sábado, 31 de março de 2018

Feliz e Santa Páscoa do Senhor!


Os discípulos fizeram o que Jesus tinha ordenado e prepararam a Páscoa. (Mt 26, 19)




Feliz e Santa Páscoa do Senhor !



Fonte da imagem:
https://lecionario.com/semana-da-páscoa-do-senhor-c6c165e82e10?gi=d762a0cd57b0

quinta-feira, 29 de março de 2018

Pequeno grande livro: "Liturgia: Mistério da Salvação"

... que as pessoas aprendam o que é liturgia a partir de dentro, o que ela realmente significa, vivenciando-a. (Bento XVI, em O último testamento / Peter Seewald, 1ª ed., São Paulo, Planeta, 2017, p. 239)


Pequeno em tamanho e em número de páginas (não além de 40), mas grande em conteúdo, eis o que é o livro Liturgia: Mistério da salvação, cujo título da edição italiana é Liturgia - Misterium salutis. A tradução é de José Dias Goulart.

O autor dessa obra outro não é senão Monsenhor Guido Marini, Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, que acompanhou o Papa Bento XVI, e agora o Papa Francisco, nas celebrações litúrgicas.

O livro se propõe a enfrentar alguns temas referentes ao espírito da liturgia. Citados na obra, Romano Guardini e Joseph Ratzinger (Bento XVI) são baluartes do estudo do espírito da liturgia

Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo ao âmago, ao elemento medular da liturgia, eis o espírito da liturgia; ou, como diz Guido Marino, 

Um espírito, digo mais, que nos leva ao essencial da liturgia, ou seja, a uma oração inspirada e guiada pelo Espírito, na qual Cristo continua a ser nosso contemporâneo, irrompendo em nossa vida. De fato, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito. (p. 8).

O centro de algumas indagações teológicas ou litúrgicas têm por palco o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). As dificuldades na recepção do Concílio Vaticano II desaguam na liturgia, vindo a formar duas correntes. Eis o que diz o Papa Bento XVI, no seu Discurso aos Cardeais, Arcebispos e Prelados da Cúria Romana na apresentação de votos de Natal (quinta-feira, 22 de dezembro de 2005):

O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do Concílio Vaticano II, há quarenta anos. Tal memória suscita a interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de modo correcto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do Concílio teve lugar de modo bastante difícil, mesmo que não se deseje aplicar àquilo que aconteceu nestes anos a descrição que o grande Doutor da Igreja, São Basílio, faz da situação da Igreja depois do Concílio de Niceia: ele compara-a com uma batalha naval na escuridão da tempestade, dizendo entre outras coisas: "O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja falsificando, por excesso ou por defeito, a recta doutrina da fé..." (De Spiritu Sancto, XXX, 77; PG 32, 213 A; Sch 17 bis, pág. 524). Não queremos aplicar exactamente esta descrição dramática à situação do pós-Concílio, todavia alguma coisa do que aconteceu se reflecte nele. Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a "hermenêutica da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio.

Na esteira de Bento XVI, o autor do livro alinha-se aos que defendem a hermenêutica da continuidade, que é, segundo Guido Marini, "a única interpretação correta da vida da Igreja, e em particular dos documentos  conciliares, como também dos propósitos de reforma em todos os níveis neles contidos". (p. 6)

Nessa sequência, o autor afirma:

Fruto dessa ideologia desviante, por exemplo, é a corrente distinção entre Igreja pré-conciliar e Igreja pós-conciliar." (p. 6)

Tal linguagem, segundo o mesmo autor, até pode ser legítima se não se quer passar a ideia de duas Igrejas: uma - pré-conciliar - que já não teria coisa alguma a ver com o presente, nada teria a oferecer para hoje, enquanto a outra - a Igreja pós-conciliar - é a Igreja de hoje, "uma realidade nova nascida do Concílio e de algum presumido espírito seu, que se tenha rompido com o passado". (p. 7)

Na medida, portanto, que se quer distinguir a existência de duas Igrejas (pré-conciliar e pós-conciliar) estar-se-á fazendo incorreta interpretação da vida da Igreja.

Nestas alturas da exposição, o próprio autor da obra indaga:

O que até aqui se afirmou a respeito da "continuidade", será que tem algo a ver com o tema que somos convidados a tratar? Absolutamente sim. Pois não pode existir o autêntico espírito da liturgia, quando não buscada com ânimo sereno e nada polêmico a respeito do passado, tanto remoto quanto próximo. A liturgia não pode nem deve ser terreno de choque entre os que só encontram o bem naquilo que havia antes de nós, e, por outro lado, aqueles que só enxergam o mal naquilo que existia antes. Somente a disposição de olhar o presente e o passado da liturgia da Igreja, como patrimônio único que se desenvolve homogêneo, é que pode levar-nos a obter, com alegria e prazer espiritual, o autêntico espírito da liturgia. Um espírito que precisamos acolher da Igreja e que não é fruto de nossas invenções. (pp. 7-8)

Por oportuno, nessa esteira de princípios, não se de há de falar de descontinuidade e ruptura com o Concílio de Trento (1545-1562)

O autor bate firme: "tratar hoje do espírito da liturgia é mais do que necessário, sobretudo entre os sacerdotes." (p. 5)

Feita a introdução, o livro está dividido por temas:

1 - A Sagrada Liturgia, grande dom de Deus à Igreja (pp. 11-17).

2 - Orientação da oração litúrgica (pp. 19-24.

3 - Adoração e união com Deus (pp. 25-29).

4 - Participação ativa (pp. 31-36).

5 - Música sacra ou litúrgica (pp. 37-41)

Os cinco temas, bem sintetizados pelo autor, proporcionam matéria para próximos posts.


Leia mais:

A Adoração em Espírito e Verdade, por Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.


Fonte da imagem:
http://www.paulus.com.br/loja/liturgia-misterio-da-salvacao_p_3040.html

sábado, 17 de março de 2018

Quaresma: por que cobrir as cruzes e as imagens na igreja?


Não é a idade em si que torna preciosos os costumes litúrgicos, senão sua plenitude de conteúdo e sua força de expressão.
(J.A. Jungmann, Missarum Sollemnia, São Paulo, Paulus, 2009, p. 19)




É um vetusto costume da Igreja cobrir cruzes e imagens. Há mais de cinquenta anos, aproximadamente, era obrigatório, mas, atualmente, é facultativo, como se verá.

O II Concílio de Niceia, realizado no ano de 787, assim falou sobre imagens, entre outras passagens:

Porque, quanto mais frequentemente se olha para as imagens, tanto mais facilmente os que as contemplam se sentem elevados à memória e aspiração dos seus originais. Quanto mais o espectador olhar as imagens de Cristo, de Maria, dos Anjos e dos Santos, tanto mais se recordará daquele que está representado, e se esforçará por imitá-lo, se sentirá convidado a testemunhar por ele respeito e veneração, mas sem lhe prestar, contudo, culto de latria propriamente dito, que só pertence à natureza divina. Assim se faz com a imagem da cruz preciosa e vivificante, com os Evangelhos e com os outros objetos de culto sagrados, honrando-as com a oferenda de incenso e de luzes, como foi costume dos antigos. A veneração prestada a uma imagem dirige-se àquele que ela representa. Quem venera uma imagem, venera a pessoa que nela está representada. (Antologia Litúrgica, Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima, Portugal, p. 1441)

Pesquisando, faz-se notar que não há atualmente norma eclesiástica ou rubrica expressa dispondo acerca da prática de cobrir as cruzes e as imagens, com véu roxo, no Tempo da Quaresma e na Semana Santa; nesta se compreende o Tríduo Pascal.

