sábado, 5 de abril de 2008

O itinerário da fé pascal


Do livro do padre Álvaro Barreiro, SJ, tomo por empréstimo o título deste post.

No Tempo Pascal dão-se as aparições do Jesus ressuscitado, ou cristofanias. É o tempo em que se vai como que preparando o atual tempo da história da salvação, chamado tempo da Igreja, ou o tempo do Espírito Santo.

Era o primeiro dia da semana (equivalente ao domingo). Abatidos com a morte do seu líder, dois discípulos abandonaram Jerusalém. Talvez quisessem tocar suas vidas fora do centro político, econômico e religioso - Jerusalém. Dirigiram-se, então, para um povoado chamado Emaús, distante de Jerusalém uns dez quilômetros.

Todos os acontecimentos da semana anterior, sobremodo a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e os seus sofrimentos da quinta a sexta-feira, estavam frescos na cabeça dos discípulos. E, enquanto caminhavam, comentavam entre si esses fatos. E, naturalmente, a eles se juntou um viajante que acabou por interromper a viagem.

O evangelista Lucas descreve esse episódio dos dois discípulos, conhecido sob o título de Os dois discípulos de Emaús, ou Os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) .

Neste tempo das aparições - Tempo Pascal -, a Igreja coloca a narração lucana em duas celebrações litúrgicas: eucaristia (missa) da quarta feira na Oitava da Páscoa (26/3) e eucaristia (missa) do terceiro Domingo da Páscoa (6/4).

"O itinerário da fé pascal" dos discípulos de então e dos de hoje passa pelo encontro com o Cristo - o viajante que, sem alarde, se junta a nós, para dar esperança, dar sentido à vida.

Sempre me fascinou essa maravilha de Os discípulos de Emaús. Nela, via e vejo como que a primeira Celebração Eucarística (Missa), em sua inteireza fundamental (liturgia da palavra e liturgia eucarística). Ou, como diz a Instrução Geral sobre o Missal Romano: "A Missa consta, por assim dizer, de duas partes, a saber: a liturgia de palavra e a liturgia eucarística, tão intimamente unidas entre si, que constituem um só ato de culto" (n. 28).

E ainda: o retorno dos discípulos a Jerusalém para unir-se aos demais bem define o sentido da celebração eucarística fazer um só corpo e um só espírito. E mais o ide da Missa coincide com o sentido do retorno: confirmar a alegre novidade; anunciá-la, não guardando só para si.

O livro "O itinerário da fé pascal", de autoria do padre Álvaro Barreiro, SJ, está plasmado em cima do texto Lucas (Lc 24,13-35), razão pelo qual a ele me reporto. O livro como que, trabalhando uma aparição do Tempo Pascal, ajuda a viver a espiritualidade deste kairós. É livro para ser lido e meditado não apenas no Tempo Pascal, mas a todo tempo, pois todo o tempo é tempo de escutar o Cristo, partir e repartir, retornar à unidade na fé, alegrar-se e anunciar.

Concluo com as palavras do padre Álvaro Barreiro, com perguntas, cujas repostas serão encontradas no decorrer do livro: "O relato da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús responde às perguntas que eram feitas nas comunidades contemporâneas do evangelista; perguntas que continuam a ser feitas em nossas comunidades: Por que Jesus ressuscitado, "o Vivente" (vv. 5.24), não se manifesta? Por que nossos olhos são incapazes de vê-lo? Por que nossos corações são lentos para crer?" [1].


Leia mais:




[1] Álvaro Barreiro, SJ, O itinerário da fé pascal: A experiência dos discípulos de Emaús e a nossa (Lc 24, 13-35), São Paulo, Edições Loyola, 4ª edição, revista e ampliada, junho de 2005, p. 16.


Fonte da primeira imagem:
http://www.vilakostkaitaici.org.br/texto_estudos_quevedo21.htm

Fonte da segunda imagem:
http://www.escoladeevangelizacao.com.br/redir.php?show=shopping.php

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Martin Luther King: o sonho continua

Dr. Martin Luther King Jr. (15 de janeiro de 1929 - 4 de abril de 1968), negro estadunidense, Prêmio Nobel da Paz (1964), marcou época por sua luta pela igualdade de direitos civis entre brancos e negros. Seus discursos eram inflamados. Reunia multidões.

Em 28 de agosto de 1963, Luther King pronunciou para imensa multidão seu famoso e inesquecível discurso "Eu tenho um sonho". Ou, em inglês: "I Have a Dream".

Luther King, reconhecido internacionalmente pelo seu pacificismo, foi assassinado no dia 4 de abril de 1968, em Memphis (Tennessee).

Ao lado de Gandhi, João XXIII e John Kennedy, Luther King entrou para a galeria dos grandes homens que marcaram e estiveram além das épocas em que viveram. São exemplos perenes.

E Luther King sonhava:

"Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!"

Sonhava o sonho do cristão: "Esta é nossa esperança."


E o sonho continua...


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Fonte da primeira imagem:
http://www.afscme.org/about/mlk-memorial.cfm

Fonte da segunda imagem:
http://www.dezemtudo.com/artigos_1.asp?CodigoArtigo=66&Pagina=4&tipo=artigo

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Papa João Paulo II: o adeus que continua

Era o dia 2 de abril de 2005, sábado. O dia já dava lugar para a véspera do Domingo da Divina Misericórdia (Segundo Domingo da Páscoa), quando a nós, brasileiros, chegava a notícia, proveniente de Roma, de que João Paulo II acabava de falecer. O Papa dava o seu adeus.

Hoje, dia 2/4/2008, quarta-feira da segunda semana da Páscoa, completam-se três anos do falecimento de João Paulo II.

Para nós, brasileiros, fica o registro: João Paulo II foi o primeiro Papa a visitar o Brasil (de 30 de junho a 11 de julho de 1980). Seus passos em nosso solo foram acompanhados com muita emoção e alegria. Seus pronunciamentos, catalogados em livro sob o título "Pronunciamentos do Papa no Brasil", estão aí para documentar tão intensa peregrinação em solo brasileiro. [1]

Se quiser recordar a primeira visita de João Paulo II ao Brasil, confira no arquivo JB ONLINE.

