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sábado, 18 de agosto de 2007

'Afastar-se da religião é avanço civilizatório'

A afirmação acima é de Richard Dawkins, professor na Universidade de Oxford (Inglaterra), em recente entrevista ao jornalista Herton Escobar, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 12/08/2007 (domingo), página A25.

A entrevista está atrelada ao lançamento, no Brasil, do livro "Deus, um Delírio", de autoria do entrevistado, a cargo da editora Cia. das Letras.

O tema não é novidade e inspira-me a fazer ligeiras considerações.

O filósofo Voltaire (1694-1778), expoente do Iluminismo, já pregara "o evangelho da razão".

E ainda filósofos como Ludwig Feuerbach (1804-1872), cuja opinião teve grande influência em Karl Marx (1818-1883), e Friederich Nietzsche (1844-1900), cujo pensamento foi objeto de tentativa de apropriação pela ideologia nazista, afastaram Deus e colocaram, em seu lugar, o homem, a razão, a ciência.

Nietzsche pregou "a morte de Deus".

O marxismo-ortodoxo, também conhecido por materialismo dialético ou marxismo-leninismo, foi a doutrina oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, após a Revolução de 1917. Na essência também negava Deus e prometia um paraíso de bens materiais.

A ideologia nazista não diferentemente negava Deus. Seu projeto era dominar culturalmente o mundo, como que "deletando" tudo que fosse contrário à essa doutrina e criando uma nova civilização.

O marxismo, como sistema de poder político, agonizou. E onde ainda não agonizou convive com outras idéias.

O nazismo, com a sua arrogância, é coisa do passado.

Aquilo que o professor Richard Dawkins quer passar para o público já foi experimentado na história recente, e até mesmo por força dos sistemas ideológicos de poder político. Dawkins não cria nada de novo, porque um certo distanciamento de Deus ou indiferença (tanto faz Ele existir ou não) - e até a sua negação - ou da religião (oficial) persistem no atual momento histórico da humanidade.

Efetivamente, para boa parte do mundo ocidental Deus (e, por extensão, Igreja e religião) não é um ser necessariamente relevante. No máximo, é um dado acidental, incapaz de interferir decisivamente.

Basta notar certos fatos: leis de aborto que foram aprovadas recentemente em países que se dizem cristãos, como México e Portugal; o desarmamento da sociedade que a nação brasileira não aprovou no referendo a que foi chamada a opinar. Isso é suficiente para demonstrar, na prática, que Deus não está no centro das decisões que as pessoas tomam (Ele é algo distante, indiferente ou negado).

Basta mais um exemplo recente.

O Continente Europeu é devedor da cultura cristã. Não obstante os esforços da Igreja, sobremodo na pessoa do Papa João Paulo II, os responsáveis pela redação ou aprovação da Constituição da União Européia não tiveram a necessária liberdade e altivez para inserir no texto o nome de Deus e uma referência ao cristianismo.

O capitalismo criou as periferias, criou o Terceiro Mundo.

Deus foi afastado. Ele é um estorvo ao "avanço civilizatório". Deus não está no centro dos grandes projetos dos homens de poder.

Na medida em que Deus não está em nada, o homem deixa de ser visto como pessoa, mas apenas como componente utilitário do sistema. Se útil, tudo bem. Do contrário, ele atrapalha o bem estar imediato e hedonista da sociedade. É bom matá-lo, porque Deus (ah, este!?) eles já o mataram.

O homem está hoje nessa encruzilhada. Um passado que vem do Iluminismo, passa pelas grandes sistemas ideológicos de poder (comunismo, nazismo, fascismo, fundamentalismo em suas acepções religiosa e racionalista), não conseguiu dar ao homem, dito liberto da tutela da religião (Kant), a felicidade prometida.

O pensamento e o livro do professor Richard Dawkins não têm cacife para tornar as coisas melhores ou piores. É chover no molhado. É apenas mais um dentre muitos que pregam a morte de Deus e que se colocam como adversos à intrínseca transcendência que permeia o homem em sua integridade.

