sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Bakhita: mística mensageira da esperança

Josefina Bakhita, em italiano Giuseppina Bakhita, nasceu em 1869, em Olgossa, aldeia da região de Darfur, no Sudão, e morreu na Itália, onde vivia, no Convento das Filhas da Caridade Canossianas, em Schio (na província de Vicenza), em 8 de fevereiro de 1947.

A família de Bakhita já conhecia o sofrimento da perda. Sua irmã fora raptada por traficantes de escravos negros que apareceram em Olgossa. Sua mãe sofreu e chorou muito. Toda a família chorou a perda.

Algo ainda ia trazer mais sofrimento.

Certo dia, quando tinha cerca de nove anos, Bakhita e uma colega mais velha estavam passeando no campo. Delas se aproximaram repentinamente dois estrangeiros. Um deles disse à colega que deixasse a menina pequena (Bakhita) ir colher algumas frutas para ele no bosque, e que logo se encontrariam mais adiante. E assim aconteceu: a colega continuou o seu caminho. Bakhita já estava no bosque quando percebeu que os estrangeiros a seguiam, momento em que um deles agarrou a menina com força brutal e o outro sacou uma faca ameaçando-a de morte se gritasse, e foi obrigada a segui-los.

Esses estrangeiros eram traficantes de escravos negros.

Bakhita não é o nome que seus pais lhe deram, mas sim o nome dado a ela por seus traficantes. Bakhita no dialeto local significa "afortunada", "bem-aventurada". Nome significativo, de cunho profético, para o futuro da menina raptada. Josefina é seu nome de batismo, que se realizaria anos depois, na Itália, como adiante veremos.

Nos mercados de escravos das cidades de El Obeid e Cartum (capital), ambas no Sudão, foi vendida cinco vezes.

Seu quarto dono a maltratou muitíssimo, quando teria por essa época uns treze anos. Foi quem mais a humilhou e a fez sofrer. Disso, lhe resultaram mais de cem cicatrizes que marcaram seu corpo para sempre. E, para evitar infecções e durante aproximadamente um mês, sal era colocado sobre as incisões. Tamanho era o sofrimento que Bakhita chegava a pensar que não ia agüentar e morrer.

Finalmente, em Cartum, capital do Sudão, foi comprada, em 1882, por um comerciante italiano para o senhor Calixto Legnani, cônsul italiano, residente na cidade, que pretendia restituir-lhe a liberdade. Em vezes anteriores, o cônsul já havia feito o mesmo caminho: crianças escravas compradas para ele e por ele restituídas às suas famílias. No entanto, não foi possível fazer o mesmo com Bakhita, por causa da grande distância entre o lugar de origem e a capital e do vazio de memória da adolescente quanto ao nome do vilarejo onde morava e dos nomes dos próprios familiares.

O senhor Legnani foi o seu quinto dono. Mas um dono diferente: Bakhita era tratada como um ser humano. Os donos anteriores se consideravam proprietários de algo que podia ser objeto de compra e venda.

Na casa do cônsul, Bakhita não era, pois, tratada como escrava. Ganhou a paz e a serenidade, não obstante amargurasse a saudade da família, talvez ficada para trás para sempre.

Em 1884, o cônsul, ante a insurreição mahdista, foi obrigado a deixar Cartum. A pedido de Bakhita, ela acompanhou o cônsul e o seu amigo Augusto Michieli, com destino à Itália.

Chegados à Itália, em Veneza, a esposa do senhor Augusto Michieli, que os esperava, quis ficar com um dos escravos que traziam, insistindo em ficar com Bakhita. Pressionado, o senhor Calixto Legnani concordou.

Bakhita passou a morar com a família Michieli, em Zeniago (em Mirano, na província de Veneza). Quando nasceu Mimina, filha do casal Michieli, Bakhita fez o papel de babá, e se tornou também uma amiga. Em 1888, por razões econômicas (compra de um hotel em Suakin, no Sudão), a família Michieli deixou a Itália para administrar o hotel.

A conselho do senhor Iluminado Checchini, administrador do casal, a criança Mimina e Bakhita permaneceram na Itália e foram confiadas às Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza.

Bakhita ficou hospedada gratuitamente e começou receber os primeiros ensinamentos religiosos. Quando a senhora Maria Turina, esposa do senhor Michieli, voltou da África, para retomar a filha e Bakhita, esta, com coragem e determinação, manifestou o desejo de continuar na Itália com as irmãs Canossianas. Bakhita pôde fazer prevalecer a sua vontade, porque na Itália não são reconhecidas as leis de escravatura. No dia 29 de novembro de 1889 Bakhita foi declarada oficialmente livre.