Vale conferir a página oficial do site do Vaticano dedicada a Ionnes Paulus II: Em memória de João Paulo II no aniversário do seu falecimento.

E mais. Três anos depois, é possível tornar a ver aquelas imagens que comoveram o mundo, escutar o toque dos sinos anunciando a morte de João Paulo II e as palavras do porta-voz do Vaticano Joaquim Navarro-Vals, acessando aqui.

O Departamento de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice notifica que o Papa Bento XVI presidirá, no dia 2/4 (hoje), 10:30 horas (horário do Vaticano), a celebração da Santa Missa, no terceiro ano da morte de João Paulo II. Em italiano, a notificação do referido Departamento pode ser lida aqui. A Rádio Vaticano noticia a matéria sob o título: Terceiro aniversário da morte de João Paulo II vai ser assinalado no Vaticano.

Aprofunde-se mais lendo: João Paulo II, 3 anos depois.

Por derradeiro, perdoem-me meus leitores: não posso deixar de recordar, nesta mesma data, os 40 anos do adeus do meu pai, na longínqua manhã do dia 2 de abril de 1968. Os dois adeuses marcam para mim esse dia de entrada de ambos para a vida plena, em Deus.


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Fonte da imagem:

http://mundoschoenstatt.blogspot.com/2005_04_01_archive.html

sábado, 29 de março de 2008

Divina Misericórdia

Sobre o sentido bíblico do termo misericórdia, o Papa João Paulo II traz seguras informações na nota de rodapé n. 52 da sua encíclica Dives in misericordia sobre a Misericórdia Divina, de 30 de novembro de 1980. [1]

Para o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: "m. divina REL. segundo o cristianismo, a imensa bondade de Deus, que o leva a conceder graça aos homens e perdão aos pecadores." [2]

Ainda: sobre a Misericórdia Divina, leia aqui; e sobre a virtude da misericórdia, leia aqui.


O Papa João Paulo II foi o grande propagador da Misericórdia Divina, tema que o acompanha desde seus tempos em Cracóvia (Polônia). Para isso, concorreu Santa Faustina (1905-1938), religiosa polonesa, que pertencia a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, cujos procedimentos para o início do processo de beatificação foram dados pelo então arcebispo da Cracóvia, cardeal Karol Wojtyla. Tanto a beatificação da irmã Faustina, em 18 de abril de 1993 (Segundo Domingo da Páscoa), quanto a canonização, foram realizadas pelo Papa João Paulo II. O Rito de Canonização de Maria Faustina Kowalska [irmã Faustina] foi realizado na Concelebração Eucarística celebrada no Segundo Domingo de Páscoa de 2000 (30/4), cuja homilia pode ser lida aqui.

Nessa homilia, João Paulo II diz: "É importante, então, que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de "Domingo da Divina Misericórdia" (n. 4).

Era, então, necessário dar forma concreta ao tópico da homilia acima reproduzido. A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, seguindo orientação papal para que o II Domingo da Páscoa do Ano Litúrgico tenha a seguinte denominação: "II Domingo da Páscoa ou da Divina Misericórdia", baixou o Decreto Misericors et miserator Dominus, de 5 de maio de 2000, publicado em 23 de maio de 2000 (não há versão em português).

Os textos litúrgicos não sofreram mudança. São os mesmos tanto os do Missal Romano quanto os da Liturgia das Horas.

O Diretório Litúrgico e da Organização da Igreja no Brasil - 2008, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, adota para a celebração da Eucaristia (Missa) do dia 30 de março de 2008 (pág. 85) a seguinte denominação: 30 + Br. 2º DOMINGO DA PÁSCOA [com subtítulo] Domingo da Divina Misericórdia.

A Oração do dia prevista no Missal Romano para o Segundo Domingo da Páscoa (pág. 303) invoca a misericórdia de Deus: "Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. (...)".

Detenha-se mais sobre o Domingo da Misericórdia, lendo aqui.

São concedidas indulgências nos atos de culto, realizados em honra da Misericórdia Divina, como podem ser lidas do Decreto da Penitenciária Apostólica, datado de 29 de junho de 2002.

Para celebrar o terceiro aniversário de falecimento do Papa João Paulo II, será realizado, em Roma, entre os dias 2 e 6 de abril próximo o Primeiro Congresso Apostólico Mundial sobre a Misericórdia.


Leia mais:



[1] O termo misericórdia chega até nós via latim: de misericordia (= compaixão), que se forma do verbo misereo (= ter compaixão) e do substantivo neutro cor (= coração).

[2] Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda., Rio de Janeiro, Editora Objetiva Ltda., 2001, 2ª reimpressão com alterações, 2007, p. 1933.

Fonte da imagem:
http://www.websister.blogger.com.br/2004_04_01_archive.html

domingo, 23 de março de 2008

Tempo Pascal: as aparições do Jesus ressuscitado


Os cinqüenta dias que se seguem do Domingo da Ressurreição, inclusive, até o Domingo de Pentecostes, formam o Tempo Pascal.

Na expressão de Tertuliano (155-220): "Este tempo é propriamente um "dia da festa"." [1] É uma única festa pascal. Ou, como rezam as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário: "Os cinqüenta dias entre o domingo da Ressurreição e o domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, "como um grande domingo"" (n. 22). Conforme nota de rodapé n. 12, para a expressão "como um grande domingo", as referidas Normas Universais se reportam a Santo Atanásio, Epist. fest., 1: PG 26, 1366.

É o tempo das aparições do Jesus ressuscitado. Não são aparições sem sentido. Ao contrário, elas visam educar, transmitir e fortalecer os apóstolos, hoje nós, na fé pascal, como, por exemplo, por intermédio daquela passagem de Os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), interpretada por Caravaggio em A Ceia de Emaús (pintura acima).