O costume deita raízes para uns desde os primeiros anos do cristianismo antigo e, para outros, em tradição germânica desde o século IX, recolhido pelo Missal Romano composto a partir do Concílio de Trento.

Em verdade, o citado Missal Romano de São Pio V, com as suas edições típicas de 1570-1962, estabelecia a obrigatoriedade  de cobrir com véu as cruzes e imagens, como relata o Secretariado Nacional de Liturgia - SNL (Fátima - Portugal):

No Missal Romano de S. Pio V, terminada a missa do Sábado que precedia o Domingo da Paixão (actual V Domingo da Quaresma), vinha esta rubrica: “Antes das Vésperas, cobrem-se as Cruzes e Imagens que haja na igreja. As Cruzes permanecem cobertas até ao fim da adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, e as Imagens até ao Hino dos Anjos (Glória a Deus nas Alturas) no Sábado Santo”.

O Missal Romano do beato Paulo VI, com edições típicas de 1969-2002, ao contrário do Missal anterior (o de São Pio V), torna facultativo o cobrir cruzes e imagens, como se lê depois do próprio da Missa do Sábado da 4ª semana imediatamente anterior ao V Domingo da Quaresma (no Brasil, 2ª edição típica, à página 211):

Pode-se conservar o costume de cobrir as cruzes e imagens da igreja, a juízo das Conferências Episcopais. As cruzes permanecerão veladas até o fim da celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa. As imagens, até o início da Vigília Pascal.

E não para aí. Além de deixar a juízo das Conferências Episcopais, a Instrução Geral do Missal Romano, quer na primeira e segunda edições típicas (n. 278) quer na terceira edição típica (n. 318) inscreve o cuidado que se deve ter para não aumentar excessiva ou exageradamente o número de imagens sagradas. A terceira edição da IGMR (a que está em vigor) estabelece:

As imagens sagradas
318. Pela liturgia da terra a Igreja participa, saboreando-a já, na liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual como peregrina se dirige, onde Cristo está sentado à direita de Deus e onde espera ter parte e comunhão com os Santos, cuja memória venera.
Por isso, de acordo com a antiquíssima tradição da Igreja, exponham-se à veneração dos fiéis, nos edifícios sagrados, imagens do Senhor, da bem-aventurada Virgem Maria e dos Santos, e disponham-se de tal modo que os fiéis sejam levados aos mistérios da fé que aí se celebram.
Tenha-se, por isso, o cuidado de não aumentar exageradamente o seu número e que a sua disposição se faça na ordem devida, de tal modo que não distraiam os fiéis da celebração. Normalmente, não haja na mesma igreja mais do que uma imagem do mesmo Santo. Em geral, no ornamento e disposição da igreja, no que se refere às imagens, procure atender-se à piedade de toda a comunidade e à beleza e dignidade das imagens.

O Secretariado Nacional de Liturgia complementa sua exposição, respondendo:

A grande diferença entre as rubricas dos dois Missais (de Trento e do Vaticano II) consiste no seguinte: no primeiro, cobrir as Cruzes e Imagens era obrigatório (“cobrem-se...”); no segundo deixou de o ser (“pode conservar-se o costume de cobrir...).
Como o nosso consulente pode verificar por si mesmo, consultando o Missal Romano, são-lhe deixadas várias hipóteses: a) pode cobrir as imagens ou não as cobrir; b) se as cobrir, mantém‑nas cobertas desde a tarde do Sábado anterior ao V Domingo da Quaresma, até ao começo da Vigília Pascal (e não até antes do Lava-pés na Missa da Ceia do Senhor, nem tão pouco até Sexta-Feira Santa). A rubrica é clara: “... as imagens permanecem cobertas até ao começo da Vigília Pascal”.

A Congregação para o Culto Divino, por Carta Circular "Paschalis Sollemnitatis" sobre a Preparação e Celebração das Festas Pascais, datada de 16 de janeiro de 1988, reforça a rubrica do Sábado da IV semana da Quaresma (Missal Romano - 2ª edição típica, página 211):

O uso de cobrir as cruzes e as imagens na igreja, desde o V domingo da Quaresma, pode ser conservado segundo a disposição da Conferência Episcopal. As cruzes permanecem cobertas até ao término da celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa; as imagens até ao início da Vigília pascal. (n. 26)

O Código de Direito Canônico (1983) não proíbe. E até mais: mantém os costumes que não contrariem cânones do atual Código (negritos não são do original):

Cân. 5 — §1. Os costumes, quer universais quer particulares, actualmente em vigor contra os preceitos destes cânones que são reprovados pelos próprios cânones deste Código ficam inteiramente suprimidos, e não se permita a sua revivescência; os restantes tenham-se também por suprimidos, a não ser que expressamente se determine outra coisa no Código ou sejam centenários ou imemoriais, os quais podem tolerar-se se, a juízo do Ordinário, segundo as circunstâncias dos lugares e das pessoas, não puderem ser suprimidos.
§ 2. Conservam-se os costumes para além da lei, actualmente em vigor, quer sejam universais quer particulares.

É notório que a Igreja tem tempos ditos fortes, ambos associados à cor roxa: Advento e Quaresma. Aquele sensibilizado pela coroa do advento. A Quaresma tocada pelas cinzas, pelo roxo do véu das cruzes e imagens. Ambos os tempos são de espera e de preparação, com as suas especificidades. A Igreja destaca esse período mediante mensagem papal.

Se a coroa do advento tem seu significado para o tempo em que se prepara e se aguarda a chegada ou a vinda do Senhor, as cinzas, bem assim o cobrimento das cruzes e imagens, com véu roxo, também têm seu significado para o tempo em que se prepara e se aguarda a Páscoa do Senhor (Mistério do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado).

Resta saber, na esteira da advertência de Josef Andreas Jungmann, SJ, colocado no preâmbulo, se o costume de cobrir as cruzes e imagens tem conteúdo pleno e capacidade comunicativa de expressão, ou seja, se aquilo que se quer representar (a coisa significada) pelo sinal tem peso, corpo, musculatura que justifique sua admissão no cenário litúrgico e se o sinal (véu roxo cobrindo cruzes e imagens) tem poder de comunicar expressivamente aquilo que se representa (a coisa significada). O cobrimento de cruzes e imagens, com véu roxo, é o sinal, a forma, enquanto a penitência, o recolhimento e o silêncio, a esmola, o jejum e a oração são o conteúdo, aquilo que se representa, a coisa significada.