No dia 9 de janeiro de 1890, Bakhita recebe os sacramentos da iniciação cristã, com o nome de Giuseppina Margherita Fortunata. No dia 7 de dezembro de 1893, ingressou no noviciado do Instituto de Santa Madalena de Canossa, e em 8 de dezembro de 1896 pronunciou os primeiros votos religiosos.

Bakhita foi transferida, em 1902, para o Convento da mesma Ordem em Schio, na província de Vicenza, onde permaneceu até o seu falecimento. Bakhita fazia trabalhos de limpeza, cozinhava e cuidava dos serviços da sacristia. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), prestou ajuda em serviços de enfermaria, quando parte do Convento serviu de hospital militar.

Bakhita passou, a partir de 1922, a encarregada da portaria. Neste ofício, começou a manter contato com a população local, que passou a gostar e amar esta freira negra, por causa do seu modo de tratar as pessoas. Bakhita era gentil, atenciosa, serena e sempre alegre. Passou a ser conhecida carinhosamente como Madre Moretta.

O carisma e a santidade de Bakhita propagadas pelo povo passaram a ser notados pelas superioras do Convento. Houve interesse em conhecer detalhes da vida da "Irmã Morena". Bakhita, que só falava o dialeto veneziano, teve uma autobiografia escrita em 1910, em italiano, com detalhes contados à Irmã Teresa Fabris.

Bakhita esteve em Veneza contando a história da sua vida.

Com a publicação de suas memórias, Bakhita ficou conhecida, e começou, então, a viajar por toda a Itália participando de conferências, dando seu testemunho de vida. Sua presença era o bastante, pois, falando somente o dialeto veneziano, poucas palavras dizia ao final dos encontros, mas plenamente suficientes. A presença da tímida Bakhita era o bastante para encantar as pessoas.

Desde 1939, começou a sentir problemas de saúde, não se ausentando mais do Convento em Schio.

Bakhita veio a falecer no dia 8 de fevereiro de 1947, depois de uma longa e dolorosa doença. Muitas pessoas acorreram para dar um último adeus, expressando a gratidão e a veneração à carinhosa Irmã Morena.

No dialeto veneziano, Bakhita se referia a Deus com muito carinho, chamando-O de "el me Paron". Deus era o novo "Patrão" que Bakhita buscava. Veio encontrá-lo e experimentá-lo ao ingressar na Família Canossiana. E, a partir daí, nunca se separou do seu bom "Paron".

As investigações sobre a santidade de Bakhita começaram em 1959 pela Diocese local, doze anos depois da sua morte. Em 1º de dezembro de 1978 foi declarada Venerável. Em 17 de maio de 1992, foi beatificada pelo Papa João Paulo II.

Dez dias depois de declarada "bem-aventurada" (beatificada), acontece, na Diocese de Santos (Estado de São Paulo - Brasil), o milagre necessário para levar a Beata Bakhita à sua canonização. Leia mais aqui, no artigo do Pe. Caetano Rizzi.


A Igreja celebra a memória da Santa Josefina Bakhita no dia 8 de fevereiro.


Leia mais:




Fonte da primeira e da segunda imagens:
http://br.geocities.com/faby_black/bakhita.html


Fonte da terceira imagem:
http://www.combonianos.com/MNDigital/revista/junio/darfur.html


2 comentários:

Cicero disse...

Ola gostei de seu blog...seou um religioso canossiano...muitas pessoas seguirão o exemplo de Madalena de Canossa, través de Bakhita, como muitos outros irmãos que transmitaram o amor de Deus...

Gustavo disse...

Belíssimo post!

Não conhecia a história de Santa Bakhita. Nossa, quanto sofrimento! É um exemplo de força, superação e resistência para todos, crentes e não-crentes. Daria um belo filme!

E é emocionante saber que ela conseguiu superar toda a dor e seguir adiante. Com certeza, ela vivia mergulhada na convicção de que o amor de Deus (apresentado por Jesus na "Parábola do Pai Misericordioso" ou "Parábola do Filho Pródigo"), invencível e inescapável, resgata, redime, contém, engloba, condensa e salva tudo no final. Realmente, o Cristianismo não significa tristeza ou fechamento, muito pelo contrário!

Parabéns pelo blog! Siga em frente, sempre para o alto e avante!