Os Domingos do Tempo Pascal são tidos como Domingos da Páscoa. O Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor, que é antecedido pela Vigília Pascal, é o primeiro Domingo da Páscoa. No Brasil, celebra-se a solenidade da Ascensão do Senhor no sétimo Domingo da Páscoa. No domingo seguinte, celebra-se a solenidade de Pentecostes, quando se encerra o Tempo Pascal.

O Círio Pascal, que é símbolo do Cristo ressuscitado, marca o Tempo Pascal. Estará aceso tanto nas Celebrações Eucarísticas (Missas) quanto nas laudes e vésperas da Liturgia das Horas, até o Domingo de Pentecostes inclusive.


Leia mais:

Círio Pascal: Eis a luz de Cristo!


[1] O Baptismo, n. 19, apud Antologia Litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canónicos do primeiro milénio, recolha de textos, tradução e organização de José de Leão Cordeiro, Santuário de Fátima-Portugal, Secretariado Nacional de Liturgia, p. 200, n. 641.



Fonte da imagem:
http://www.pime.org.br/noticias.inc.php?&id_noticia=6557&id_sessao=2

quinta-feira, 20 de março de 2008

Tríduo Pascal: fonte da vida cristã

O Tríduo Pascal está no contexto da Semana Santa. Começa com a Missa vespertina da na Ceia do Senhor, na Quinta-Feira Santa, e termina na tarde com as Vésperas do domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor. Ou, como dizem as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário: "O Tríduo pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa com a Missa vespertina na Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do domingo da Ressurreição" (n. 19).

Na "Tabela dos Dias Litúrgicos" das mencionadas Normas Universais (n. 59), o Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor goza de primeiríssima ordem de precedência sobre qualquer outra celebração. E até mesmo sobre o Natal do Senhor, que muitos pensam ser a principal solenidade da Igreja. Não é. A principal solenidade da Igreja é o Tríduo Pascal.

Dada essa proeminência fundamental para os cristãos, Santo Agostinho adverte: "Presta atenção ao Tríduo sacratíssimo do crucificado, do sepultado e do ressuscitado. [...] no Evangelho, são claros não só o dia em que o Senhor foi crucificado, como também aquele em que esteve no sepulcro e aquele em que ressuscitou." [1]


O Tríduo Pascal tem seu ponto celebrativo mais elevado com a Vigília, de modo que as já mencionadas Normas Universais (n. 21) mandam que a sua celebração deve realizar-se à noite (Sábado Santo), começando depois do anoitecer e terminando antes da aurora do Domingo.

Esta Vigília Pascal é, na feliz expressão de Santo Agostinho, "a mãe de todas as santas vigílias". [2] E o santo exorta: "Permaneçamos, pois, de vela, e oremos para celebrar esta vigília, exterior e interiormente. Deus fala a nós pelas suas leituras, falemo-Lhe nós a Ele pelas nossas orações. Se escutarmos com obediência as suas palavras, Aquele que nós invocamos com a nossa oração morará em nós." [3]

Por fim, eis o que diz Santo Ambrósio (340-397), que foi bispo de Milão (Itália): "Devemos observar não só o dia da Paixão, mas também o da Ressurreição, de modo que tenhamos um dia de amargura e também um dia de alegria; jejuemos naquele, saciemo-nos neste. (...) É esse o Tríduo sagrado... durante o qual Cristo sofreu, repousou e ressuscitou, acerca do qual está escrito: Destruí este templo e em três dias o reedificarei." [4]



Leia mais:

Semana Santa: os dias decisivos de afirmação na esperança


[1] Carta 55, escrita a Januário, ns. 24 e 27, apud Antologia Litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canónicos do primeiro milénio, recolha de textos, tradução e organização de José de Leão Cordeiro, Fátima -Portugal, Secretariado Nacional de Liturgia, p. 826, ns. 3428 e 3429.

[2] e [3] Sermão 219: Vigília pascal, apud Antologia..., acima citada, p. 911, n. 3857.

[4] Carta 23, ns. 12 e 13, apud Antologia..., acima citada, p. 548, n. 2099.


Fonte da primeira imagem:
http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=2241

Fonte da segunda imagem:
http://criticomusical.blogspot.com/2003/06/deposio-de-cristo-no-tmulo-por.html

Fonte da terceira imagem:
http://www.catedraldeniteroi.com.br/santo_terco.html

quarta-feira, 12 de março de 2008

Semana Santa: os dias decisivos de afirmação na esperança


É a semana decisiva para Jesus. Ele está (ou deveria estar) no centro dos acontecimentos desta semana.

A última semana de Jesus é tão sagrada quanto fundamental para os cristãos.

Depois da longa caminhada com Jesus, todos alegres na esperança (Rm 12,12), é o momento de testar o amadurecimento na fé, para dizer sim ou não, para fugir ou permanecer, para alegrar-se, jubilar-se com todos ou refugiar-se na tristeza da solidão...

Segundo dispõem as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário (n. 31), aprovadas por Motu Proprio de Paulo VI, de 14 de fevereiro de 1969: "A Semana Santa visa recordar a Paixão de Cristo, desde sua entrada messiânica em Jerusalém".

Cinco domingos do Tempo da Quaresma já são passados. No dia 16 de março, celebra-se o sexto domingo, que se chama "Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor", com o qual se inicia a Semana Santa, também chamada a Semana Maior, a Grande Semana e ainda a Semana da Salvação.

É santa porque o Santo por excelência, o Cristo, está no seu centro. E todos os demais qualificativos desta significativa semana encontram ressonância numa só pessoa: Jesus, o Messias, o Cristo.

Todo o tempo quaresmal já transcorrido pode ser considerado como tempo de preparação objetivando à subida com Cristo para Jerusalém, a fim de que, ali e com ele, partilhar o seu mistério pascal.

