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terça-feira, 23 de abril de 2019

Papa emérito Bento XVI: A Igreja e os abusos sexuais

Entre as liberdades pelas quais a Revolução de 1968 lutou estava a total liberdade sexual, uma que não mais possuía normas. (Papa Emérito Bento XVI)



Bento XVI, hoje Papa emérito, continua multiplicando os talentos que o bondoso Deus lhe confiou.

A agência católica de notícias Aciprensa (ACI Digital) divulgou  no dia 11 de abril de 2019, quinta-feira, em tradução para o português, o artigo "A Igreja e os abusos sexuais", originariamente escrito em alemão pelo Papa Emérito para o Klerusblatt, jornal de circulação mensal cujo público alvo é o clero de dioceses da Baviera.

O artigo, em seu inteiro teor e em português, pode ser lido clicando aqui.


Leia mais:

Abusos de menores. A resposta da Igreja.


Fonte da imagem:
https://www.gaudiumpress.org/content/53490-Bento-XVI-recebe-visita-de-Patriarcas-das-Igrejas-Orientais--no-Vaticano

quinta-feira, 29 de março de 2018

Pequeno grande livro: "Liturgia: Mistério da Salvação"

... que as pessoas aprendam o que é liturgia a partir de dentro, o que ela realmente significa, vivenciando-a. (Bento XVI, em O último testamento / Peter Seewald, 1ª ed., São Paulo, Planeta, 2017, p. 239)


Pequeno em tamanho e em número de páginas (não além de 40), mas grande em conteúdo, eis o que é o livro Liturgia: Mistério da salvação, cujo título da edição italiana é Liturgia - Misterium salutis. A tradução é de José Dias Goulart.

O autor dessa obra outro não é senão Monsenhor Guido Marini, Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, que acompanhou o Papa Bento XVI, e agora o Papa Francisco, nas celebrações litúrgicas.

O livro se propõe a enfrentar alguns temas referentes ao espírito da liturgia. Citados na obra, Romano Guardini e Joseph Ratzinger (Bento XVI) são baluartes do estudo do espírito da liturgia

Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo ao âmago, ao elemento medular da liturgia, eis o espírito da liturgia; ou, como diz Guido Marino, 

Um espírito, digo mais, que nos leva ao essencial da liturgia, ou seja, a uma oração inspirada e guiada pelo Espírito, na qual Cristo continua a ser nosso contemporâneo, irrompendo em nossa vida. De fato, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito. (p. 8).

O centro de algumas indagações teológicas ou litúrgicas têm por palco o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). As dificuldades na recepção do Concílio Vaticano II desaguam na liturgia, vindo a formar duas correntes. Eis o que diz o Papa Bento XVI, no seu Discurso aos Cardeais, Arcebispos e Prelados da Cúria Romana na apresentação de votos de Natal (quinta-feira, 22 de dezembro de 2005):

O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do Concílio Vaticano II, há quarenta anos. Tal memória suscita a interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de modo correcto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do Concílio teve lugar de modo bastante difícil, mesmo que não se deseje aplicar àquilo que aconteceu nestes anos a descrição que o grande Doutor da Igreja, São Basílio, faz da situação da Igreja depois do Concílio de Niceia: ele compara-a com uma batalha naval na escuridão da tempestade, dizendo entre outras coisas: "O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja falsificando, por excesso ou por defeito, a recta doutrina da fé..." (De Spiritu Sancto, XXX, 77; PG 32, 213 A; Sch 17 bis, pág. 524). Não queremos aplicar exactamente esta descrição dramática à situação do pós-Concílio, todavia alguma coisa do que aconteceu se reflecte nele. Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a "hermenêutica da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio.

Na esteira de Bento XVI, o autor do livro alinha-se aos que defendem a hermenêutica da continuidade, que é, segundo Guido Marini, "a única interpretação correta da vida da Igreja, e em particular dos documentos  conciliares, como também dos propósitos de reforma em todos os níveis neles contidos". (p. 6)

Nessa sequência, o autor afirma:

Fruto dessa ideologia desviante, por exemplo, é a corrente distinção entre Igreja pré-conciliar e Igreja pós-conciliar." (p. 6)

Tal linguagem, segundo o mesmo autor, até pode ser legítima se não se quer passar a ideia de duas Igrejas: uma - pré-conciliar - que já não teria coisa alguma a ver com o presente, nada teria a oferecer para hoje, enquanto a outra - a Igreja pós-conciliar - é a Igreja de hoje, "uma realidade nova nascida do Concílio e de algum presumido espírito seu, que se tenha rompido com o passado". (p. 7)

Na medida, portanto, que se quer distinguir a existência de duas Igrejas (pré-conciliar e pós-conciliar) estar-se-á fazendo incorreta interpretação da vida da Igreja.

Nestas alturas da exposição, o próprio autor da obra indaga:

O que até aqui se afirmou a respeito da "continuidade", será que tem algo a ver com o tema que somos convidados a tratar? Absolutamente sim. Pois não pode existir o autêntico espírito da liturgia, quando não buscada com ânimo sereno e nada polêmico a respeito do passado, tanto remoto quanto próximo. A liturgia não pode nem deve ser terreno de choque entre os que só encontram o bem naquilo que havia antes de nós, e, por outro lado, aqueles que só enxergam o mal naquilo que existia antes. Somente a disposição de olhar o presente e o passado da liturgia da Igreja, como patrimônio único que se desenvolve homogêneo, é que pode levar-nos a obter, com alegria e prazer espiritual, o autêntico espírito da liturgia. Um espírito que precisamos acolher da Igreja e que não é fruto de nossas invenções. (pp. 7-8)

Por oportuno, nessa esteira de princípios, não se de há de falar de descontinuidade e ruptura com o Concílio de Trento (1545-1562)

O autor bate firme: "tratar hoje do espírito da liturgia é mais do que necessário, sobretudo entre os sacerdotes." (p. 5)

Feita a introdução, o livro está dividido por temas:

1 - A Sagrada Liturgia, grande dom de Deus à Igreja (pp. 11-17).

2 - Orientação da oração litúrgica (pp. 19-24.

3 - Adoração e união com Deus (pp. 25-29).

4 - Participação ativa (pp. 31-36).

5 - Música sacra ou litúrgica (pp. 37-41)

Os cinco temas, bem sintetizados pelo autor, proporcionam matéria para próximos posts.


Leia mais:

A Adoração em Espírito e Verdade, por Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.


Fonte da imagem:
http://www.paulus.com.br/loja/liturgia-misterio-da-salvacao_p_3040.html

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz

O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam no país da sombra da morte, uma luz resplandeceu. (Is 9,1)




Conhece-se Jesus a partir dos quatro Evangelhos. Pelo viés simplesmente histórico ("Jesus histórico"), recorre-se principalmente aos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, chamados sinóticos.