É bem ao contrário, o homem de hoje, insatisfeito das coisas do mundo (sistematizá-las como "modernidade"), busca o sagrado, ainda que de forma difusa, mas o busca.


O homem quer, e precisa, de algo para além da ciência ou da razão.

Leia também:
Santidade
Recomeçar a partir de Cristo
Sou Católico - Vivo a minha Fé



Fonte da primeira imagem:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Dawkins
Fonte da segunda imagem:
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/e00012.htm

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Recomeçar a partir de Cristo

Na santificada tarde de sexta-feira, o Papa e os bispos brasileiros celebraram as Vésperas da Liturgia das Horas, na Catedral da Sé, no centro da cidade de São Paulo. Bento XVI fez um discurso (homilia) dos mais contundentes até agora pronunciados.

Neste post, não enfocaremos todos os temas abordados pelo discurso. Fiquemos apenas com este:

Recomeçar a partir de Cristo em todos os âmbitos da missão, afirma o Papa.

Isso mesmo: recomeçar é o que a Igreja precisa no tempo atual. E recomeçar a partir do evento fundador: Jesus de Nazaré, o Cristo.

Tempos houve em que a Igreja esteve despreocupada com a evangelização contínua e profunda. Contentava-se com aquela ingênua catequese para a primeira comunhão, e só. Despreocupada porque todos se sentiam católicos e em tudo se respirava o catolicismo. Grande parte da população estava no campo. E a situação aqui, quer econômica quer social e familiar (grande família), favorecia a permanência de valores cristãos.

Tempos mudaram. Kant, filósofo alemão, diz que o homem atinge sua maioridade. Não necessita ser tutelado pela religião. A Revolução Francesa, com seu ideário de liberdade, igualdade e fraternidade, influenciou movimentos de emancipação política. A Razão, e tão somente ela, é deusa da vida. Deus sai do centro. Laicismo se opõe a sagrado (Igreja, clerical...). O Estado se define simplesmente laico (O Estado brasileiro é laico a partir da proclamação da República, em 1889).

É a modernidade. Que, no final, decepciona o homem na felicidade a ele prometida.

Pois bem, esse conjunto de coisas alterou aquele cenário do catolicismo que se reproduzia naturalmente pelo estímulo das condições culturais sem rivais da época. Aquela fé educada numa catequese ingênua se revelou débil para se sustentar, para fazer frente a essa nova cultura. O campo se esvaziou e a cidade inchou. Os valores cristãos cederam lugar aos apelos da vida urbana: consumista e utilitarista.

A população campestre que veio para a cidade, caindo em situação de pauperidade e sentindo a falta de um contato mais direto de alguém para auscultar suas ansiedades, pendeu para o segmento religioso que melhor lhe aprouve. E a isso se some que a população, fragilizada por aquela ingênua formação catequética, acabou por caracterizar que tanto faz seguir indiferentemente este ou aquele segmento religioso.

Casos há, porém, que a perda de fiéis se credita à ausência de padres nas cercanias das grandes cidades e nas pequenas cidades do interior.

Diante desse quadro, quer seja pelo laicismo da sociedade ou pela precariedade da evangelização, quer seja pelo fluxo migratório do campo para a cidade ou pelo insuficiente número de padres, quer seja pela ausência de um discurso atualizado e testemunhado ou pela mercantilização religiosa, importa à Igreja recomeçar a partir de Cristo. Como? Pela evangelização, segmentada na formação de ministros e na catequese continuada e aprofundada. Na vivência da fé por uma liturgia de qualidade. Na atitude de acolhimento que venha a permear tudo.

A respeito, afirma o Papa: “porque fé, vida e celebração da sagrada liturgia como fonte de fé e de vida, são inseparáveis”.

Nesse contexto, a posição de Bento XVI se afigura para além da modernidade: repor o homem, segundo seu intento, no caminho da felicidade.