A IGMR atual e a rubrica do Missal Romano (2ª edição típica) ao adotarem o caráter facultativo quanto ao cobrir cruzes e imagens, admitem, por tal fato, que o sinal tem poder de expressão, de comunicar, aquilo que representa, de revelar a coisa significada.

Como previne Cipriano Vagaggini:

É necessário passar através do sinal para chegar à coisa significada. (O sentido teológico da liturgia, São Paulo, Edições Loyola, 2009, p. 51).

Por derradeiro, não se pode considerar o cobrimento de cruzes e imagens como algo para advertir leigos, para tutelá-los no Tempo da Quaresma. O sinal é obra da Igreja, obra litúrgica, e assume nítido e salutar caráter educativo. É expressão de penitência.

A IGMR, em suas edições típicas, e a já mencionada rubrica do Missal Romano reconhecem oficialmente o costume de cobrir cruzes e imagens na igreja e, em não havendo posicionamento em contrário emitido pela competente autoridade eclesial (Conferência Episcopal), nada impede a continuidade do costume, devendo, porém, observar a seguinte regra: cobrir as cruzes e as imagens na igreja desde a tarde do sábado (17/3) que antecede o V Domingo da Quaresma (que cai no dia 18 de março de 2018); as cruzes ficam cobertas até o término da Celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa (que cairá no dia 30 de março de 2018), enquanto as imagens ficam cobertas até ao início da Vigília Pascal (Sábado Santo, 31 de março de 2018). 

Nota. A Quaresma é o tempo litúrgico que vai de Quarta-Feira de Cinzas inclusive até a Missa Vespertina na Ceia do Senhor (Quinta-Feira Santa) exclusive. De acordo com as Normas Universais do Ano Litúrgico e o Novo Calendário Romano Geral:

O Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa com a Missa vespertina na Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do Domingo da Ressurreição (n. 19).

Liturgicamente as cruzes e imagens começam ser cobertas no Tempo da Quaresma (nas Vésperas do V Domingo da Quaresma), mas elas continuam cobertas no curso da Semana Santa, incluso o Tríduo Pascal (as cruzes são desnudadas ao término da Celebração da Paixão na Sexta-Feira Santa e as imagens são desnudadas antes do início da Vigília Pascal, no Sábado Santo)


Leia mais:

Semana Santa e Tríduo Pascal do Ano C - São Lucas (2015-2016)

A cor para cobrir a cruz na Sexta-Feira Santa, por Edward McNamara



Fonte da imagem:
http://barretepreto.blogspot.com.br/2014/04/por-que-cobrimos-os-santos-na-quaresma.html

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Doxologia final da Oração Eucarística: elevação da patena com a hóstia e do cálice

Entre as partes que competem ao sacerdote ocupa o primeiro lugar a Oração Eucarística, ápice de toda celebração. (IGMR, n. 30)


Muitas palavras de origem grega ou latina fazem parte do vocabulário da liturgia da Igreja Católica Romana. Algumas reclamam, ainda que rapidamente, uma explicação. E uma delas é doxologia.

Doxologia (do grego: doxa = glória + logos = palavra) quer dizer, em linguagem litúrgica, a oração de louvor dirigida a Deus.

A Oração Eucarística, que ocupa substancialmente a segunda parte da Missa (IGMR, n. 28), termina com a fórmula de louvor a Deus, de solene glorificação tributada à divina Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), chamada tecnicamente de doxologia final, como, por exemplo, na Oração Eucarística I, ou Cânon Romano:

Por Cristo,
com Cristo, 
em Cristo,
a vós, Deus Pai todo-poderoso,
na unidade do Espírito Santo,
toda a honra e toda a glória, 
agora e para sempre.

E o povo (assembleia) aclama:

Amém.

Ou, mais precisamente como diz a Instrução Geral do Missal Romano - IGMR (3ª edição típica), traduzida e editada pela CNBB:

A doxologia final que exprime a glorificação de Deus, e é confirmada e concluída pela aclamação Amém do povo. (n. 79, h)

A Missa não está, pois, terminada. Terminada (e ratificada) está a Oração Eucarística.

A Oração Eucarística deve ser dita, proferida, em voz alta e distinta (IGMR, n. 32) e a sua dicção (proferição) compete somente ao sacerdote ministerial. Nesse sentido, é a regra da mencionada Instrução Geral do Missal Romano - IGMR (3ª edição típica), traduzida pela CNBB:

A Oração Eucarística, por sua natureza, exige que somente o sacerdote, em virtude de sua ordenação, a profira. (n. 147)
A doxologia final da Oração Eucarística é proferida somente pelo sacerdote celebrante principal e, se preferir, junto com os demais concelebrantes, não, porém, pelos fiéis. (n. 236)

A elevação da patena com a hóstia e do cálice, na doxologia conclusiva da Oração Eucarística, também, e pela mesma razão que ordena a proferição (dicção), pertence ao sacerdote fazê-la, como dispõe a mesma e citada IGMR:

Após a consagração, tendo o sacerdote dito: Eis o mistério da fé, o povo profere a aclamação, usando uma das fórmulas prescritas. 
No fim da Oração eucarística, o sacerdote, tomando a patena com a hóstia e o cálice ou elevando ambos juntos profere sozinho a doxologia: Por Cristo. Ao término, o povo aclama: Amém. Em seguida, o sacerdote depõe a patena e o cálice sobre o corporal.(n. 151)

A Instrução Geral do Missal Romano (2002) traduzido para Portugal espelha melhor o objetivo da regra litúrgica ao não usar a conjunção ou (que, no texto do Brasil, afigura-se indicar alternativa ou opcionalidade). E mais: a tradução para o português de Portugal está, nesse aspecto, na linha das traduções espanhola e francesa, como segue:

A seguir à consagração, depois de o sacerdote dizer: Mistério da fé (Mystérium fidei), o povo aclama, utilizando uma das fórmulas prescritas. 
No fim da Oração eucarística, o sacerdote toma a patena com a hóstia e o cálice e, elevando-os ambos, diz sozinho a doxologia: Por Cristo (Per ipsum). No fim o povo aclama: Amen. A seguir o sacerdote depõe a patena e o cálice sobre o corporal. (n. 151) [http://www.presbiteros.org.br/instrucao-geral-do-missal-romano-2002-portugues/]

A elevação de ambos (patena e cálice) pelo sacerdote sucede na Missa sem diácono (IGMR, nn. 120-170); na Missa com diácono (IGMR, nn. 171-186), a este compete a elevação do cálice.

Justino (martirizado por volta do ano 165) transmite-nos seguras informações sobre a celebração da Eucaristia, na parte que diz respeito ao nosso assunto:

Quando o presidente termina as orações e a acção de graças, todo o povo presente aclama, dizendo: Amen. Amen, na língua hebraica, quer dizer assim seja. (Apologia I, 65,3-4,  Antologia Litúrgica, Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima, p. 140)

Santo Inácio de Antioquia, citado no Catecismo da Igreja Católica (n. 1369), confirma:

«Seja tida como legítima somente aquela Eucaristia que é presidida pelo bispo ou por quem ele encarregou» 

No plano do direito eclesiástico (Código de Direito Canônico - 1983), não é diferente:

Cân. 900 — § l. O ministro que, actuando na pessoa de Cristo, tem o poder de celebrar o sacramento da Eucaristia, é somente o sacerdote validamente ordenado.