Pondere-se, porém, que Jesus, o Cristo, o Messias, o "Jesus histórico", outro não há senão o dos Evangelhos. A este respeito, depois de fazer indicações metodológicas que distinguem a figura de Jesus no Novo Testamento, Joseph Ratzinger - Bento XVI esclarece:

Para minha representação de Jesus, isto significa, principalmente, que eu confio nos Evangelhos. Naturalmente que se pressupõe tudo o que o Concílio e a moderna exegese nos dizem sobre os gêneros literários, sobre a intenção narrativa, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e o seu falar neste contexto vivo. Então, acolhendo tudo isto - tanto que foi possível -, quis tentar representar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, como o "Jesus histórico" no sentido autêntico. Estou convencido, e espero que também o leitor possa ver, que esta figura é mais lógica e historicamente considerada mais compreensível do que as reconstruções com as quais fomos confrontados na últimas décadas. Penso que precisamente este Jesus - o dos Evangelhos - é uma figura racional e manifestamente histórica. (Jesus de Nazaré - Primeira Parte - Do Batismo no Jordão à Transfiguração, São Paulo, Planeta, 2007, p. 17)

O estudo dos Evangelhos proporciona, com autoridade, o conhecimento de Jesus. Entretanto, os Evangelhos não são escritos que ficam lá no passado. Ao contrário, são atuais e operantes. Os Evangelhos exercem uma ação atrativa destinando-se a fazer discípulo e a estabelecer uma relação do seu leitor com o Cristo que vive. Ou, nas precisas palavras de Joachim Gnilka:

É evidente que o estudo dos Evangelhos permite conhecer Jesus, tornar-se seu discípulo. Este é o objectivo dos Evangelhos. A sua intenção não é simplesmente evocar acontecimentos históricos, mas estabelecer, em primeiro lugar, uma ligação com o Cristo vivo. É importante que o leitor deste tipo de Evangelho tenha presente que não está diante de material passado, histórico, morto, mas sim com alguém que a pessoa sabe, na fé, que está vivo, que interpela a vida do leitor e que actua na comunidade. (Jesus de Nazaré - Mensagem e história, 1ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1999, p. 312).

Jesus nasceu em dado momento histórico, determinável. O Cardeal Ratzinger, hagiógrafo de Jesus dos Evangelhos, afirma:

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido "uma vez", típico do mito; mas pertence a um tempo, que pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido; o universal e o concreto tocam-se mutuamente. (A infância de Jesus, São Paulo, Planeta, 2012, p. 57)

Pois bem, é no contexto histórico e geográfico indicado no Evangelho de Lucas (Lc 2, 1-14) que Jesus nasceu. E esse Evangelho corresponde ao elenco das leituras da Santa Missa na Noite do Natal do Senhor (Calendário Litúrgico: Ano B - São Marcos), celebrada universalmente na noite do dia 24 de dezembro de 2017.

O Papa Francisco inicia a sua homilia na solene celebração da Santa Missa na Noite do Natal do Senhor (Basílica de São Pedro, 24 de dezembro de 2017), realçando o duplo papel de Maria no nascimento de Jesus:

«Completaram-se os dias de [Maria] dar à luz e teve o seu filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7). Com esta afirmação simples mas clara, Lucas leva-nos ao coração daquela noite santa: Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz. Uma narração simples para nos entranhar no acontecimento que muda para sempre a nossa história. Tudo, naquela noite, se tornava fonte de esperança.  

A homilia ocupa-se de quatro eixos: luz, esperança, fé e caridade. Repita-se: a homilia papal tem como ponto de partida Maria. A ação de Maria é dupla:

Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz.

A Luz com que somos presenteados por intermédio de Maria é o Cristo, Filho de Deus. Essa grande luz que ilumina a escuridão, que dissipa as trevas, remete-nos ao Mistério da Ressurreição, cujo símbolo é o Círio Pascal.


Leia mais:

Audiência Geral - Quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Qual é o sentido da ressurreição de Jesus para um cristão?


Fonte da imagem:
http://www.centroloyola.puc-rio.br/espiritualidade/retiro-o-caminho-da-luz-rumo-ao-coracao-de-deus/

sábado, 9 de dezembro de 2017

A formacão litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação


"A verdadeira educação litúrgica não pode consistir em aprender e ensaiar atividades exteriores, mas sim em conduzir para a verdadeira actio, que faz da Liturgia o que ela é: conduzir para o poder transformador de Deus, o qual, através do acontecimento litúrgico, queria transformar os Homens e o Mundo. Neste ponto, a actual educação litúrgica tanto dos sacerdotes como dos leigos, encontra-se num estado deficitário preocupante - aqui há muito por fazer."
(Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia, 2ª edição, 2006, Lisboa, Paulinas, p. 130)




Na Audiência Geral de Quarta-feira (dia 8 de novembro de 2017), o Papa Francisco iniciou nova série de catequeses; catequeses determinadas à formação litúrgica dos fiéis, no âmbito da Eucaristia.

É do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) que se segue tal comprometimento, uma vez que ele 

Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. (n. 1),

Isso é o que se lê, logo de início, na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC. n. 1), que foi o primeiro dos documentos do Concílio Vaticano II, aprovado pelo beato Paulo VI em 4 de dezembro de 1963.

Da Liturgia, como que de um rio de água viva [Ap 22, 1] corre para nós e sobre nós a graça, por meio da qual, conseguimos a santificação em Cristo e a glorificação de Deus.

Para que isso aconteça é necessária a sinergia (do grego: syn - junto + ergon - trabalho), ou a ação conjunta. "Este termo clássico entre os Padres, procura traduzir a novidade da união de Deus e do homem em Cristo, ou melhor, da energia do Espírito Santo que penetra interiormente a energia do homem e o identifica com Cristo. Todo o realismo da liturgia e da divinização está nesta sinergia" (Jean Corbon, A Fonte da Liturgia, Lisboa, Paulinas, p. 11), de modo que, acercando-se da Sagrada Liturgia com disposições de reta intenção,

unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28) [SC, n. 11]
 
Entretanto, para se chegar eficazmente a tudo isso, é conditio sine qua non (condição sem qual não) a participação plena, consciente e ativa. Por isso que

Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e ativa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação. [SC, n. 14]

Em tantas mais passagens da referida Sacrosanctum Concilium (SC) fala-se dessa virtuosa participação, necessária para render os frutos da santificação e da glorificação.

Considerada como o exercício da função sacerdotal de Cristo [SC, n. 7], a Liturgia é ação essencialmente sagrada (SC, n. 7) e

contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7). [SC, n. 2]

A Sacrosanctum Concilium declara que a finalidade do Concílio, em propondo o fomento da vida cristã entre os fiéis, a adaptação do que é suscetível de mudança às necessidades deste tempo, a promoção do que possa contribuir para união dos que creem no Cristo e o fortalecimento do que possa ajudar ao chamamento de todos ao seio da Igreja, deságua, como já visto, na reforma e incremento da Liturgia (SC, n. 1).

