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sábado, 9 de dezembro de 2017

A formacão litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação


"A verdadeira educação litúrgica não pode consistir em aprender e ensaiar atividades exteriores, mas sim em conduzir para a verdadeira actio, que faz da Liturgia o que ela é: conduzir para o poder transformador de Deus, o qual, através do acontecimento litúrgico, queria transformar os Homens e o Mundo. Neste ponto, a actual educação litúrgica tanto dos sacerdotes como dos leigos, encontra-se num estado deficitário preocupante - aqui há muito por fazer."
(Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia, 2ª edição, 2006, Lisboa, Paulinas, p. 130)




Na Audiência Geral de Quarta-feira (dia 8 de novembro de 2017), o Papa Francisco iniciou nova série de catequeses; catequeses determinadas à formação litúrgica dos fiéis, no âmbito da Eucaristia.

É do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) que se segue tal comprometimento, uma vez que ele 

Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. (n. 1),

Isso é o que se lê, logo de início, na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC. n. 1), que foi o primeiro dos documentos do Concílio Vaticano II, aprovado pelo beato Paulo VI em 4 de dezembro de 1963.

Da Liturgia, como que de um rio de água viva [Ap 22, 1] corre para nós e sobre nós a graça, por meio da qual, conseguimos a santificação em Cristo e a glorificação de Deus.

Para que isso aconteça é necessária a sinergia (do grego: syn - junto + ergon - trabalho), ou a ação conjunta. "Este termo clássico entre os Padres, procura traduzir a novidade da união de Deus e do homem em Cristo, ou melhor, da energia do Espírito Santo que penetra interiormente a energia do homem e o identifica com Cristo. Todo o realismo da liturgia e da divinização está nesta sinergia" (Jean Corbon, A Fonte da Liturgia, Lisboa, Paulinas, p. 11), de modo que, acercando-se da Sagrada Liturgia com disposições de reta intenção,

unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28) [SC, n. 11]
 
Entretanto, para se chegar eficazmente a tudo isso, é conditio sine qua non (condição sem qual não) a participação plena, consciente e ativa. Por isso que

Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e ativa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação. [SC, n. 14]

Em tantas mais passagens da referida Sacrosanctum Concilium (SC) fala-se dessa virtuosa participação, necessária para render os frutos da santificação e da glorificação.

Considerada como o exercício da função sacerdotal de Cristo [SC, n. 7], a Liturgia é ação essencialmente sagrada (SC, n. 7) e

contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7). [SC, n. 2]

A Sacrosanctum Concilium declara que a finalidade do Concílio, em propondo o fomento da vida cristã entre os fiéis, a adaptação do que é suscetível de mudança às necessidades deste tempo, a promoção do que possa contribuir para união dos que creem no Cristo e o fortalecimento do que possa ajudar ao chamamento de todos ao seio da Igreja, deságua, como já visto, na reforma e incremento da Liturgia (SC, n. 1).

Daí se vê a importância substancial da Liturgia. Liturgia esta que se crê (mistério acreditado), que se celebra (mistério celebrado) e que se vive (mistério vivido).

Em sua Introdução (Proêmio), a Sacrosanctum Concilium sintetiza aspectos da reforma e incremento  litúrgico, entre outros, o caráter sagrado da Liturgia, a santificação em Cristo, a glorificação de Deus, a ordenação e subordinação do humano ao divino, a participação plena, consciente e ativa, a ação de exprimir na vida e de manifestar aos outros o que se celebra (SC, n. 2). 

A reforma litúrgica deve, sem descuidar de outros princípios ou aspectos, assumir, como objetivo fundamental a boa catequese sobre a participação plena, consciente e ativa dos fiéis na celebração, como quer o Concílio Vaticano II, que, por sua vez, frutuosa e piedosa, conduz à renovação litúrgica. A renovação litúrgica "consiste em deixar-se penetrar totalmente do espírito que inspirou a revisão dos ritos e textos. Em outras palavras, levar o povo até o coração da liturgia para que viva em profundidade  o que celebra e celebre autenticamente o que vive" (Julián López Martín, No Espírito e na Verdade, vol. II, Petrópolis, Vozes, pp. 302-303).

Realizada, pois, a reforma dos ritos e textos litúrgicos, procura-se, com a ênfase da atual série das catequeses do Papa Francisco, dinamizar a concretização da renovação litúrgica, que, como recorda o Pontífice, passa pela formação litúrgica:

Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação. E é precisamente esta também a finalidade deste ciclo de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos concedeu na Eucaristia. [Audiência Geral de Quarta-feira, 8/11/2017]

As catequeses do Papa Francisco sobre a formação litúrgica (quartas-feiras do ano de 2017) podem ser acompanhadas e acessadas aqui.

Por oportuno, as palavras de Bento XVI, em conversa com Peter Seewald, respondendo à pergunta sobre empobrecimento e abusos na liturgia:

"No plano institucional e jurídico não se pode fazer muita coisa. Importante é que exista uma visão interna desse fato, que as pessoas aprendam o que é a liturgia a partir de dentro, o que ela realmente significa, vivenciando-a. Exatamente por isso escrevi alguns livros sobre este tema. Infelizmente ainda existem esses posicionamentos estreitos de certos grupos de supostos especialistas, que absolutizam suas próprias teorias e não enxergam o que é essencial. Não é o caso de permitir toda espécie de manipulação pessoal, mas de que a liturgia tem significado em si mesma e se celebra a partir de dentro. Mas isso é algo que não se pode comandar." (Peter Seewald, Bento VI - O Último Testamento, Planeta, p. 239).