Liturgicamente, a Semana Santa está, em parte, dentro do Tempo da Quaresma, cujo término se dá na Quinta-Feira Santa, depois do pôr-do-sol, mas antes da celebração da Ceia do Senhor. Em outras palavras, é na Semana Santa, mais precisamente no seu quinto dia (quinta-feira), depois do pôr-do-sol, que se conclui o Tempo da Quaresma. Em seguida, com a celebração da Ceia do Senhor, tem início o Tríduo Pascal, do qual, por sua proeminência no ano litúrgico, falaremos no post seguinte.

E concluímos com as palavras do Papa Paulo VI: "Se há uma liturgia, deveria encontrar-nos todos juntos, atentos, solícitos e unidos para uma participação plena, digna, piedosa e amorosa, esta é a liturgia da grande semana. Por um motivo claro e profundo: o mistério pascal, que encontra na Semana Santa a sua mais alta e comovida celebração, não é simplesmente um momento do ano litúrgico; ele é a fonte de todas as outras celebrações do próprio ano litúrgico, porque todas se referem ao mistério da nossa redenção, isto é, ao mistério pascal". [1]


Leia mais:



[1] Paulo VI, "Sermão da quarta-feira", in Encicliche e discorsi, Edizioni Paoline, Roma, 1966, vol. IX, p. 368, citado por Augusto Bergamini, Cristo, Festa da Igreja: história, teologia, espiritualidade e pastoral do ano litúrgico, tradução de Euclides Martins Balancin, São Paulo, Paulinas, 1994, p. 291.


Fonte da imagem:
http://comunidadejoao23.blogspot.com/2006/04/domingo-de-ramos.html

sexta-feira, 7 de março de 2008

Sudário: entre ciência e fé


Sudário, do latim sudarium [1], ou síndone, do grego syndon, é um lençol de linho sobre o qual está impressa a figura do corpo de um homem torturado e crucificado. A imagem impressa no lençol apresenta a singular característica de comportar-se como um negativo fotográfico.

É conhecido por Santo Sudário, ou Sudário de Turim. Usa-se também a palavra Síndone (Santa Síndone), que, em grego, significa tecido de linho de boa qualidade.

No dia 29 de fevereiro, sexta-feira, foi realizado um Congresso Internacional, organizado no âmbito de Mestrado em Ciência e Fé do Ateneu Pontíficio "Regina Apostolorum", tratando do fascinante e sempre atual tema: o Sudário. Em italiano, mais material pode ser lido aqui.

Em Turim, é onde se encontra o Santo Sudário, sob a curadoria do Arcebispo local.

Em 1998, entre os dias 18 de abril e 14 de junho, foi realizada uma exposição pública do Santo Sudário, em comemoração do qüinquagésimo aniversário da Catedral de Turim e do primeiro centenário da exposição do Sudário em 1898, ocasião em que o Sudário foi fotografado pela primeira vez por Secondo Pia (1855-1941), entre os dias 25 e 28 de maio. A fotografia revelou a figura de uma pessoa, na posição frontal e dorsal, com a singular novidade de se apresentar como se fosse um negativo de uma fotografia. A fotografia de Secondo Pia foi fundamental para o início dos estudos e pesquisas, sobremodo no campo médico-legal.

O Papa João Paulo II, em visita pastoral à Arquidiocese de Vercelli e de Turim, no dia 24 de maio de 1998, no solene momento de veneração diante do Santo Sudário, falou aos presentes, e destaco alguns pontos-chave da fala do Papa:

. "O Sudário é uma provocação à inteligência."

. "O que sobretudo conta para o crente é o fato de o Sudário ser espelho do Evangelho."

. "No Sudário reflete-se a imagem do sofrimento humano."

. "O Sudário é também imagem do amor de Deus, e do pecado do homem."

. "O Sudário é também imagem de impotência: impotência da morte, na qual se revela a conseqüência extrema do mistério da Encarnação."

. "O Sudário é imagem do silêncio."

Texto completo, em português, pode ser lido em "Palavras do Padre João Paulo II no Solene Momento de Veneração diante do Santo Sudário". E a saudação do Papa João Paulo II às autoridades civis e à população de Vercelli, em 23 de maio de 1998, pode ser lida aqui.

No ano de 2000, entre os dias 29 de abril e 11 de junho, em face da celebração do Jubileu, foi realizada nova exposição pública.

Neste Tempo de Quaresma, em que se prepara a caminhada rumo a Jerusalém, afigura-se oportuna a leitura de algum material sobre o Santo Sudário, numa visão de edificação cristã como é colocada pela Igreja.

Concluo com as palavras do Papa João Paulo II: "Uma relíquia extraordinária e misteriosa, e, - se aceitarmos os argumentos de muitos cientistas, - uma testemunha singularíssima da páscoa, da paixão, da morte e da ressurreição. Testemunha muda e, ao mesmo tempo, surpreendentemente eloqüente!" [2]


Leia mais:

O que é o Sudário de Turim (autor: Ernesto Arosio)

Centro do Santo Sudário (Diocese de Pelotas - RS-Brasil - Santuário de Guadalupe)





[1] sudarium, ii [sudor], n. Lenço; pano para limpar o suor do rosto. (Francisco Torrinha, Dicionário Latino-Português, Porto - Portugal, Edições Marãnus, terceira edição, 1945, p. 837.

[2] fonte da citação:
http://www.paroquiasaojoaodebrito.com.br/Conteudo/Frente/MateriaSudario.htm


Fonte da primeira imagem:
http://www.linteum.com/espanol/sindone/medicina.htm

Fonte da segunda imagem:
http://www.upra.org/articulo.phtml?id=2502&se=5

Fonte da terceira imagem:
http://www.linteum.com/espanol/sindone/imagen.htm

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja


Entre os dias 5 e 26 de outubro de 2008 será realizada, no Vaticano, a XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, cujo tema escolhido por Bento XVI e tornado público em 6 de outubro de 2006 é "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja".

A seguir, o Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos empenhou-se na preparação dos Lineamenta [1], documento que tem por finalidade apresentar brevemente o estado da questão sobre o importante tema da Palavra de Deus, indicar aspectos positivos na vida e na missão da Igreja, sem omitir certos aspectos problemáticos ou que, pelo menos, carecem de um aprofundamento para o bem da Igreja e da sua vida no mundo.