Daí se vê a importância substancial da Liturgia. Liturgia esta que se crê (mistério acreditado), que se celebra (mistério celebrado) e que se vive (mistério vivido).

Em sua Introdução (Proêmio), a Sacrosanctum Concilium sintetiza aspectos da reforma e incremento  litúrgico, entre outros, o caráter sagrado da Liturgia, a santificação em Cristo, a glorificação de Deus, a ordenação e subordinação do humano ao divino, a participação plena, consciente e ativa, a ação de exprimir na vida e de manifestar aos outros o que se celebra (SC, n. 2). 

A reforma litúrgica deve, sem descuidar de outros princípios ou aspectos, assumir, como objetivo fundamental a boa catequese sobre a participação plena, consciente e ativa dos fiéis na celebração, como quer o Concílio Vaticano II, que, por sua vez, frutuosa e piedosa, conduz à renovação litúrgica. A renovação litúrgica "consiste em deixar-se penetrar totalmente do espírito que inspirou a revisão dos ritos e textos. Em outras palavras, levar o povo até o coração da liturgia para que viva em profundidade  o que celebra e celebre autenticamente o que vive" (Julián López Martín, No Espírito e na Verdade, vol. II, Petrópolis, Vozes, pp. 302-303).

Realizada, pois, a reforma dos ritos e textos litúrgicos, procura-se, com a ênfase da atual série das catequeses do Papa Francisco, dinamizar a concretização da renovação litúrgica, que, como recorda o Pontífice, passa pela formação litúrgica:

Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação. E é precisamente esta também a finalidade deste ciclo de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos concedeu na Eucaristia. [Audiência Geral de Quarta-feira, 8/11/2017]

As catequeses do Papa Francisco sobre a formação litúrgica (quartas-feiras do ano de 2017) podem ser acompanhadas e acessadas aqui.

Por oportuno, as palavras de Bento XVI, em conversa com Peter Seewald, respondendo à pergunta sobre empobrecimento e abusos na liturgia:

"No plano institucional e jurídico não se pode fazer muita coisa. Importante é que exista uma visão interna desse fato, que as pessoas aprendam o que é a liturgia a partir de dentro, o que ela realmente significa, vivenciando-a. Exatamente por isso escrevi alguns livros sobre este tema. Infelizmente ainda existem esses posicionamentos estreitos de certos grupos de supostos especialistas, que absolutizam suas próprias teorias e não enxergam o que é essencial. Não é o caso de permitir toda espécie de manipulação pessoal, mas de que a liturgia tem significado em si mesma e se celebra a partir de dentro. Mas isso é algo que não se pode comandar." (Peter Seewald, Bento VI - O Último Testamento, Planeta, p. 239).

Por fim, Joachim Gnilka, respondendo a uma das perguntas da Entrevista (Jesus, o Cristo), em apêndice ao seu livro, sobre o fato de Jesus reunir em torno de si um grupo de discípulos, mas registrando que as autênticas reformas (e isso é pertinente aqui) fazem o caminho de retorno às fontes, afirma:

"De facto, as verdadeiras reformas na Igreja realizaram-se sempre como um regresso às origens. E a ideia de discipulado, de ser discente de Jesus, na minha  opinião,  é muito importante." (Jesus de Nazaré, Lisboa, Presença, p. 308)


Leia mais:

Papa Francisco: la riforma della da liturgia
Fonte da imagem:
http://revista.olutador.org.br/formacao-liturgica-formar-para-que/

terça-feira, 24 de maio de 2016

Instrução Geral do Missal Romano: bom começo para o estudo da liturgia eucarística


A Instrução Geral do Missal Romano - IGMR é documento oficial da Igreja.

Ao promulgar o Missal Romano (Constituição Apostólica Missale Romanum), restaurado segundo o Concílio Ecumênico Vaticano II, o Papa Paulo VI afirmou:
 
Em primeiro lugar temos a Instrução Geral que, como Proêmio do livro, expõe as novas normas para a celebração do Sacrifício Eucarístico, tanto em relação aos ritos e funções de cada participante, como às alfaias e lugares sagrados.

Em sua Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine, de 7 de outubro de 2004, São João Paulo II colocou o estudo da Instrução Geral do Missal Romano como um dos compromissos do Ano da Eucaristia, visando celebrar bem e decorosamente, com participação do povo, o Mistério Eucarístico:

Grande mistério, a Eucaristia! Mistério que deve ser, antes de mais nada, bem celebrado. É preciso que a Santa Missa seja colocada no centro da vida cristã e que, em cada comunidade, tudo se faça para celebrá-la decorosamente, segundo as normas estabelecidas, com a participação do povo, valendo-se dos diversos ministros no desempenho das atribuições que lhes estão previstas, e com uma séria atenção também ao aspecto de sacralidade que deve caracterizar o canto e a música litúrgica. Um compromisso concreto deste Ano da Eucaristia poderia ser estudar a fundo, em cada comunidade paroquial, os «prænotanda» da Instrução Geral do Missal Romano. O caminho privilegiado para ser introduzido no mistério da salvação, actuada nos «sinais» sagrados, continua a ser o de seguir com fidelidade o desenrolar do ano litúrgico. Os Pastores empenhem-se na catequese «mistagógica», muito apreciada pelos Padres da Igreja, que ajuda a descobrir as valências dos gestos e das palavras da liturgia, ajudando os fiéis a passar dos sinais ao mistério e a implicar no mesmo toda a sua existência. (n. 17) - grifei em negrito.

Bento XVI, na sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, de 22 de fevereiro de 2007, realçou as virtudes da Instrução Geral do Missal Romano:

Ao ressaltar a importância da arte da celebração, consequentemente põe-se em evidência o valor das normas litúrgicas.(121) Aquela deve favorecer o sentido do sagrado e a utilização das formas exteriores que educam para tal sentido, como, por exemplo, a harmonia do rito, das vestes litúrgicas, da decoração e do lugar sagrado. A celebração eucarística é frutuosa quando os sacerdotes e os responsáveis da pastoral litúrgica se esforçam por dar a conhecer os livros litúrgicos em vigor e as respectivas normas, pondo em destaque as riquezas estupendas da Instrução Geral do Missal Romano e da Instrução das Leituras da Missa. Talvez se dê por adquirido, nas comunidades eclesiais, o seu conhecimento e devido apreço, mas frequentemente não é assim; na realidade, trata-se de textos onde estão contidas riquezas que guardam e exprimem a fé e o caminho do povo de Deus ao longo dos dois milénios da sua história. Igualmente importante para uma correcta arte da celebração é a atenção a todas as formas de linguagem previstas pela liturgia: palavra e canto, gestos e silêncios, movimento do corpo, cores litúrgicas dos paramentos. Com efeito, a liturgia, por sua natureza, possui uma tal variedade de níveis de comunicação que lhe permitem cativar o ser humano na sua totalidade. A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas. A atenção e a obediência à estrutura própria do rito, ao mesmo tempo que exprimem a consciência do carácter de dom da Eucaristia, manifestam a vontade que o ministro tem de acolher, com dócil gratidão, esse dom inefável. (n. 40) - grifei em negrito.