A competência exclusiva do ministro ordenado (presbítero e bispo) é realçada e revalidada pelo mesmo Código de Direito Canônico (1983):

Cân. 907 — Na celebração eucarística não é permitido aos diáconos nem aos leigos proferir as orações, em especial a oração eucarística, ou desempenhar as funções que são próprias do sacerdote celebrante.

O diácono é ministro do cálice (IGMR, nn. 94, 171, b, e 180). Assim, na Missa em que haja diácono a ministrar, a este compete fazer o gesto da elevação do cálice, conforme enunciado:

À doxologia final da Oração Eucarística, de pé ao lado do sacerdote, o diácono eleva o cálice, enquanto o sacerdote eleva a patena com a hóstia, até que o povo tenha aclamado: Amém. (IGMR, n. 180)

O Cerimonial dos Bispos também contempla:

À doxologia final da Oração eucarística o diácono, pondo-se ao lado do Bispo, eleva o cálice, enquanto o Bispo eleva a patena com a hóstia, até que o povo tenha dito a aclamação Amém. A doxologia final da Oração eucarística é proferida pelo Bispo sozinho ou por todos os concelebrantes juntamente com o Bispo. (n. 158)

Giuseppe Carlo Cassaro, formador de estudantes de Teologia que se preparam para o sacerdócio, esclarece nesse aspecto o ofício do diácono:

À doxologia final da oração eucarística, o diácono, estando à direita do presidente, mantém elevado o cálice na mão direita, ficando a esquerda sobre o peito. Convém que o cálice seja elevado à mesma altura a que se encontra a patena elevada pelo presidente e permaneça nessa posição até o povo proclamar "Amém". (Guia Prático para a Liturgia, 1ª edição - novembro de 2014, Lucena, Cascais, Portugal, p. 38, nº 57)

Por conseguinte, em não se cuidando de Missa concelebrada ou em não se tratando de Missa celebrada com diácono, compete unicamente ao sacerdote (presbítero, comumente chamado padre, ou até mesmo bispo) que preside a celebração não só dizer a doxologia final mas também fazer a elevação da patena com a hóstia e do cálice, como bem ilustra a imagem acima reproduzida e que retrata a regular situação celebrativa das paróquias e capelas (Missas sem diácono).

Em reforço do que já narrado, a doxologia final, composta de palavras e gestos, é parte constituinte da oração eucarística. Assim, se expressa Cesare Giraudo:

Trata-se do nono elemento estrutural da oração eucarística, que a liturgia cristã herdou da oração veterotestamentária e judaica. Para compreender-lhe  a função, recordemos que, passo a passo com a sucessão de intercessões, aumenta a tensão para o Reino escatológico no qual pedimos a Deus que nos introduza, no desejo de glorificá-lo sem fim. A doxologia se configura como inclusão laudativa, como retorno ao tema do louvor inicial, começado no prefácio. A este  louvor solene, que anima toda a oração eucarística, a assembleia responde com um Amém igualmente solene. (Redescobrindo a Eucaristia, 3ª edição - maio de 2005, Edições Loyola, são Paulo, p. 67).

Segundo José Aldazábal (A Eucaristia, em A Celebraçao na Igreja, vol. 2, Edições Loyola, 1993, p. 343) e muito mais conforme a Instrução Geral do Missal Romano (nn. 30 e 78), a oração ou prece eucarística é uma oração presidencial.

Por derradeiro, a regra geral, o ordinário das coisas, é que as "orações presidenciais" sejam proferidas pelo sacerdote ministerial que, presidindo a comunidade como representante de Cristo, dirige a Deus tais  orações  em nome de todo o povo santo e todos os presentes (cf. IGMR, n. 30). Qualquer coisa nova que se queira (uma exceção a normas gerais) exige norma litúrgica ou canônica expressa, específica, editada por autoridade eclesiástica hierárquica e competente.

De outra banda, não tem sentido litúrgico o povo presente (assembleia) fazer gestos, como estender as mãos em direção ao altar nesse momento da elevação do cálice e da patena com a hóstia, uma vez que, como já se disse, a Oração Eucarística é uma oração presidencial, isto é, oração que compete exclusivamente ao sacerdote que preside a celebração da Missa (Eucaristia) dizê-la. E, no particular, a doxologia final, com palavras e gestos, faz parte integrante da Oração Eucarística. Logo, não há, nesta fase celebrativa, lugar para uma participação gesticular por parte da assembleia.

Por último, concluímos que as normas litúrgicas e também as canônicas da Igreja Católica Romana não autorizam o leigo e nem mesmo o leitor instituído (IGMR, nn. 99, 194-198) ou o ministro extraordinário da sagrada comunhão a fazerem a elevação do cálice quando se profere a fórmula da doxologia final. E muito menos a elevação da patena com a hóstia.


Leia mais:

As Doxologias na Liturgia, por Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Alguns esclarecimentos sobre o papel dos diáconos na liturgia, por pe. Edward McNamara, LC

A Oração do Senhor: "Pai Nosso" (Catecismo da Igreja Católica)


Fonte da imagem:
https://linguagemdoceu.com/blog/conheca-os-gestos-e-posturas-que-o-ajudarao-viver-melhor-missa/

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Papa Francisco: Mensagem para a Quaresma de 2018





O Tempo da Quaresma do ano litúrgico B - São Marcos (2017-2018) começa no dia 14 de fevereiro de 2018, Quarta-Feira de Cinzas.

É um dos chamados tempos fortes da Igreja. É tempo de conversão.

Neste tempo de metanóia, o Papa Francisco envia a todo Povo de Deus uma importante mensagem, intitulada Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018.

É um Papa do século XXI que escreve para todo o Povo de Deus, chamando a atenção às coisas atuais que dizem respeito à vida eclesial, à vida dos cristãos, como lê-las à luz dos textos bíblicos, como enfrentá-las e superá-las.

A Mensagem parte, essencialmente, desta passagem bíblica:

«Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12)

Mais uma vez nos depararemos com a Páscoa do Senhor, e a Ela devemos nos achegar tomado pela metanóia, ou conversão, ou, como diz a letra a seguir:

Senhor, quem entrará no santuário pra te louvar?
Senhor, quem entrará no santuário pra te louvar? 
Quem tem as mãos limpas, e o coração puro, quem não é vaidoso, e sabe amar
Quem tem as mãos limpas, e o coração puro, quem não é vaidoso, e sabe amar (Pe. Jonas Abib)

Eis como inicia a Mensagem do Papa:

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Mais adiante, o Papa Francisco alerta:

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido!

Mas Que fazer?, indaga o Papa. A resposta vem da Igreja:

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

Para inteirar-se do texto completo da Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018, em português, clique aqui.


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domingo, 31 de dezembro de 2017

Feliz e Próspero Ano Novo - 2018!