No dia 27 de abril de 2007, os Lineamenta foram apresentados na Sala de Imprensa da Santa Sé pelo Arcebispo Dom Nikola Eterovic, Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, cujo discurso de apresentação pode ser lido aqui.

Evidentemente que os Lineamenta e o questionário conclusivo foram encaminhados pelo Vaticano a todas as dioceses, que deveriam encaminhar as respostas antes do fim do mês de novembro de 2007. O texto completo, em português, dos Lineamenta pode ser lido aqui.

Recebidas as respostas dadas pelas dioceses, o Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos se encarregou de redigir o Instrumentum Laboris (instrumento ou documento de trabalho) para a assembléia sinodal, que, como dito, realizar-se-á entre os dias 5 e 26 de outubro de 2008, no Vaticano.

O tema do atual Sínodo dos Bispos - "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja" - está em sintonia, como que em continuação, com o tema do Sínodo anterior - "A Eucaristia: fonte e cume da vida e da missão da Igreja" -, celebrado no Vaticano em outubro de 2005, convocado pelo então Papa João Paulo II e presidido por Bento XVI.

Um dos tópicos dos Lineamenta está grafado: "Jesus Cristo é a Palavra de Deus feita carne, a plenitude da Revelação". Ao lado do eixo central - a Ressurreição (1Cor 15,12-22) -, a expressão grafada é fundamental para o cristianismo, eis que "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós" (Jo 1,1.14). E mais: "Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo (Hb 1,1-2).

Esse e tantos outros tópicos dos Lineamenta deixam entrever a importância do conteúdo do tema "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja".

Como diz o apóstolo Paulo, "a palavra de Deus é viva" (Hb 4,12). A Palavra continua atual. Nela Deus se faz presente, mormente e em especial na Palavra proclamada na celebração dos sacramentos.

E Deus continua, pois, falando...


Leia mais:





[1] Lineamentum, palavra latina, geralmente usada no plural lineamenta, significando: 1. Feições; traços fisionômicos. 2. Linha geométrica; traço; pincelada; retoque. 3. Esbôço, plano (duma obra). [Francisco Torrinha, Dicionário Latino-Português, Porto - Portugal, Edições Marãnus, 3ª edição, 1945, p. 480].


Fonte da imagem: http://teologiafvida.blogspot.com/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sínodo dos Bispos: cooperação com o Papa

Já falamos sobre o Sínodo Diocesano. Hoje falaremos sobre o Sínodo dos Bispos.

O Sínodo dos Bispos, como hoje se organiza, deita raízes no Concílio Vaticano II (1962-1965), ou seja, no Decreto Christus Dominus sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja, de 28 de outubro de 1965.

A previsão vem no número 5 desse Decreto conciliar, que diz:

"5. Bispos, escolhidos de diversas regiões do orbe, segundo modos e métodos estabelecidos ou a serem estabelecidos pelo Romano Pontífice, prestam ao Supremo Pastor da Igreja ajuda mais válida no Conselho que tem por nome Sínodo Episcopal. Este Sínodo, representando todo o Episcopado católico, ao mesmo tempo significa que todos os Bispos em comunhão hierárquica participam na solicitude pela Igreja Universal."

O Papa Paulo VI, que bem sabia da significação desse método colegiado de administração, antecipando-se a aprovação desse Decreto pelos Padres Conciliares, assinou, no dia 15 de setembro de 1965, a Carta Apostólica Apostolica Sollicitudo promulgada "Motu Proprio", mediante a qual se constitui o Sínodo dos Bispos para a Igreja Universal.


O Código de Direito Canônico (1983) trata do Sínodo dos Bispos nos canônes 342-348.

O Sínodo dos Bispos é um órgão representativo do Episcopado católico, como instituído pelo mencionado "Motu Proprio".

E mais. O Sínodo dos Bispos é a assembléia dos Bispos católicos escolhidos segundo normas de organização, que se reúnem periodicamente, para estimular o estreitamento da união entre o Romano Pontífice e os Bispos, bem como para auxiliar o Romano Pontífice e para examinar questões que dizem respeito à ação da Igreja no mundo, como se pode ler do canône 342.

O Sínodo dos Bispos está sujeito diretamente à autoridade do Romano Pontífice, que é quem o convoca (cân. 344). O Sínodo dispõe de uma secretaria geral permanente, cujo Secretário Geral é nomeado pelo Romano Pontífice, auxiliado pelo conselho da secretaria (cân. 348). Este conselho é composto de Bispos, uns eleitos pelos Bispos sinodais e outros nomeados pelo Romano Pontífice (cân. 348).

A Secretaria, por ser permanente, mantém a organização administrativa e operacional, bem como faz uma ponte entre uma assembléia geral e outra. E, nesse sentido, é interessante notar que a função do Secretário Geral e de todos os Bispos, eleitos e nomeados, "cessa ao começar a nova assembléia geral" (cân. 348, § 2).

E, assim, a Igreja se organiza para caminhar unida!

Leia mais:



Fonte da imagem:
http://www.champagnat.org/pt/261000001.asp?num=322

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Spe salvi: salvos na Esperança


O título tem por matriz a Carta do Apóstolo Paulo aos Romanos, capítulo 8, versículo 24: Pois é na esperança que fomos salvos. Ora, aquilo que se tem diante dos olhos não é objeto de esperança: como pode alguém esperar o que está vendo?

A Encíclica, em sua introdução (n. 1), salienta o fato de que a Carta do Apóstolo é endereçada aos Romanos e a nós também. Importa dizer que precisamos nos dar conta de que os escritos bíblicos falam hoje para nós.

A esperança é, de fato, uma palavra central da fé bíblica, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos "fé" e "esperança", diz a Encíclica (n. 2).

Qual é a grande esperança? Responde a Encíclica: A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus - o Deus que nos amou, e ama ainda agora "até ao fim", "até à plena consumação" (cf. Jo 13,1 e 19,30) - n. 27.

Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança. A nós, que desde sempre convivemos com o conceito cristão de Deus e a ele nos habituamos, a posse de uma tal esperança que provém do encontro real com este Deus quase nos passa despercebida (n. 3).

Bento XVI dedica algumas passagens da Encíclica para evocar Josefina Bakhita, uma santa de nossos dias, como exemplo, a ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus (n. 3).

Santa Bakhita vivia de uma Esperança Maior. Diante de tantos sofrimentos físicos e emocionais, humilhações pelos quais passou, a Esperança encontrada por Bakhita não restou fragilizada, maculada ou insegura no transcorrrer de sua vida. Os fatos adversos ocorridos no curso do caminho não prejudicaram a meta: a Esperança Cristã.

É do apóstolo Paulo esta exortação: "alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração" (Rm 12,12). Por certo, Bakhita, em sendo alegre na esperança, esteve além das tribulações (e que tribulações!), alimentando esse estado de vida no perserverante diálogo com Deus (ou, no dialeto veneziano, com o Paron - o bom Patrão).

A Encíclica vem preencher um vazio da sociedade moderna, que, sem a Esperança, busca, em vão, nas coisas imediatas e sensíveis a superação para essa insatisfação humana.

SPE SALVI facti sumus - é na esperança que fomos salvos (Rm 8,24) - n. 1.

Vale ler a Carta Encíclica do Santo Padre Bento XVI Spe salvi sobre a Esperança Cristã, editada pela Editora Paulus/Edições Loyola e pela Editora Paulinas.


Leia mais:




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http://www.paulus.com.br/lojavirtual/secoes/detalhamento.php?id=2340&produto=Livros&cat_produto=produtos_livros&produto_dir=livros&categoria=Pastoral,%20Catequese%20e%20Liturgia&id_cat=0

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Bakhita: mística mensageira da esperança

Josefina Bakhita, em italiano Giuseppina Bakhita, nasceu em 1869, em Olgossa, aldeia da região de Darfur, no Sudão, e morreu na Itália, onde vivia, no Convento das Filhas da Caridade Canossianas, em Schio (na província de Vicenza), em 8 de fevereiro de 1947.

A família de Bakhita já conhecia o sofrimento da perda. Sua irmã fora raptada por traficantes de escravos negros que apareceram em Olgossa. Sua mãe sofreu e chorou muito. Toda a família chorou a perda.

Algo ainda ia trazer mais sofrimento.

Certo dia, quando tinha cerca de nove anos, Bakhita e uma colega mais velha estavam passeando no campo. Delas se aproximaram repentinamente dois estrangeiros. Um deles disse à colega que deixasse a menina pequena (Bakhita) ir colher algumas frutas para ele no bosque, e que logo se encontrariam mais adiante. E assim aconteceu: a colega continuou o seu caminho. Bakhita já estava no bosque quando percebeu que os estrangeiros a seguiam, momento em que um deles agarrou a menina com força brutal e o outro sacou uma faca ameaçando-a de morte se gritasse, e foi obrigada a segui-los.

Esses estrangeiros eram traficantes de escravos negros.

Bakhita não é o nome que seus pais lhe deram, mas sim o nome dado a ela por seus traficantes. Bakhita no dialeto local significa "afortunada", "bem-aventurada". Nome significativo, de cunho profético, para o futuro da menina raptada. Josefina é seu nome de batismo, que se realizaria anos depois, na Itália, como adiante veremos.

Nos mercados de escravos das cidades de El Obeid e Cartum (capital), ambas no Sudão, foi vendida cinco vezes.

Seu quarto dono a maltratou muitíssimo, quando teria por essa época uns treze anos. Foi quem mais a humilhou e a fez sofrer. Disso, lhe resultaram mais de cem cicatrizes que marcaram seu corpo para sempre. E, para evitar infecções e durante aproximadamente um mês, sal era colocado sobre as incisões. Tamanho era o sofrimento que Bakhita chegava a pensar que não ia agüentar e morrer.

Finalmente, em Cartum, capital do Sudão, foi comprada, em 1882, por um comerciante italiano para o senhor Calixto Legnani, cônsul italiano, residente na cidade, que pretendia restituir-lhe a liberdade. Em vezes anteriores, o cônsul já havia feito o mesmo caminho: crianças escravas compradas para ele e por ele restituídas às suas famílias. No entanto, não foi possível fazer o mesmo com Bakhita, por causa da grande distância entre o lugar de origem e a capital e do vazio de memória da adolescente quanto ao nome do vilarejo onde morava e dos nomes dos próprios familiares.

O senhor Legnani foi o seu quinto dono. Mas um dono diferente: Bakhita era tratada como um ser humano. Os donos anteriores se consideravam proprietários de algo que podia ser objeto de compra e venda.

Na casa do cônsul, Bakhita não era, pois, tratada como escrava. Ganhou a paz e a serenidade, não obstante amargurasse a saudade da família, talvez ficada para trás para sempre.

Em 1884, o cônsul, ante a insurreição mahdista, foi obrigado a deixar Cartum. A pedido de Bakhita, ela acompanhou o cônsul e o seu amigo Augusto Michieli, com destino à Itália.

Chegados à Itália, em Veneza, a esposa do senhor Augusto Michieli, que os esperava, quis ficar com um dos escravos que traziam, insistindo em ficar com Bakhita. Pressionado, o senhor Calixto Legnani concordou.

Bakhita passou a morar com a família Michieli, em Zeniago (em Mirano, na província de Veneza). Quando nasceu Mimina, filha do casal Michieli, Bakhita fez o papel de babá, e se tornou também uma amiga. Em 1888, por razões econômicas (compra de um hotel em Suakin, no Sudão), a família Michieli deixou a Itália para administrar o hotel.

A conselho do senhor Iluminado Checchini, administrador do casal, a criança Mimina e Bakhita permaneceram na Itália e foram confiadas às Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza.