O estudo da IGMR proposto por São João Paulo II continua válido (e estará sempre válido), sobremodo pela observação do seu sucessor na sede de São Pedro de que o conhecimento e o devido respeito pelo livros litúrgicos, bem assim pela riqueza dos sinais, não se dá por adquirido nas comunidades, como confirmam estas palavras de Bento XVI:

Talvez se dê por adquirido, nas comunidades eclesiais, o seu conhecimento e devido apreço, mas frequentemente não é assim (Sacramentum Caritatis, n. 40).

Em conclusão, o estudo da Instrução Geral do Missal Romano - IGMR (esta, como disse Paulo VI, é um proêmio do Missal Romano, motivo pelo qual ela se encontra logo nas primeiras páginas do Missal), a instâncias dos nomeados Pontífices, merece, com maior razão, ser estudada nas comunidades paroquiais, visando à formação litúrgica ou seu aprofundamento, para que, segundo São João Paulo II:

[...] a Santa Missa seja colocada no centro da vida cristã e que, em cada comunidade, tudo se faça para celebrá-la decorosamente, segundo as normas estabelecidas, com a participação do povo, valendo-se dos diversos ministros no desempenho das atribuições que lhes estão previstas, e com uma séria atenção também ao aspecto de sacralidade que deve caracterizar o canto e a música litúrgica.



Leia mais:

Missal Romano e Lecionário: princípios e normas


Fonte da imagem:
http://grupomaranatha.webnode.com.br/products/instru%C3%A7%C3%A3o%20geral%20do%20missal%20romano/

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dia Mundial do Doente - 2015

La celebración anual de la Jornada mundial del enfermo tiene, por tanto, como objetivo manifiesto sensibilizar al pueblo de Dios y, por consiguiente, a las varias instituciones sanitarias católicas y a la misma sociedad civil, ante la necesidad de asegurar la mejor asistencia posible a los enfermos; ayudar al enfermo a valorar, en el plano humano y sobre todo en el sobrenatural, el sufrimiento; hacer que se comprometan en la pastoral sanitaria de manera especial las diócesis, las comunidades cristianas y las familias religiosas; favorecer el compromiso cada vez más valioso del voluntariado; recordar la importancia de la formación espiritual y moral de los agentes sanitarios; y, por último, hacer que los sacerdotes diocesanos y regulares, así como cuantos viven y trabajan junto a los que sufren, comprendan mejor la importancia de la asistencia religiosa a los enfermos. 


No dia 13 de maio de 1992, o Papa João Paulo II dirigiu Carta ao Cardeal Fiorenzo Angelini, Presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo da Saúde, por ocasião da instituição do Dia Mundial do Doente.

O Papa fixou 11 de fevereiro como data do Dia Mundial do Doente.

De lá pra cá, vinte anos estão se passando. Na sequência dos anos, coube, pois, ao Papa Francisco a Mensagem para o XXIII Dia Mundial do Doente a ser celebrado no dia 11 de fevereiro de 2015, cujo tema é:

«Sapientia cordis. “Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo” (Job 29, 15)»

, o servo justo e sofredor. É no livro dele (Jó 29, 15) que o Papa Francisco se inspirou para o tema da Mensagem.

E, segundo o Livro da Sabedoria, esta é:

É ela uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade. (Sb 7, 26)

Ou melhor, fiquemos com o conceito dado pelo Papa Francisco à sabedoria do coração, fruto do Espírito Santo:

Esta sabedoria não é um conhecimento teórico, abstracto, fruto de raciocínios; antes, como a descreve São Tiago na sua Carta, é «pura (…), pacífica, indulgente, dócil, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem hipocrisia» (3, 17). Trata-se, por conseguinte, de uma disposição infundida pelo Espírito Santo na mente e no coração de quem sabe abrir-se ao sofrimento dos irmãos e neles reconhece a imagem de Deus. Por isso, façamos nossa esta invocação do Salmo: «Ensina-nos a contar assim os nossos dias, / para podermos chegar à sabedoria do coração» (Sal 90/89, 12). Nesta sapientia cordis, que é dom de Deus, podemos resumir os frutos do Dia Mundial do Doente.

A sabedoria do coração (sapientia cordis), algo para além do saber acadêmico, tem um núcleo profundo, espiritual, transcendente, sem fronteiras, cuja tradução é uma disposição amorosa para e com todas as pessoas, necessitadas, carentes, doentes...

Nesse sentido, com sabedoria, e sabedoria do coração, é mais confortável defrontar-se com a realidade da doença e dos doentes. É algo amoroso. É uma virtude.

O Papa nomeia quatro espécies da sabedoria do coração que inspiram a disposição de colocar-se a serviço do e com o doente:

Sabedoria do coração é servir o irmão. 
Sabedoria do coração é estar com o irmão.
Sabedoria do coração é sair de si ao encontro do irmão.
Sabedoria do coração é ser solidário com o irmão, sem o julgar.

O texto completo da Mensagem para o XXIII Dia Mundial do Doente, em português, pode ser lido aqui.


Leia mais:

Mensagens para o Dia Mundial do Enfermo, de João Paulo II

Mensagens para o Dia Mundial do Doente, de Bento XVI

Mensagens para o Dia Mundial do Doente, de Francisco


Fonte da imagem:
http://www.chiesacattolica.it/pls/cci_new_v3/v3_s2ew_consultazione.mostra_pagina?id_pagina=62039

quinta-feira, 13 de março de 2014

Um ano do Pontificado do Papa Francisco, Bispo de Roma

Queremos tornar-nos santos?
 Sim ou não? (Papa Francisco)


O Cardeal Jorge Mário Bergoglio, S.J, Arcebispo do Arcebispado de Buenos Aires, foi escolhido Bispo de Roma e, por conseguinte, Papa da Igreja Católica Apostólica Romana, em 13 de março de 2013, sucedendo ao Papa Bento XVI (conferir Declaratio aqui).

Ao ser eleito, escolheu o nome Francisco com referência direta a São Francisco de Assis, o santo dos pobres, reconstrutor da Igreja. Conta-se que o Cardeal Dom Frei Cláudio Hummes, O.F.M., Arcebispo Emérito da Arquidiocese de São Paulo, teve influência na escolha do nome, posto que lembrou ao eleito que não se esquecesse dos pobres (conferir vídeo abaixo). Ambos os Cardeais são de ordem religiosa: Cardeal Bergoglio é um jesuíta, enquanto Cardeal Hummes é franciscano.
 
Para o aniversário de um ano de pontificado do Papa Francisco, o Vaticano publicou um álbum digital com fotografias e citações do Papa.

Muito atraente e bonito, o álbum, em português, pode ser conferido aqui.

