizado e testemunhado ou pela mercantilização religiosa, importa à Igreja recomeçar a partir de Cristo. Como? Pela evangelização, segmentada na formação de ministros e na catequese continuada e aprofundada. Na vivência da fé por uma liturgia de qualidade. Na atitude de acolhimento que venha a permear tudo.

A respeito, afirma o Papa: “porque fé, vida e celebração da sagrada liturgia como fonte de fé e de vida, são inseparáveis”.

Nesse contexto, a posição de Bento XVI se afigura para além da modernidade: repor o homem, segundo seu intento, no caminho da felicidade.

Santidade

Terceiro dia da Festa da Igreja. Alegremo-nos no Senhor, neste dia em que contemplamos outra das maravilhas de Deus, diz o Bento XVI na abertura de sua homilia proferida na Celebração da Eucaristia, realizada hoje pela manhã, no Campo de Marte, em São Paulo.

Não havia lugar melhor para o Papa falar sobre santidade. Eis a outra das maravilhas de Deus: a graça da canonização de Frei Antônio de Sant'Ana Galvão. Disponibilidade, conselheiro pacifista, dispensador da caridade, zeloso, sábio e prudente são algumas das muitas virtudes de Frei Galvão que devem emoldurar a vida do cristão.

Santidade não é um acessório. Mas algo a ser buscado no quotidiano da vida. O Papa lembra a passagem bíblica: "Deus disse: Sede santos, como Eu sou santo (Lv 11,44). "

Nesse sentido, a homilia do Papa incita cada um a viver a santidade no seu estado de vida, para revelar ao mundo o verdadeiro rosto de Cristo, nosso amigo.

Revelar ao mundo o rosto de Cristo é testemunhar e conseqüentemente evangelizar.

E, por falar em evangelização, Bento XVI toca na liturgia eucarística: "os ritos prescritos (...) estão sempre a indicar na liturgia eucarística o cerne de toda obra de evangelização." E isso é possível se os ritos forem cumpridos com exemplaridade. O Papa está a sinalizar que a exemplaridade com que os ministros ordenados cumprem os ritos é oportunidade de transmissão do conhecimento da fé.

O Papa tem a consciência, e a revela, que a modernidade não conseguiu realizar os anseios que dizem respeito à felicidade do homem. Ao contrário, lançou-o num vazio, preenchido por tantos desvalores (a razão como único juiz, a banalidade da vida, o dinheiro como deus, armamentismo, hedonismo, egoísmo...). Como antídoto a esses desvalores o Papa coloca a santidade, cujo conteúdo (como a defesa da vida desde a concepção, matrimônio, castidade...) parece contrastar com a mentalidade hodierna alimentada pela temporalidade, pela materialidade.

Bento XVI é profeta. Denuncia, aponta desvios, defende a vida, indica a solução. Confirma na fé os fiéis e firma-os na unidade.