Abençoai, ó Deus, o vosso povo que confia em vossa misericórdia, e realizai os desejos que vós mesmo lhe inspirastes. (Missal Romano, 2ª edição típica).




Feliz e Próspero Ano Novo!



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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz

O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam no país da sombra da morte, uma luz resplandeceu. (Is 9,1)




Conhece-se Jesus a partir dos quatro Evangelhos. Pelo viés simplesmente histórico ("Jesus histórico"), recorre-se principalmente aos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, chamados sinóticos.

Pondere-se, porém, que Jesus, o Cristo, o Messias, o "Jesus histórico", outro não há senão o dos Evangelhos. A este respeito, depois de fazer indicações metodológicas que distinguem a figura de Jesus no Novo Testamento, Joseph Ratzinger - Bento XVI esclarece:

Para minha representação de Jesus, isto significa, principalmente, que eu confio nos Evangelhos. Naturalmente que se pressupõe tudo o que o Concílio e a moderna exegese nos dizem sobre os gêneros literários, sobre a intenção narrativa, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e o seu falar neste contexto vivo. Então, acolhendo tudo isto - tanto que foi possível -, quis tentar representar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, como o "Jesus histórico" no sentido autêntico. Estou convencido, e espero que também o leitor possa ver, que esta figura é mais lógica e historicamente considerada mais compreensível do que as reconstruções com as quais fomos confrontados na últimas décadas. Penso que precisamente este Jesus - o dos Evangelhos - é uma figura racional e manifestamente histórica. (Jesus de Nazaré - Primeira Parte - Do Batismo no Jordão à Transfiguração, São Paulo, Planeta, 2007, p. 17)

O estudo dos Evangelhos proporciona, com autoridade, o conhecimento de Jesus. Entretanto, os Evangelhos não são escritos que ficam lá no passado. Ao contrário, são atuais e operantes. Os Evangelhos exercem uma ação atrativa destinando-se a fazer discípulo e a estabelecer uma relação do seu leitor com o Cristo que vive. Ou, nas precisas palavras de Joachim Gnilka:

É evidente que o estudo dos Evangelhos permite conhecer Jesus, tornar-se seu discípulo. Este é o objectivo dos Evangelhos. A sua intenção não é simplesmente evocar acontecimentos históricos, mas estabelecer, em primeiro lugar, uma ligação com o Cristo vivo. É importante que o leitor deste tipo de Evangelho tenha presente que não está diante de material passado, histórico, morto, mas sim com alguém que a pessoa sabe, na fé, que está vivo, que interpela a vida do leitor e que actua na comunidade. (Jesus de Nazaré - Mensagem e história, 1ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1999, p. 312).

Jesus nasceu em dado momento histórico, determinável. O Cardeal Ratzinger, hagiógrafo de Jesus dos Evangelhos, afirma:

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido "uma vez", típico do mito; mas pertence a um tempo, que pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido; o universal e o concreto tocam-se mutuamente. (A infância de Jesus, São Paulo, Planeta, 2012, p. 57)

Pois bem, é no contexto histórico e geográfico indicado no Evangelho de Lucas (Lc 2, 1-14) que Jesus nasceu. E esse Evangelho corresponde ao elenco das leituras da Santa Missa na Noite do Natal do Senhor (Calendário Litúrgico: Ano B - São Marcos), celebrada universalmente na noite do dia 24 de dezembro de 2017.

O Papa Francisco inicia a sua homilia na solene celebração da Santa Missa na Noite do Natal do Senhor (Basílica de São Pedro, 24 de dezembro de 2017), realçando o duplo papel de Maria no nascimento de Jesus:

«Completaram-se os dias de [Maria] dar à luz e teve o seu filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7). Com esta afirmação simples mas clara, Lucas leva-nos ao coração daquela noite santa: Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz. Uma narração simples para nos entranhar no acontecimento que muda para sempre a nossa história. Tudo, naquela noite, se tornava fonte de esperança.  

A homilia ocupa-se de quatro eixos: luz, esperança, fé e caridade. Repita-se: a homilia papal tem como ponto de partida Maria. A ação de Maria é dupla:

Maria deu à luz, Maria deu-nos a Luz.

A Luz com que somos presenteados por intermédio de Maria é o Cristo, Filho de Deus. Essa grande luz que ilumina a escuridão, que dissipa as trevas, remete-nos ao Mistério da Ressurreição, cujo símbolo é o Círio Pascal.


Leia mais:

Audiência Geral - Quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Qual é o sentido da ressurreição de Jesus para um cristão?


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http://www.centroloyola.puc-rio.br/espiritualidade/retiro-o-caminho-da-luz-rumo-ao-coracao-de-deus/

domingo, 24 de dezembro de 2017

Feliz e Santo Natal do Senhor !


E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (Jo 1, 14)





Feliz e Santo Natal do Senhor!





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http://deniseludwig.blogspot.com.br/2012/12/arte-em-pinturas-nascimento-do-menino.html

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O hábito não faz o monge, e é certo, mas o monge sem o hábito não é tão monge!


!El habito no hace el monje, y es cierto, mas el monje sin el habito no es tan monje!




Antropologicamente, o hábito é um meio de linguagem corporal. Da perspectiva da comunicação, o hábito fala por si mesmo. É uma comunicação muito importante.

A nova edição do Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros, datado de  11 de fevereiro de 2013, da Congregação para o Clero, dispõe sobre a importância do hábito eclesiástico nestes termos que reproduzo: 

Importância e obrigatoriedade do hábito eclesiástico

61. Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, em que também os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero – homem de Deus, dispensador dos seus mistérios – seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor de um ministério público [247]. O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo seu comportamento, mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente perceptível por cada fiel, melhor ainda por cada homem [248], a sua identidade e pertença a Deus e à Igreja. 

O hábito talar é sinal exterior de uma realidade interior: «efetivamente, o presbítero já não pertence a si mesmo, mas, pelo selo sacramental por ele recebido (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1563 e 1582), é “propriedade” de Deus. Este seu “ser de Outro” deve tornar-se reconhecível por parte de todos, através de um testemunho límpido. [...] No modo de pensar, falar, julgar os acontecimentos do mundo, servir e amar, e de se relacionar com as pessoas, também no hábito, o presbítero deve haurir força profética da sua pertença sacramental»[249]. 

Por este motivo, o clérigo, bem como o diácono transitório, deve[250]:

a) trazer o hábito talar ou «um hábito eclesiástico decoroso, segundo as normas emanadas pela Conferência Episcopal e segundo os legítimos costumes locais»[251]; isto significa que tal hábito, quando não é o talar, deve ser diverso da maneira de vestir dos leigos e conforme a dignidade e sacralidade do ministério. O feitio e a cor devem ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos.

b) Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as praxes contrárias não possuem a racionalidade necessária para que se possam tornar costumes legítimos[252] e devem ser removidas pela autoridade eclesiástica competente[253]. 

Salvas situações excepcionais, o não uso do hábito eclesiástico por parte do clérigo pode manifestar uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente dedicado ao serviço da Igreja[254]. 