 


Leia mais:

1º aniversário: Papa tuíta pedindo orações aos fiéis

Papa Francisco - um ano de pontificado nos comentários transmitidos pela RV em língua portuguesa 

O meu primeiro ano com o Papa Francisco - Mons. Xuereb, secretário particular do Santo Padre

Padre Lombardi e o primeiro ano de Francisco


Fonte da imagem:
http://papa.cancaonova.com/a-reforma-da-igreja-no-pontificado-de-francisco/

sábado, 28 de dezembro de 2013

Cardeal Marc Ouellet: o verdadeiro grande evento deste ano foi a renúncia do Papa



A renúncia do Papa Bento XVI abriu grandes possibilidades - afirma o Cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, em entrevista concedida à Radio Vaticana.

E, por tal abertura de grandes possibilidades proporcionada por Bento XVI, o Cardeal conclui: 

É por isso que considero que o verdadeiro grande evento deste ano que se está concluindo foi a renúncia do Papa, um gesto verdadeiramente novo. Foi a maior novidade na história da Igreja, que testemunhou uma grande humildade e, ao mesmo tempo, uma grande confiança no Espírito Santo para o futuro das coisas. É preciso ser muito reconhecedor ao Papa Bento XVI por ter aberto este horizonte e por ter tornado possível esta novidade do Papa Francisco. Creio que haja uma continuidade entre a primeira novidade e todas aquelas que o Papa Francisco tem trazido. Olhando para 2013, considero que estamos num momento de grande viravolta na história da Igreja, que descrevo como pastoral justamente em relação à figura do Papa Francisco.

Bento XVI possibilitou para a Igreja essa grande novidade que cativa todo mundo: Francisco, que já foi reconhecido a Pessoa do Ano.

Novas e importantes perspectivas para a Igreja foram abertas com a declaração de renúncia, ou declaratio: os seguidos pronunciamentos do Papa Bento XVI sobre a vida da Igreja (que podem ser conferidos aqui), depois a eleição do primeiro papa latino-americano (Cardeal Jorge Mário Bergoglio, que passou a chamar-se, em latim, Franciscus) e agora o extraordinário trabalho pastoral do Papa Francisco, que pode ser pesquisado aqui.


Reproduzo a seguir o texto completo da entrevista do Cardeal Ouellet e divulgada ontem, dia 27 de dezembro de 2013, sexta-feira, pela Radio Vaticana:

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Cidade do Vaticano (RV) - O ano que se está concluindo pode realmente definir-se extraordinário para a vida da Igreja. A renúncia ao ministério petrino por parte de Bento XVI e a sucessiva eleição do Papa Francisco são eventos que abriram grandes possibilidades para a Igreja. Foi o que ressaltou o prefeito da Congregação para os Bispos, Cardeal Marc Ouellet, entrevistado pela Rádio Vaticano:

Cardeal Marc Ouellet:- "A renúncia do Papa Bento XVI abriu grandes possibilidades. É por isso que considero que o verdadeiro grande evento deste ano que se está concluindo foi a renúncia do Papa, um gesto verdadeiramente novo. Foi a maior novidade na história da Igreja, que testemunhou uma grande humildade e, ao mesmo tempo, uma grande confiança no Espírito Santo para o futuro das coisas. É preciso ser muito reconhecedor ao Papa Bento XVI por ter aberto este horizonte e por ter tornado possível esta novidade do Papa Francisco. Creio que haja uma continuidade entre a primeira novidade e todas aquelas que o Papa Francisco tem trazido. Olhando para 2013, considero que estamos num momento de grande viravolta na história da Igreja, que descrevo como pastoral justamente em relação à figura do Papa Francisco."

RV: A reforma está propriamente no viver o Evangelho e no ser cristão?

Cardeal Marc Ouellet:- "Creio que seja a própria vontade do Papa Francisco; esta vontade de estabelecer um contato novo, mais próximo do Povo de Deus. A primeira reforma é esta: ir além de todas as formas, de todos os protocolos para estabelecer um contato imediato. E fazendo isso, oferece também a todos os bispos um modelo de proximidade pastoral, de busca de uma presença pastoral que seja calorosa, que seja misericordiosa, que traga consolação e que dê uma nova esperança. Há uma novidade e uma promessa na atitude e nos gestos do Papa Francisco. Mas acrescentaria também: aquilo que me parece muito importante em 2013 é a percepção do Papa Francisco na opinião pública mundial. Esse é um evento extraordinário de evangelização."

RV: Nesse sentido, vale lembrar que Francisco foi recentemente eleito personagem do ano pela revista estadunidense "Time"...

Cardeal Marc Ouellet:- "Exatamente. É o sinal dessa influência, dessa necessidade de esperança que há na humanidade e que encontrou na figura do Papa Francisco o seu ponto de referência. É uma grande "novidade", é uma boa nova! Creio que todos nós devemos alegrar-nos com isso."

RV: Desde o início de seu Pontificado criou-se um verdadeiro laço com os fiéis, um laço de amor, podemos dizer também de um interesse. Há esse mesmo interesse dentro da Igreja, no seio da Cúria? Como são percebidas essa sua mensagem e essa sua atitude surpreendente?

Cardeal Marc Ouellet:- "Creio que haja uma grande alegria em constatar a popularidade do Papa. É uma boa popularidade, que não é simplesmente baseada em coisas superficiais. Certamente isso nos interpela e nos obriga também a mudanças de comportamento. O Santo Padre quer a reforma de uma certa mentalidade clerical com ambições eclesiásticas ou ambições mundanas. Combate esse carreirismo! Creio que isso faça muito bem à Igreja, em todos os níveis, começando pela Cúria Romana. Estamos verdadeiramente num momento de graça e espero que o Espírito Santo lhe dê a saúde e a colaboração de que precisa para levar adiante a reforma da Igreja e a nova evangelização."

RV: Este ano de 2013 foi para o senhor caracterizado, portanto, pela passagem do Pontificado de Bento XVI. O senhor é um dos mais estreitos colaboradores do Papa Francisco. Como viveu essa passagem? Como está vivendo essas mudanças, mesmo havendo uma certa continuidade?

Cardeal Marc Ouellet:- "A simplicidade do Papa Francisco e o fato de conhecer Bergoglio já de antes – éramos amigos – torna a nossa colaboração extraordinariamente simples e se dá em plena harmonia. Para mim é uma grande alegria colaborar com ele, ajudando-o ao máximo. A humanidade precisa de uma figura paterna, uma figura próxima; uma figura que seja – ao mesmo tempo – referência moral segura, mas também calorosa e que desperte a esperança!" (RL)


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Leia mais:

A Cátedra de São Pedro está vaga

20 momentos mais importantes do Pontificado de Bento XVI


Fonte do texto reproduzido:
http://pt.radiovaticana.va/news/2013/12/27/card._ouellet:_ren%C3%BAncia_de_bento_xvi_foi_o_grande_evento_deste_ano,/bra-759107

Fonte da primeira imagem:
http://www.nossasenhorademedjugorje.com/2013/08/bento-xvi-o-papa-que-sempre-renunciou.html

Fonte da segunda imagem:
http://www.snpcultura.org/papa_francisco_chegou_castel_gandolfo_para_se_encontrar_bento_xvi.html

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Conclusão do Ano da Fé (2012-2013)


Annus Fidei - Indicazioni Apertura, 11 ottobre 2012

O Ano da Fé foi concluído no dia 24 de novembro de 2013, Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. 