Por fim, Joachim Gnilka, respondendo a uma das perguntas da Entrevista (Jesus, o Cristo), em apêndice ao seu livro, sobre o fato de Jesus reunir em torno de si um grupo de discípulos, mas registrando que as autênticas reformas (e isso é pertinente aqui) fazem o caminho de retorno às fontes, afirma:

"De facto, as verdadeiras reformas na Igreja realizaram-se sempre como um regresso às origens. E a ideia de discipulado, de ser discente de Jesus, na minha  opinião,  é muito importante." (Jesus de Nazaré, Lisboa, Presença, p. 308)


Leia mais:

Papa Francisco: la riforma della da liturgia
Fonte da imagem:
http://revista.olutador.org.br/formacao-liturgica-formar-para-que/

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Epiclese



Para o português, foi transliterado o termo grego epíklesis (em latim invocatio = invocação). Epiclese, do grego epí+kaleô = chamar sobre. E, pelo latim, in-vocare = chamar sobre.

É uma palavra usada na liturgia com sentido próprio, motivo pelo qual se justifica a transliteração direta do grego para a língua portuguesa.

Nas palavras de Jean Corbon, "EPICLESE: "invocação sobre". É a solene "invocação" ao Pai para que envie o seu Espírito sobre aquilo que a Igreja Lhe oferece, a fim de que a oferenda seja transformada em Corpo de Cristo. É o momento central de toda anáfora sacramental, a eficácia nova da liturgia. (...). Na epiclese realiza-se a mais poderosa sinergia de Deus e do homem, tanto na celebração como na liturgia vivida."

A epiclese está presente em todos os sacramentos. No Catecismo da Igreja Católica, há vários parágrafos tratando da epiclese, e podem ser lidos aqui.

A importância da epiclese pode ser avaliada por estas palavras de Jean Corbon: "Os ministérios ordenados estão, antes de mais, ao serviço da epiclese, como servidores do Espírito que actua com poder."

Os estudiosos fazem referência a dois tipos de epiclese. A epiclese propriamente dita (epiclese sacramentária), em que se pede o envio do Espírito Santo, e epiclese em sentido lato, presente nas orações litúrgicas, como, por exemplo, em geral, nas conclusões de orações: "em unidade do Espírito Santo".



Leia mais:



Fonte da primeira imagem:
http://br.geocities.com/padrelaureano2/Maria_no_Tempo_da_Pascoa.html

Fonte da segunda imagem:
http://www.bomjesusdetremembe.org.br/enviai.htm

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A Fonte da Liturgia


Jean Corbon (1924-2001), pertencente a Ordem dos Pregadores (O.P.), mais conhecida por Ordem dos Dominicanos, nasceu em Paris. Presbítero (padre) da Igreja Greco-Católica Melquita, eparquia de Beirute, foi professor de Liturgia e Ecumenismo na Universidade do Espírito Santo em Kalik e na Universidade São José em Beirute, além de secretário da Comissão para Relações Ecumênicas da Assembléia de Patriarcas e Bispos Católicos do Líbano. Colaborou na elaboração do Catecismo da Igreja Católica e, em particular, na parte dedicada à Oração Cristã e ao comentário do Pai Nosso.

Pois bem, Jean Corbon é o autor do livro A Fonte da Liturgia, em francês, Liturgie de source. Traduzido para o português por José de Leão Cordeiro, o livro é editado pelas Paulinas (Filhas de São Paulo, Lisboa, Portugal), em junho de 1999.

A Fonte da Liturgia, com 206 páginas, é dividido em três grandes partes: O Mistério da Liturgia (pp. 17-84), A Liturgia Celebrada (pp. 85-148) e A Liturgia Vivida (pp. 149-198), contendo ainda: Prefácio (pp. 5-6), Prólogo (p. 7), Vocabulário litúrgico (pp. 9-12), À beira do poço (pp. 13-16). O livro é finalizado com o tema A Liturgia, Tradição do Mistério (pp. 199-200).

A Fonte da Liturgia é prefaciado pelo Cardeal Roger Etchegaray, que afirma:

"Este livro começa por um vocabulário. O Padre Corbon previu que ele seria útil. Mas temos que reconhecer que a necessidade deste léxico não é muito honorosa para nós, cristãos ocidentais.

Ele significa que já não somos capazes de entender a linguagem que foi comum aos cristãos dos primeiros séculos, por termos andado, durante um longo período, à volta de um cristianismo latino, muito racional e jurídico.

Nossos irmãos orientais dão maior importância à liturgia do que nós. Foi grande a sua alegria ao ver que o Concílio Vaticano II iniciara os seus trabalhos com uma reflexão sobre a liturgia" (p. 5).

Por ora, registra-se a importância do livro, "onde o mistério da liturgia é contemplado a partir de dentro" (p. 9), e a formação cultural do autor.

"Um símbolo iluminará a nossa descoberta progressiva, a do rio de vida (Ap 22, 1s). Oxalá o leitor se deixe arrastar pelo seu curso lento e profundo. Mais contemplativo aqui, mais didáctico ali, cada capítulo poderá revelar-lhe o mistério da fonte: ela é sempre a mesma, mas a água viva que dela brota é sempre nova" (p. 7), afirma o autor.



Fonte da primeira imagem:
http://www.paulinas.pt/livro_detail.asp?idlvr=159

Fonte da segunda imagem:
http://www.agencia.ecclesia.pt/ecclesiaout/snpcultura/id_a_primeira_palavra_marco_abril_2009.html