Além disso, a veste talar – também pela forma, cor e dignidade – é especialmente oportuna, porque distingue claramente os sacerdotes dos leigos e dá a entender melhor o caráter sagrado do seu ministério, recordando ao próprio presbítero que, sempre e em qualquer momento, é sacerdote, ordenado para servir, para ensinar, para guiar e para santificar as almas, principalmente pela celebração dos sacramentos e pela pregação da Palavra de Deus. Vestir o hábito clerical serve, ademais, para a salvaguarda da pobreza e da castidade.

Nos tempos atuais, inicialmente o hábito apresenta-se como contraponto a uma sociedade secularizada e de tendência materialista, em que também os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, como a ele se refere o sobredito Diretório.

O Código de Direito Canônico, de 25 de janeiro de 1983, estabelece:

Cân. 284 — Os clérigos usem trajo eclesiástico conveniente, segundo as normas estabelecidas pela Conferência episcopal, e segundo os legítimos costumes dos lugares.

Em Apêndice, a Legislação complementar ao Código de Direito Canônico, texto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, regulamentou quanto ao cânone 284:

Usem os clérigos um traje eclesiástico digno e simples, de preferência o "clergyman" ou "batina".

Tanto o cânone quanto o adendo da CNBB são normas imperativas (usem), e não facultativas (podem usar).

No Brasil, o clérigo está sujeito ao uso de traje eclesiástico, preferencialmente o clergyman ou a batina. Em outras palavras, a batina, que também se chama sotaina, ou calça e camisa com colarinho romano (clergyman).

Entretanto, não se pode fazer uma generalização como se tudo que o clérigo ou o religioso usem seja uma só coisa, com única denominação. Nesse sentido, cabem os esclarecimentos de Rafael Vitola Brodbeck, em seu artigo Da obrigatoriedade do uso do traje eclesiástico:

Ao contrário do que muitos pensam, o Vaticano II não aboliu o hábito dos religiosos. “O hábito religioso, sinal que é da consagração, seja simples e modesto, pobre e ao mesmo tempo decente (…).”[18]

Traje eclesiástico, traje clerical, hábito religioso.

Façamos um esclarecimento de alguns termos utilizados. 

Traje eclesiástico é o gênero que engloba as espécies traje clerical e hábito religioso. Entende-se por hábito religioso a veste apropriada prescrita pelas regras e constituições de cada instituto. Assim, há o hábito dos carmelitas, dos franciscanos, dos beneditinos, dos cistercienses, dos redentoristas, dos capuchinhos, dos agostinianos, dos maristas, dos lassalistas etc., um diferente do outro, justamente pela simbologia e espiritualidade próprias. Por sua vez, o traje clerical é o utilizado pelos clérigos seculares (e seminaristas seculares também) e pelos religiosos que não possuem hábito próprio (como os jesuítas, os salesianos e os legionários de Cristo, por exemplo). 

A forma do hábito depende de cada instituto, e o traje clerical pode ser batina – também chamada sotaina – ou calça e camisa com colarinho romano – clergyman. 

Não podemos confundir, ademais, o traje eclesiástico com os paramentos litúrgicos, utilizados na celebração da Santa Missa, do Ofício Divino e dos diversos sacramentos e sacramentais, nem com a veste talar ou coral a ser usada pelos religiosos e clérigos no coro ou quando assistem as cerimônias litúrgicas sem celebrá-las.

 [18] Concílio Ecumênico Vaticano II. Decreto Perfectae Caritatis, de 28 de outubro de 1965, 17


O traje clerical possibilita o reconhecimento desde logo que tal e qual pessoa tem sua pertença a Deus e à Igreja. O hábito o identifica, não o deixa no anonimato.

Richard M. Gula, S.S., em sua obra Ética no Ministério Pastoral (Edições Loyola, 2ª ed., 2001, pp. 84 e 89), ao falar sobre o uso responsável do poder no relacionamento pastoral, diz que até a maneira de se vestir pode ter influência. Dele estas palavras:

Até a nossa maneira de se vestir pode ter influência. Vestir-se formalmente ou não pode ampliar ou reduzir o poder que temos sobre os outros.
(...)
A diferença está em trazermos "alguma coisa mais" ao ministério além de nós próprios. (...)
Por sermos representantes de Quem dá sentido e objetivo à vida, há o "peso do sagrado" que acrescenta mais seriedade ao que dizemos e fazemos.

Além do universo clerical ou de profissão religiosa, pode-se acrescentar que, para as profissões laicas, o vestir-se formalmente está muito ligado à liturgia do cargo ou da função. 

O hábito não faz o monge, e é certo, mas o monge sem o hábito não é tão monge!


Leia mais:

História do Hábito Eclesiástico desde suas origens até o Concílio de Trento, por Dom Marcello Stanzione

?Por qué los sacerdotes llevan clergyman o sotana?

El hábito hace al monje, por Antonio Esquivias

Colarinho Romano e clergyman: diferenças

O uso do cabeção, por Edson Sampel

Sim, o hábito faz o monge, mostra pesquisa


Fonte da primeira imagem:
https://pluralesingulares.files.wordpress.com/2011/11/images-monges-e1321574308721.jpg

Fonte da segunda imagem:
https://pt.zenit.org/articles/o-uso-do-cabecao/

sábado, 9 de dezembro de 2017

A formacão litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação


"A verdadeira educação litúrgica não pode consistir em aprender e ensaiar atividades exteriores, mas sim em conduzir para a verdadeira actio, que faz da Liturgia o que ela é: conduzir para o poder transformador de Deus, o qual, através do acontecimento litúrgico, queria transformar os Homens e o Mundo. Neste ponto, a actual educação litúrgica tanto dos sacerdotes como dos leigos, encontra-se num estado deficitário preocupante - aqui há muito por fazer."
(Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia, 2ª edição, 2006, Lisboa, Paulinas, p. 130)




Na Audiência Geral de Quarta-feira (dia 8 de novembro de 2017), o Papa Francisco iniciou nova série de catequeses; catequeses determinadas à formação litúrgica dos fiéis, no âmbito da Eucaristia.

É do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) que se segue tal comprometimento, uma vez que ele 

Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. (n. 1),

Isso é o que se lê, logo de início, na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC. n. 1), que foi o primeiro dos documentos do Concílio Vaticano II, aprovado pelo beato Paulo VI em 4 de dezembro de 1963.

Da Liturgia, como que de um rio de água viva [Ap 22, 1] corre para nós e sobre nós a graça, por meio da qual, conseguimos a santificação em Cristo e a glorificação de Deus.

Para que isso aconteça é necessária a sinergia (do grego: syn - junto + ergon - trabalho), ou a ação conjunta. "Este termo clássico entre os Padres, procura traduzir a novidade da união de Deus e do homem em Cristo, ou melhor, da energia do Espírito Santo que penetra interiormente a energia do homem e o identifica com Cristo. Todo o realismo da liturgia e da divinização está nesta sinergia" (Jean Corbon, A Fonte da Liturgia, Lisboa, Paulinas, p. 11), de modo que, acercando-se da Sagrada Liturgia com disposições de reta intenção,

unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão (28) [SC, n. 11]
 
Entretanto, para se chegar eficazmente a tudo isso, é conditio sine qua non (condição sem qual não) a participação plena, consciente e ativa. Por isso que

Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e ativa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação. [SC, n. 14]

Em tantas mais passagens da referida Sacrosanctum Concilium (SC) fala-se dessa virtuosa participação, necessária para render os frutos da santificação e da glorificação.