Ao Papa Emérito Bento XVI coube a sua proclamação com o "motu proprio" Porta Fidei. E ao Papa Francisco a sua conclusão, com a celebração da Missa da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, cuja homilia, já traduzida na íntegra para o português, pode ser lida aqui.

Toda a programação havida do Ano da Fé pode ser conferida aqui.

Nesse ambiente do Ano da Fé, foi divulgada pelo Papa Francisco a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), que deita as suas raízes no tema da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos realizada no período de 7 a 28 de outubro de 2012, sobre o tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã.

Por ora, fiquemos por aqui e aproveitemos as riquezas da primeira Exortação Apostólica do Papa Francisco. Boa e proveitosa leitura, cujo texto, em português, também pode ser lido aqui.


Fonte da imagem:
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/2012/documents/ns_lit_doc_20121011_indicazioni_it.html

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

"É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja", afirma o Papa Francisco



A entrevista concedida pelo Papa Francisco ao Diretor da revista La Civiltà Cattolica, na pessoa do seu Diretor Padre Antonio Spadaro, S.J., na Casa Santa Marta, em 19 de agosto de 2013, segunda-feira, ganhou o noticiário como sinal de novos ares, um novo aggiornamento na Igreja.

Francisco é o Papa que "arruma a casa" e seu modo de administrar tem a ver com a sua espiritualidade centrada no discernimento de que fala Santo Inácio de Loyola.

Essa espiritualidade inaciana é esclarecida pelo Papa, ao responder a pergunta que lhe foi formulada pelo Direitor da La Civiltà Cattolica (O que significa para um jesuíta ser Papa?):

«O discernimento é uma das coisas que Santo Inácio mais trabalhou interiormente. Para ele, é um instrumento de luta para conhecer melhor o Senhor e segui-l’O mais de perto. Impressionou-me sempre uma máxima com que se descreve a visão de Inácio: Non coerceri a maximo, sed contineri a minimo divinum est. (não estar constrangido pelo máximo, e no entanto, estar inteiramente contido no mínimo, isso é divino). Reflecti muito sobre esta frase a propósito do governo, de ser superior: não estarmos restringidos pelo espaço maior, mas sermos capazes de estar no espaço mais restrito. Esta virtude do grande e do pequeno é a magnanimidade, que da posição em que estamos nos faz olhar sempre o horizonte. É fazer as coisas pequenas de cada dia com o coração grande e aberto a Deus e aos outros. É valorizar as coisas pequenas no interior de grandes horizontes, os do Reino de Deus».
«Esta máxima oferece os parâmetros para assumir uma posição correcta para o discernimento, para escutar as coisas de Deus a partir do seu “ponto de vista”. Para Santo Inácio, os grandes princípios devem ser encarnados nas circunstâncias de lugar, de tempo e de pessoas. A seu modo, João XXIII colocou-se nesta posição de governo quando repetiu a máxima Omnia videre, multa dissimulare, pauca corrigere, (ver tudo, não dar importância a muito, corrigir pouco) porque mesmo vendo omnia, a dimensão máxima, preferia agir sobre pauca, sobre uma dimensão mínima. Podem ter-se grandes projectos e realizá-los, agindo sobre poucas pequenas coisas. Ou podem usar-se meios fracos que se revelam mais eficazes do que os fortes, como diz São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios».
«Este discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento. E por vezes o discernimento, por seu lado, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. E foi isto o que também me aconteceu nestes meses. E o discernimento realiza-se sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas à vida quotidiana, como usar um automóvel modesto, estão ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governar».
«Pelo contrário, desconfio das decisões tomadas de modo repentino. Desconfio sempre da primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça fazer, se tenho de tomar uma decisão. Em geral, é a decisão errada. Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necessário. A sabedoria do discernimento resgata a necessária ambiguidade da vida e faz encontrar os meios mais oportunos, que nem sempre se identificam com aquilo que parece grande ou forte».

Foto: Alícia Uchôa

A Igreja tem urgências. E entenda-a nesta expressão de Francisco: "A Igreja é a totalidade do povo de Deus". E o Papa reflete que, antes de teorizar, a Igreja precisa arregaçar as mangas, trabalhando como se fosse um hospital de campanha, acolher, curar feridas, fazer-se próxima das pessoas. Dai a sugestiva figura comparativa dessa urgência: Um hospital de campanha. Ouçamo-lo:

"A Igreja? Um hospital de campanha...

O Papa Bento XVI, ao anunciar a sua renúncia ao Pontificado, retratou o mundo de hoje como sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, que requerem vigor, seja do corpo, seja da alma. Pergunto ao Papa, também à luz daquilo que acabou de me dizer: «De que é que a Igreja tem maior necessidade neste momento histórico? São necessárias reformas? Quais são os seus desejos para a Igreja dos próximos anos? Que Igreja “sonha”?»
O Papa Francisco, tomando o incipit da minha pergunta, começa por dizer: «O Papa Bento teve um acto de santidade, de grandeza, de humildade. É um homem de Deus», demonstrando um grande afecto e uma enorme estima pelo seu predecessor.
«Vejo com clareza — continua — que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é necessário começar de baixo».
A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: “Jesus Cristo salvou-te”. E os ministros da Igreja devem ser, acima de tudo, ministros de misericórdia. O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois é misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as mãos porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as mãos dizendo simplesmente “isto não é pecado” ou coisas semelhantes. As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas».
«Como estamos a tratar o povo de Deus? Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos».
«Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem».
Reflicto naquilo que o Papa está a dizer e refiro o facto que existem cristãos que vivem em situações não regulares para a Igreja ou, de qualquer modo, em situações complexas, cristãos que, de um modo ou de outro, vivem feridas abertas. Penso nos divorciados recasados, casais homossexuais, outras situações difíceis. Como fazer uma pastoral missionária nestes casos? Em que insistir? O Papa faz sinal de ter compreendido o que pretendo dizer e responde.
«Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afecto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada».
«Esta é também a grandeza da confissão: o facto de avaliar caso a caso e de poder discernir qual é a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua graça. O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?»
«Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente».
«Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais».
«Digo isto também pensando na pregação e nos conteúdos da nossa pregação. Uma bela homilia, uma verdadeira homilia, deve começar com o primeiro anúncio, com o anúncio da salvação. Não há nada de mais sólido, profundo e seguro do que este anúncio. Depois deve fazer-se uma catequese. Assim, pode tirar-se também uma consequência moral. Mas o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa. A homilia é a pedra de comparação para calibrar a proximidade e a capacidade de encontro de um pastor com o seu povo, porque quem prega deve reconhecer o coração da sua comunidade para procurar onde está vivo e ardente o desejo de Deus. A mensagem evangélica não pode limitar-se, portanto, apenas a alguns dos seus aspectos, que, mesmo importantes, sozinhos não manifestam o coração do ensinamento de Jesus.»"