Bakhita ficou hospedada gratuitamente e começou receber os primeiros ensinamentos religiosos. Quando a senhora Maria Turina, esposa do senhor Michieli, voltou da África, para retomar a filha e Bakhita, esta, com coragem e determinação, manifestou o desejo de continuar na Itália com as irmãs Canossianas. Bakhita pôde fazer prevalecer a sua vontade, porque na Itália não são reconhecidas as leis de escravatura. No dia 29 de novembro de 1889 Bakhita foi declarada oficialmente livre.

No dia 9 de janeiro de 1890, Bakhita recebe os sacramentos da iniciação cristã, com o nome de Giuseppina Margherita Fortunata. No dia 7 de dezembro de 1893, ingressou no noviciado do Instituto de Santa Madalena de Canossa, e em 8 de dezembro de 1896 pronunciou os primeiros votos religiosos.

Bakhita foi transferida, em 1902, para o Convento da mesma Ordem em Schio, na província de Vicenza, onde permaneceu até o seu falecimento. Bakhita fazia trabalhos de limpeza, cozinhava e cuidava dos serviços da sacristia. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), prestou ajuda em serviços de enfermaria, quando parte do Convento serviu de hospital militar.

Bakhita passou, a partir de 1922, a encarregada da portaria. Neste ofício, começou a manter contato com a população local, que passou a gostar e amar esta freira negra, por causa do seu modo de tratar as pessoas. Bakhita era gentil, atenciosa, serena e sempre alegre. Passou a ser conhecida carinhosamente como Madre Moretta.

O carisma e a santidade de Bakhita propagadas pelo povo passaram a ser notados pelas superioras do Convento. Houve interesse em conhecer detalhes da vida da "Irmã Morena". Bakhita, que só falava o dialeto veneziano, teve uma autobiografia escrita em 1910, em italiano, com detalhes contados à Irmã Teresa Fabris.

Bakhita esteve em Veneza contando a história da sua vida.

Com a publicação de suas memórias, Bakhita ficou conhecida, e começou, então, a viajar por toda a Itália participando de conferências, dando seu testemunho de vida. Sua presença era o bastante, pois, falando somente o dialeto veneziano, poucas palavras dizia ao final dos encontros, mas plenamente suficientes. A presença da tímida Bakhita era o bastante para encantar as pessoas.

Desde 1939, começou a sentir problemas de saúde, não se ausentando mais do Convento em Schio.

Bakhita veio a falecer no dia 8 de fevereiro de 1947, depois de uma longa e dolorosa doença. Muitas pessoas acorreram para dar um último adeus, expressando a gratidão e a veneração à carinhosa Irmã Morena.

No dialeto veneziano, Bakhita se referia a Deus com muito carinho, chamando-O de "el me Paron". Deus era o novo "Patrão" que Bakhita buscava. Veio encontrá-lo e experimentá-lo ao ingressar na Família Canossiana. E, a partir daí, nunca se separou do seu bom "Paron".

As investigações sobre a santidade de Bakhita começaram em 1959 pela Diocese local, doze anos depois da sua morte. Em 1º de dezembro de 1978 foi declarada Venerável. Em 17 de maio de 1992, foi beatificada pelo Papa João Paulo II.

Dez dias depois de declarada "bem-aventurada" (beatificada), acontece, na Diocese de Santos (Estado de São Paulo - Brasil), o milagre necessário para levar a Beata Bakhita à sua canonização. Leia mais aqui, no artigo do Pe. Caetano Rizzi.


A Igreja celebra a memória da Santa Josefina Bakhita no dia 8 de fevereiro.


Leia mais:




Fonte da primeira e da segunda imagens:
http://br.geocities.com/faby_black/bakhita.html


Fonte da terceira imagem:
http://www.combonianos.com/MNDigital/revista/junio/darfur.html


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Quaresma: caminho para a Páscoa do Senhor

Quaresma, do latim quadragesima, significa o período de quarenta dias dedicados à preparação da celebração da Páscoa do Senhor.

A Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas (6/2) e vai até Quinta-Feira da Semana Santa (20/3), excluindo a Missa na Ceia do Senhor.

O número simbólico de quarenta dias tem a ver, entre outras passagens bíblicas, com o dilúvio de quarenta dias e quarenta noites de chuvas sobre a face da terra, cuja figura central é Noé. Tem a ver com os quarenta anos de peregrinação do povo de Israel no deserto, cuja figura central é Moisés. Os quarenta dias e as quarenta noites de permanência de Moisés na montanha (Ex 24, 12-18.34). Os quarenta dias e as quarenta noites de caminhada de Elias para chegar até a montanha de Deus, o Horeb (1Rs 19, 3-8) E, por fim, com os quarenta dias de recolhimento de Jesus no deserto, guiado pelo Espírito Santo.



Fonte da imagem:
http://www.fatima.com.br/interna_exibe.asp?ct=&mn=341&id=808&nt=1161


sábado, 26 de janeiro de 2008

Sínodo: a face diocesana

Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), "sínodo", palavra de origem grega (sýnodos, latinizado como synodus), tem estado na ordem do dia. Em grego, sýnodos é formado por syn ("juntos"), e hodos ("caminho"). Pela formação etimológica, sínodo exprime a noção de "caminhar juntos". Uma noção de pluralidade, mas juntos, unidos.

Em síntese, sínodo é a assembléia convocada pela autoridade eclesiástica competente, com o objetivo de, congregando na unidade, encontrar soluções pastorais para a vida da Igreja.

Comumente se fala em Sínodo de Bispos. Deste, falaremos em outra oportunidade.

Mas existe outro que não é só de Bispos. É o Sínodo Diocesano de que cuidam os canônes 460-468 do Código de Direito Canônico. Deste, participam presbíteros, diáconos, religiosas e religiosos, leigas e leigos.

Essa participação de homens e mulheres leigos no Sínodo Diocesano emerge suas raízes do disposto no cânone 129, § 2º, do Código de Direito Canônico, onde, facultativamente, se confere a esses batizados a cooperação no "múnus de reger" ou governar.