Considerada como o exercício da função sacerdotal de Cristo [SC, n. 7], a Liturgia é ação essencialmente sagrada (SC, n. 7) e

contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7). [SC, n. 2]

A Sacrosanctum Concilium declara que a finalidade do Concílio, em propondo o fomento da vida cristã entre os fiéis, a adaptação do que é suscetível de mudança às necessidades deste tempo, a promoção do que possa contribuir para união dos que creem no Cristo e o fortalecimento do que possa ajudar ao chamamento de todos ao seio da Igreja, deságua, como já visto, na reforma e incremento da Liturgia (SC, n. 1).

Daí se vê a importância substancial da Liturgia. Liturgia esta que se crê (mistério acreditado), que se celebra (mistério celebrado) e que se vive (mistério vivido).

Em sua Introdução (Proêmio), a Sacrosanctum Concilium sintetiza aspectos da reforma e incremento  litúrgico, entre outros, o caráter sagrado da Liturgia, a santificação em Cristo, a glorificação de Deus, a ordenação e subordinação do humano ao divino, a participação plena, consciente e ativa, a ação de exprimir na vida e de manifestar aos outros o que se celebra (SC, n. 2). 

A reforma litúrgica deve, sem descuidar de outros princípios ou aspectos, assumir, como objetivo fundamental a boa catequese sobre a participação plena, consciente e ativa dos fiéis na celebração, como quer o Concílio Vaticano II, que, por sua vez, frutuosa e piedosa, conduz à renovação litúrgica. A renovação litúrgica "consiste em deixar-se penetrar totalmente do espírito que inspirou a revisão dos ritos e textos. Em outras palavras, levar o povo até o coração da liturgia para que viva em profundidade  o que celebra e celebre autenticamente o que vive" (Julián López Martín, No Espírito e na Verdade, vol. II, Petrópolis, Vozes, pp. 302-303).

Realizada, pois, a reforma dos ritos e textos litúrgicos, procura-se, com a ênfase da atual série das catequeses do Papa Francisco, dinamizar a concretização da renovação litúrgica, que, como recorda o Pontífice, passa pela formação litúrgica:

Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação. E é precisamente esta também a finalidade deste ciclo de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos concedeu na Eucaristia. [Audiência Geral de Quarta-feira, 8/11/2017]

As catequeses do Papa Francisco sobre a formação litúrgica (quartas-feiras do ano de 2017) podem ser acompanhadas e acessadas aqui.

Por oportuno, as palavras de Bento XVI, em conversa com Peter Seewald, respondendo à pergunta sobre empobrecimento e abusos na liturgia:

"No plano institucional e jurídico não se pode fazer muita coisa. Importante é que exista uma visão interna desse fato, que as pessoas aprendam o que é a liturgia a partir de dentro, o que ela realmente significa, vivenciando-a. Exatamente por isso escrevi alguns livros sobre este tema. Infelizmente ainda existem esses posicionamentos estreitos de certos grupos de supostos especialistas, que absolutizam suas próprias teorias e não enxergam o que é essencial. Não é o caso de permitir toda espécie de manipulação pessoal, mas de que a liturgia tem significado em si mesma e se celebra a partir de dentro. Mas isso é algo que não se pode comandar." (Peter Seewald, Bento VI - O Último Testamento, Planeta, p. 239).

Por fim, Joachim Gnilka, respondendo a uma das perguntas da Entrevista (Jesus, o Cristo), em apêndice ao seu livro, sobre o fato de Jesus reunir em torno de si um grupo de discípulos, mas registrando que as autênticas reformas (e isso é pertinente aqui) fazem o caminho de retorno às fontes, afirma:

"De facto, as verdadeiras reformas na Igreja realizaram-se sempre como um regresso às origens. E a ideia de discipulado, de ser discente de Jesus, na minha  opinião,  é muito importante." (Jesus de Nazaré, Lisboa, Presença, p. 308)


Leia mais:

Papa Francisco: la riforma della da liturgia
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http://revista.olutador.org.br/formacao-liturgica-formar-para-que/

sábado, 15 de abril de 2017

Feliz e Santa Páscoa do Senhor!


Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. (Jo 11, 25)




Feliz e Santa Páscoa do Senhor !



Fonte da imagem:
https://padrepauloricardo.org/episodios/aspirai-as-coisas-do-alto-pascoa-do-senhor

sábado, 25 de março de 2017

Presbitério: vitrine litúrgica para o povo e como reverenciar o Evangelho de Cristo proclamado



Numa clássica definição de A. Nosetti e C. Cibien (Dicionário de Liturgia, organizado por Domenico Sartore e Achille M. Triacca), presbitério é o:

Espaço em torno do altar reservado ao bispo e ao clero.

Para o Cerimonial dos Bispos, presbitério é "o espaço em que o Bispo, presbíteros e ministros exercem o seu ministério" (n. 50). Para a Instrução Geral do Missal Romano - IGMR (3ª edição típica), presbitério "é o lugar onde se encontra localizado o altar, onde é proclamada a Palavra de Deus, e nele o sacerdote, o diácono e os demais ministros exercem seu ministério." (n. 295)

As normas preveem que o presbitério deve distinguir-se do todo da igreja, ser suficientemente amplo e ter uma estrutura mais elevada, de modo que os atos ali realizados possam ser vistos e participados, presenciados e acompanhados por todos.

Para José de Leão Cordeiro "o presbitério é o lugar onde os presbíteros e todos os ministros litúrgicos (...) realizam o seu ministério", como se lê em seu "O Livro do Acólito".

Na igreja ou na catedral, como área "reservada ao corpo presbiteral e a outros ministérios envolvidos da direção e presidência das celebrações" (José Aldazábal), o presbitério é a vitrine de toda a assembleia reunida, cujos membros se espelham naqueles que estão no presbitério para absorção de gestos litúrgicos comuns uns aos outros.

Na verdade, a celebração requer, para a sua beleza, unidade de gestos e posições corporais. Por isso, a Instrução Geral do Missal Romano exalta o valor e a finalidade dos gestos e posições do corpo: 

42. Os gestos e posições do corpo tanto do sacerdote, do diácono e dos ministros, como do povo devem contribuir para que toda a celebração resplandeça pelo decoro e nobre simplicidade, se compreenda a verdadeira e plena significação de suas diversas partes e se favoreça a participação de todos. Deve-se, pois, atender às diretrizes desta Instrução Geral e da prática tradicional do Rito romano e a tudo que possa contribuir antes para o bem comum espiritual do povo de Deus, do que atender  ao seu próprio gosto ou arbítrio. A posição comum do corpo, que todos os participantes devem observar é sinal da unidade dos membros da comunidade cristã, reunidos para a sagrada Liturgia, pois exprime e estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes. (negritos não são do original)

Das leituras bíblicas, o Evangelho é o ponto alto, assim o realça a referida Instrução Geral - IGMR:

60. A leitura do Evangelho constitui o ponto alto da liturgia da palavra. A própria Liturgia ensina que se lhe deve manifestar a maior veneração, uma vez que a cerca mais do que as outras, de honra especial, tanto por parte do ministro delegado para anunciá-la, que se prepara pela bênção ou oração; como por parte dos fiéis que pelas aclamações reconhecem e professam que o Cristo está presente e lhes fala, e que ouvem de pé a leitura; ou ainda pelos sinais de veneração prestados ao Evangeliário.