Mais adiante, ao ser perguntado sobre Dicastérios romanos, sinodalidade, ecumenismo, o Papa Francisco tratou do papel da mulher na Igreja:

"E o papel da mulher na Igreja? O Papa referiu-se a este tema em várias ocasiões. Numa entrevista tinha afirmado que a presença feminina na Igreja não emergiu mais, porque a tentação do machismo não deixou espaço para tornar visível o papel que compete às mulheres na comunidade. Retomou a questão durante a viagem de regresso do Rio de Janeiro, afirmando que ainda não foi feita uma teologia profunda da mulher. Então, pergunto: «Qual deve ser o papel da mulher na Igreja? Como fazer para torná-lo hoje mais visível?»
«É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do “machismo de saias”, porque, na verdade, a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contrário, os argumentos que oiço sobre o papel da mulher são muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. As mulheres têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher, para Igreja, é imprescindível. Maria, uma mulher, é mais importante que os bispos. Digo isto, porque não se deve confundir a função com a dignidade. É necessário, pois, aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. Só realizando esta etapa se poderá reflectir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exactamente esse: reflectir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.""

Por fim, você poderá ler toda a entrevista do Papa Francisco, em português, na Revista Brotéria ou aqui (L'Osservatore Romano, edição semanal em português, Ano XLIV, n. 39, Domingo, 29 de setembro de 2013).


Fonte do texto:
http://www.broteria.pt/component/content/article/101-entrevista-exclusiva-do-papa-francisco-as-revistas-dos-jesuitas?showall=1

Fonte da primeira imagem:
http://www.broteria.pt/outras-revistas/101-entrevista-exclusiva-do-papa-francisco-as-revistas-dos-jesuitas

Fonte da segunda imagem:
http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL374834-5606,00-HOSPITAIS+DE+CAMPANHA+VAO+FUNCIONAR+HORAS+POR+DIA.html

Fonte da terceira imagem:
http://paroquiasaoconradorj.blogspot.com.br/2013/08/dra-zilda-arns-podera-ser-beatificada.html

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Papa Francisco ao Diretor do La Reppublica: a extraordinária autoridade de Jesus



Eugenio Scalfari, fundador e diretor do jornal italiano La Reppublica, que se declara não crente, suscitou um diálogo com o Papa Francisco, com artigos publicados nos dias 7 de julho e 7 de agosto de 2013.

No primeiro artigo, Eugenio Scalfari faz uma reflexão sobre a Lumen Fidei, a primeira encíclica assinada pelo Papa Francisco. Como o conteúdo da encíclica pertence a Bento XVI e a Francisco, o artigo leva o sugestivo título "As respostas que os dois papas não dão".

Scalfari escreve:

"Por isso, levando-se tudo em consideração, o tema que mais me apaixona é a encíclica Lumen fidei, a primeira assinada pelo Papa Francisco. O assunto é importante porque toca o ponto central da doutrina cristã: o que é a fé, de onde ela provém, como ela é vivida pelos crentes, quais reações ela suscita em quem não é cristão, como ela explica a existência da raça humana e como responde a perguntas que cada um de nós se faz e às quais, na maioria das vezes, não encontra resposta: quem somos, de onde viemos, para onde vamos."

No segundo artigo, Eugenio Scalfari, ainda fazendo referência à encíclica Lumen Fidei, formula agora perguntas ao Papa Francisco. E o artigo intitula-se "As perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco".

A certa altura do artigo, Scalfari reporta-se ao já conhecido impulso que o Papa Francisco quer imprimir ou reavivar nos fiéis e na Igreja:

"Ele quer uma Igreja pobre que pregue o valor da pobreza; uma Igreja militante e missionária; uma Igreja pastoral; uma Igreja construída à semelhança de um Deus misericordioso, que não julga, mas perdoa, que busque a ovelha perdida, que acolha o filho pródigo."


No dia 4 de setembro de 2013, o Papa Francisco respondeu a Eugenio Scalfari os artigos publicados no jornal italiano La Reppublica, edições de 7 de julho e 7 de agosto de 2013.

Para esclarecer o título deste post, ou seja, a extraordinária autoridade de Jesus, reproduzo, nessa parte, a resposta dada pelo Papa:

"Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.
Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim."

Francisco expõe sua vontade de proximidade com o outro, como tem sido a sua prática de vida, no sentido de fazer com Scalfari uma caminhada juntos, ou com suas palavras:

"E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 )."

Em português, essas e outras passagens da carta-resposta do Papa Francisco podem ser lidas aqui.


Leia mais:

Jesus, fé e razão: o diálogo do pontífice com a ovelha perdida. Artigo de Eugenio Scalfari

A carta de Francisco e a coragem aberta à cultura moderna. Artigo de Eugenio Scalfari


Fonte da primeira imagem:
http://padretelmofigueiredo.blogspot.com.br/2013/09/papa-francisco-dialoga-com-um-ateu.html

Fonte da segunda imagem:
http://papa.cancaonova.com/papa-responde-a-criticas-e-perguntas-sobre-a-fe/

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A retomada das Catequeses do Ano da Fé pelo Papa Francisco



As Catequeses do Ano da Fé, iniciadas por Bento XVI, tiveram prosseguimento pelo Papa Francisco, a partir da Audiência Geral da Quarta-Feira, dia 3 de abril de 2013.

Reproduzo a Catequese proferida pelo Papa Francisco no dia 3 de abril, seguida das saudações aos peregrinos de língua portuguesa.

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"Prezados irmãos e irmãs
Bom dia!

Hoje retomamos as Catequeses do Ano da fé. No Credo nós repetimos esta expressão: «Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras». É precisamente o acontecimento que estamos a celebrar: a Ressurreição de Jesus, centro da mensagem cristã, que ressoou desde os primórdios e foi transmitido para que chegue até nós. São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: «Transmiti-vos primeiramente o que eu mesmo tinha recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras; depois, apareceu a Cefas e em seguida aos Doze» (1 Cor 15, 3-5). Esta breve confissão de fé anuncia precisamente o Mistério pascal, com as primeiras aparições do Ressuscitado a Pedro e aos Doze: a Morte e a Ressurreição de Jesus são exactamente o coração da nossa esperança. Sem esta fé na morte e na ressurreição de Jesus, a nossa esperança será frágil, mas não será sequer esperança, e precisamente a morte e a ressurreição de Jesus são o coração da nossa esperança. O Apóstolo afirma: «Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é inútil, e ainda viveis nos vossos pecados» (v. 17). Infelizmente, muitas vezes procurou-se obscurecer a fé na Ressurreição de Jesus, e também entre os próprios crentes se insinuaram dúvidas. Um pouco daquela fé «diluída», como dizemos; não é a fé forte. E isto por superficialidade, às vezes por indiferença, preocupados com muitas coisas que se consideram mais importantes que a fé, ou então devido a uma visão apenas horizontal da vida. Mas é precisamente a Ressurreição que nos abre à maior esperança, porque abre a nossa vida e a vida do mundo para o futuro eterno de Deus, para a felicidade plena, para a certeza de que o mal, o pecado e a morte podem ser derrotados. E isto leva a viver com maior confiança as realidades diárias, a enfrentá-las com coragem e compromisso. A Ressurreição de Cristo ilumina com uma luz nova estas realidades quotidianas. A Ressurreição de Cristo é a nossa força! 