O Catecismo da Igreja Católica (tornado público mediante a Constituição Apostólica Fidei Depositum de João Paulo II, em 11 de outubro de 1992), ao tratar da participação dos fiéis leigos no múnus régio de Cristo, evoca os números dos parágrafos 908-913 direitos e deveres, com remissão ao Novo Testamento, ao Concílio Vaticano II, ao Código de Direito Canônico e a outros mais (Evangelii nuntiandi e obras de Santo Ambrósio).

O conceito legal para Sínodo Diocesano é dado pelo cânone 460 do Código de Direito Canônico: "é uma assembléia de sacerdotes e de outros fiéis da Igreja particular escolhidos, que auxiliam o Bispo diocesano para o bem de toda a comunidade diocesana".

Posteriormente ao Código de Direito Canônico, a Congregação para os Bispos e a Congregação para a Evangelização dos Povos lançaram, em conjunto, um documento extenso e detalhado denominado "Instrução sobre os Sínodos Diocesanos".

O Sínodo Diocesano é convocado e presidido pelo Bispo diocesano. O Bispo não está obrigado a convocá-lo periodicamente. A seu juízo e ouvido o conselho presbiteral, convocará o sínodo se as circunstâncias o aconselharem. E essas circunstâncias de que fala o canône 461, § 1º, do Código de Direito Canônico vêm exemplificadas no Capítulo III - Convocação e Preparação do Sínodo, letra A - Convocação, nº 1, na "Instrução sobre os Sínodos Diocesanos", como se lê:

"Tais circunstâncias podem ser de várias naturezas: a falta de uma adequada pastoral de conjunto, a necessidade de aplicar a nível local as orientações superiores, a existência, no âmbito diocesano, de problemas que requerem soluções, a necessidade de uma comunhão eclesial mais intensa e operosa, etc. As informações obtidas nas visitas pastorais têm especial importância para discernir sobre a conveniência da convocação do sínodo: elas, de fato, mais do que qualquer levantamento de dados, ajudarão o Bispo a perceber as necessidades dos fiéis e os endereços pastorais mais adaptados para satisfazê-las."

O fato de só o Bispo diocesano poder convocar o sínodo destaca o caráter pessoal do governo ordinário da Diocese (cânone 462).

Como bem lembra o canonista e professor Gianfranco Ghirlanda, sacerdote jesuísta, é, entre outras, obrigação do Bispo diocesano "assegurar a liberdade de discussão durante a assembléia sinodal (c. 465; ICA IV.4)" e "excluir da discussão sinodal teses ou posições discordantes da perene doutrina da Igreja ou do magistério pontifício ou referentes a matérias disciplinares reservadas à suprema ou outra autoridade eclesiástica (ICA IV.4)". [1]


[1] O Direito na Igreja: Mistério de Comunhão: Compêndio de Direito Eclesial, tradução de Edwino Aloysius Boyer, Roque Frangiotti e Adauri Fiorotti, Aparecida, Editora Santuário, 2003, pp. 631-2.


Fonte da imagem:
http://www.diocesedemogi.org.br/pastoral/sinodo/estatuto.htm


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Código de Direito Canônico: 25º aniversário

O atual Código de Direito Canônico (Codex Iuris Canonici) está completando no próximo dia 25 de janeiro, sexta-feira, seu 25º aniversário. O Código foi promulgado no dia 25 de janeiro de 1983 pelo Papa João Paulo II mediante a Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges.

O Código vigente, que substitui o anterior, promulgado em 1917, deita raízes no Concílio Vaticano II (1962-1965). Foi o Papa João XXIII o idealizador da reforma do velho Código de Direito Canônico (1917). Reforma essa anunciada no dia 25 de janeiro de 1959, simultaneamente com o anúncio do Sínodo Romano e do Concílio Ecumênico. Em 1963, João XXIII anuncia a criação da Comissão para a revisão do Código, cujos trabalhos deveriam se inciar depois do Concílio Vaticano II. Em 1964, o Papa Paulo VI, que sucedeu João XXIII, nomeia 70 consultores. A primeira sessão dos consultores começa em 1965 e, depois de um longo período de trabalho, se conclui com a promulgação do novo e atual Código de Direito Canônico, mediante a já mencionada Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges do Sumo Pontífice João Paulo II sobre a Promulgação do Código de Direito Canônico, de 25 de janeiro de 1983.

João Paulo II, na Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges, recorda: "Volvendo, hoje, o pensamento para o início dessa caminhada, isto é, para 25 de janeiro de 1959, e, ao mesmo tempo, para o próprio João XXIII, o iniciador da revisão do Código, devemos confessar que este Código surgiu com propósito único de restaurar a vida cristã".

"Os Cânones deste Código referem-se unicamente à Igreja latina", assim dispõe o cânone 1. Em outras palavras, o Código de Direito Canônico aplica-se somente à Igreja de rito latino, e não à Igreja de rito oriental. Sobre Igreja de rito latino e Igreja de rito oriental, leia aqui.


Leia mais:




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http://www.planetanews.com/produto/L/126191/codigo-de-direito-canonico-cnbb.html

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Diretório da Liturgia - 2008

Como faz todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB já colocou à disposição de todos o livro "Diretório da Liturgia e da organização da igreja no Brasil - 2008 - Ano A - São Mateus".

Em brochura e com 42o páginas, o livro está dividido em duas partes. A primeira cuida da Liturgia da Igreja no Brasil (páginas 11 a 212). Na segunda, da Organização da Igreja no Brasil (páginas 213 a 420).

Trata-se de valioso instrumento diário de trabalho, sobremodo para a liturgia. Nele estão as "prescrições e orientações oficiais para as celebrações litúrgicas ao longo do ano de 2008", como se lê na Apresentação feita por Dom Dimas Lara Barbosa, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro e Secretário-Geral da CNBB (páginas 7 e 8).

O Diretório da Liturgia é editado pelo CPP - Centro de Pastoral Popular e pelas Edições CNBB.


Fonte da imagem: http://www.cpp.com.br/novo_site/default.asp