Com o canto de aleluia ou de aclamação antes da proclamação do Evangelho, todos ficam de pé, segundo dispõe a IGMR:

62. Após a leitura que antecede imediatamente o Evangelho, canta-se o Aleluia ou outro canto estabelecido pelas rubricas, conforme exigir o tempo litúrgico. Tal aclamação constitui um rito ou ação por si mesma, através do qual a assembleia dos fiéis acolhe o Senhor que lhe vai falar no Evangelho, saúda-o e professa sua fé pelo canto. É cantado por todos, de pé, primeiramente pelo grupo de cantores ou cantor, sendo repetido, se for o caso; o versículo, porém, é cantado pelo grupo de cantores ou cantor. (negritos não são do original)

De pé é a posição corporal e litúrgica para a escuta do Evangelho proclamado. 

A propósito, reproduzimos a imagem acima para ilustrar o que se diz por palavras. Os dois ministros de castiçais que ladeiam o ambão estão de pé, voltados para o ambão, e não para o corpo da assembleia reunida. A posição dos ministros litúrgicos situados à extrema esquerda da imagem acima é de pé, mas: "As mãos ficam juntas uma contra a outra à altura do peito" (Giuseppe Carlo Cassaro). Ou, como melhor explicita L. Trimeloni: "as palmas com os dedos unidos e estendidos tocam-se; mas o polegar direito deve sobrepor-se ao esquerdo em forma de cruz. Evitem os extremos de ter as mãos  completamente horizontais ou totalmente verticais; faça-se de modo que somente a ponta esteja ligeiramente afastada do peito."


Mais adiante a IGMR complementa:

133. [Sacerdote] Toma, então, o Evangeliário, se estiver no altar e, precedido dos ministros leigos, que podem levar o turíbulo e os castiçais, dirige-se para o ambão, conduzindo o Evangeliário um pouco elevado. Os presentes voltam-se para o ambão, manifestando uma especial reverência ao Evangelho de Cristo. (negritos não são do original)

A beleza da liturgia está na harmonia dos gestos e das posições do corpo,  que expressam a unidade e propiciam viva participação. E, para isso, concorrem, com bastante visibilidade, todos os que ocupam o presbitério, uma escola de liturgia.


Leia mais:



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http://ars-the.blogspot.com.br/2014/03/de-que-lado-deve-ficar-o-ambao.html

sábado, 14 de janeiro de 2017

Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, simplesmente "amigo do povo"



Não há quem não tenha ouvido falar de Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), esse grande Cardeal que durante anos esteve à frente da Arquidiocese de São Paulo. Grande em estatura moral, grande em impulsionar a Igreja para as periferias da vida, grande em enfrentar e solucionar desafios.

Idoso, já afastado de suas funções diretivas da Arquidiocese, o Arcebispo Emérito vivia recolhido na casa de repouso da Congregação das Franciscanas da Ação Pastoral, no Parque Monte Alegre, em Taboão da Serra, SP, cujas irmãs o acompanharam e dele cuidaram nos últimos anos.

Dom Paulo foi um profeta. A igreja "em saída", atitude missionária tão cara ao Papa Francisco (Evangelii Gaudium, n. 24, n. 46), já se fazia presente no conteúdo da ação pastoral de Dom Paulo, na Arquidiocese de São Paulo.

Simplesmente um franciscano. Ou, amigo do povo, como ele dizia, em entrevista ao jornal O São Paulo, de dezembro de 1997:
“Eu gostaria de ser lembrado como amigo do povo. Porque eu defendi os direitos humanos de todo o povo, sem olhar religião, sem olhar ideologia, sem olhar para as capacidades ou possibilidades das pessoas que eram perseguidas, mas sim para que todas elas tivesses seus direitos garantidos e a dignidade humana revelasse o amor divino." (disponível em: http://brasileiros.com.br/2016/12/quero-ser-lembrado-como-o-amigo-povo/ - Acesso em: 21/12/2016)

Para outros, o Cardeal do povo, o Defensor dos direitos humanos e tantas mais adjetivações que apontam para as qualidades de Dom Paulo; elas não se excluem, mas se somam. O homem de todos e para todos.

Foi o homem da esperança. O lema do seu brasão episcopal EX SPE IN SPEM, "De Esperança em esperança", é uma bússola a guiar a nossa caminhada, numa adesão madura a Cristo e a seu Evangelho. Viver a partir de Cristo, e não de ideologias ou coisas mais que não enobrecem a pessoa na sua dimensão espiritual, ética, ou seja, de pessoa feita à imagem e semelhança de Deus. Para tanto, não perder a esperança, mas dela fazer a força para, cada dia, a cada situação, continuar lançando-se à frente. Não fugir dos fatos, mas, na esperança, ter forças para continuar. É um abandonar-se nas mãos da Divina Providência.

Um homem de Deus, hoje vivendo nele e com ele. O novo e definitivo endereço de Dom Paulo é lá no céu. Na quarta semana do Advento, tempo de espera e preparação para o Natal, Deus chamou-o, para celebrar, daqui para frente, por séculos sem fim, o eterno Natal do Filho. 

Por fim, ao prefaciar Brasil: Nunca Mais, Dom Paulo Evaristo Arns deixou esta mensagem para o Brasil e para o mundo:

A imagem de Deus, estampada na pessoa humana, é sempre única. Só ela pode salvar e preservar a imagem do Brasil e do mundo.


Leia mais:

Despedida franciscana às 10 horas desta sexta


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domingo, 8 de janeiro de 2017

Diretório da Liturgia - 2017




O Diretório da Liturgia - Ano A - São Mateus (2016-2017) para a Igreja no Brasil já foi lançado pelas Edições CNBB, nas versões brochura (imagem acima) e espiral. E se encontra à venda nas livrarias católicas. 

Sobre a importância do Diretório da Liturgia e outras informações podem ser conferidas aqui

Esclareça-se que, no Brasil, o Tempo do Natal do Ano A - São Mateus vai até o dia 9 de janeiro de 2017, segunda-feira, inclusive. Este dia é dedicado à festa do Batismo do Senhor. A partir do dia imediatamente seguinte (10/01, terça-feira), começa o Tempo Comum (1ª fase).


Leia mais:

O ano litúrgico e o calendário


Fonte da imagem:
http://www.edicoescnbb.com.br/diretorio-da-liturgia-2017-brochura.html