Mas como nos foi transmitida a verdade de fé da Ressurreição de Cristo? Há dois tipos de testemunhos no Novo Testamento: alguns têm a forma de profissão de fé, isto é, de fórmulas sintéticas que indicam o âmago da fé; outros, ao contrário, têm a forma de narração do acontecimento da Ressurreição e dos a eventos a ela ligados. O primeiro: a forma da profissão de fé, por exemplo, é aquele que há pouco ouvimos, ou seja, o da Carta aos Romanos, em que são Paulo escreve: «Se com a tua boca professares: “Jesus é o Senhor!”, e no teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo!» (10, 9). Desde os primeiros passos da Igreja, é bem sólida e clara a fé no Mistério de Morte e Ressurreição de Jesus. Hoje, porém, gostaria de meditar sobre o segundo, sobre os testemunhos na forma de narração, que encontramos nos Evangelhos. Antes de tudo, observemos que as primeiras testemunhas deste acontecimento foram as mulheres. De madrugada, elas vão ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus e encontram o primeiro sinal: o túmulo vazio (cf. Mc 16, 1). Depois, segue-se o encontro com um Mensageiro de Deus que anuncia: Jesus de Nazaré, o Crucificado, não está aqui, ressuscitou (cf. vv. 5-6). As mulheres são impelidas pelo amor e sabem acolher este anúncio com fé: acreditam e imediatamente transmitem-no; não o conservam para si mesmas, mas transmitem-no. A alegria de saber que Jesus está vivo, a esperança que enche o coração, não podem ser contidas. Isto deveria verificar-se também na nossa vida. Sintamos a alegria de ser cristãos! Acreditemos num Ressuscitado que venceu o mal e a morte! Tenhamos a coragem de «sair» para levar esta alegria e esta luz a todos os lugares da nossa vida! A Ressurreição de Cristo é a nossa maior certeza; é o tesouro mais precioso! Como não compartilhar com os outros este tesouro, esta certeza? Não é somente para nós, devemos transmiti-la, comunicá-la aos outros, compartilhá-la com o próximo. Consiste precisamente nisto o nosso testemunho. 

Outro elemento. Nas profissões de fé do Novo Testamento, como testemunhas da Ressurreição, são recordados apenas homens, os Apóstolos, mas não as mulheres. Isto porque, segundo a Lei judaica daquela época, as mulheres e as crianças não podiam dar um testemunho confiável, credível. Nos Evangelhos, ao contrário, as mulheres desempenham um papel primário, fundamental. Aqui podemos entrever um elemento a favor da historicidade da Ressurreição: se fosse um episódio inventado, no contexto daquele tempo não estaria vinculado ao testemunho das mulheres. Os evangelistas, ao contrário, narram simplesmente o que aconteceu: as primeiras testemunhas são as mulheres. Isto diz que Deus não escolhe segundo os critérios humanos: as primeiras testemunhas do nascimento de Jesus são os pastores, pessoas simples e humildes; as primeiras testemunhas da Ressurreição são as mulheres. E isto é bonito. Esta é um pouco a missão das mulheres: mães e mulheres! Dar testemunho aos filhos e aos pequenos netos, de que Jesus está vivo, é o Vivente, ressuscitou. Mães e mulheres, ide em frente com este testemunho! Para Deus o que conta é o coração, quanto estamos abertos a Ele, se somos filhos que confiam. Mas isto leva-nos a meditar inclusive sobre o modo como as mulheres, na Igreja e no caminho de fé, tiveram e ainda hoje desempenham um papel especial na abertura das portas ao Senhor, no seu seguimento e na comunicação do seu Rosto, pois o olhar de fé tem sempre necessidade do olhar simples e profundo do amor. Os apóstolos e os discípulos têm dificuldade de acreditar. As mulheres não. Pedro corre até ao sepulcro, mas detém-se diante do túmulo vazio; Tomás deve tocar com as suas mãos as chagas do corpo de Jesus. Também no nosso caminho de fé é importante saber e sentir que Deus nos ama, não ter medo de o amar: a fé professa-se com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor. 

Depois das aparições às mulheres, seguem-se outras mais: Jesus torna-se presente de modo novo: é o Crucificado, mas o seu corpo é glorioso; não voltou para a vida terrena, mas sim para uma nova condição. No início não o reconhecem, e os seus olhos só se abrem através das suas palavras e dos seus gestos: o encontro com o Ressuscitado transforma, dá uma nova força à fé, um fundamento inabalável. Também para nós existem muitos sinais em que o Ressuscitado se faz reconhecer: a Sagrada Escritura, a Eucaristia, os outros Sacramentos, a caridade, os gestos de amor que trazem um raio de luz do Ressuscitado. Deixemo-nos iluminar pela Ressurreição de Cristo, deixemo-nos transformar pela sua força, para que também através de nós, no mundo, os sinais de morte deixem o lugar aos sinais de vida. Vejo que há muitos jovens na praça. Ei-los! Digo-vos: levai em frente esta certeza: o Senhor está vivo e caminha ao nosso lado na vida. Esta é a vossa missão! Levai em frente esta esperança. Permanecei alicerçados nesta esperança, nesta âncora que está no céu; segurai com força a corda, permanecei ancorados e levai em frente a esperança. Vós, testemunhas de Jesus, deveis levar em frente o testemunho de que Jesus está vivo, e isto dar-nos-á esperança, dará esperança a este mundo um pouco envelhecido devido às guerras, ao mal e ao pecado. Em frente, jovens! 


Saudações

Caríssimos peregrinos de língua portuguesa, em particular ao grupo de brasileiros vindo do Paraná: alegrai-vos e exultai, porque o Senhor Jesus ressuscitou! Deixai-vos iluminar e transformar pela força da Ressurreição de Cristo, a fim de que as vossas existências se tornem um testemunho da vida que é mais forte que o pecado e a morte. Boa Páscoa a todos!

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Fonte da Catequese reproduzida:
http://www.vatican.va/holy_father/francesco/audiences/2013/documents/papa-francesco_20130403_udienza-generale_po.html

Fonte da imagem:
http://brazil.frrole.com/o/dois-homens-de-deus---bento-xvi-e-papa-f-peanisioscj-rio-de-janeiro