domingo, 23 de setembro de 2007

Septuaginta: Escrituras Hebraicas em grego coiné


A tradução da Torá (= Pentateuco) para a língua grega, no dialeto coiné, ficou conhecida pela palavra latina Septuaginta, que significa Setenta, ou, em algarismo romano, LXX. Por extensão, Septuaginta é, em seu conjunto, uma coleção de todos os livros das Escrituras Hebraicas (= Antiga Aliança) traduzidos do hebraico para o grego.

A tradução foi feita em Alexandria, onde vivia forte comunidade hebraica, entre meados do século III e século I antes de Cristo e objetivava ao desejo dos judeus de fala grega, que viviam na diáspora egípcia, de ler e entender as Escrituras Sagradas no grego do dia-a-dia, que era o dialeto coiné.

Coiné (koiné) era a língua comum, popular, falada no período do helenismo, cultura esta propagada em razão das conquistas de Alexandre, o Grande, e que acabaram influenciando na divulgação da cultura grega na região mediterrânea.

A versão da Torá, da língua hebraica para a grega, apareceu, em Alexandria, pela metade do século III antes de Cristo. Foi a primeira tradução, e as demais traduções dos outros livros das Escrituras Hebraicas vieram depois, em espaço de tempo mais longo, encerrando-se no I século antes de Cristo.

Segundo diz a Carta de Aristeas a Filócrates, ou Carta de Aristéias a Filócrates (meados do II século antes de Cristo), a tradução esteve a cargo de anciãos, expertos na Lei (Torá), sendo seis de cada tribo de Israel, perfazendo o total de setenta e dois tradutores (6 x 12). E mais: a tradução foi concluída ao cabo de setenta e dois dias.

A isso se juntou posteriormente a lenda de que aqueles anciãos trabalharam separada e independentemente, e que, ao final dos setenta e dois dias, compararam seus trabalhos: as setenta e duas traduções gregas coincidiram perfeitamente palavra por palavra. Essa lenda queria ensinar que as traduções (gregas) haviam sido realizadas sob a inspiração divina (Deus) e que nelas devia se reconhecer a mesma autoridade das Escrituras originais hebraicas.

Setenta é um número simbólico. No contexto bíblico = todos os povos. Nesse sentido, a tradução grega do Antiga Aliança "é indicada como a abertura da fé de Israel para os povos". [1]

Em homenagem aos setenta e dois anciãos, essa tradução da Lei, do hebraico para o grego, passou a chamar-se Versão dos Septuaginta, ou simplesmente Septuaginta (Setenta), ou ainda, em algarismo romano, LXX.

Diga-se ainda que a Carta de Aristéia a Filócrates é uma apologia da referida versão grega.

As Escrituras Hebraicas traduzidas para o grego acolheram a palavra leitourgía (liturgia) para indicar o serviço de culto ao Deus de Israel (Javé) confiado a tribo de Levi (levitas). Na primeira fase, realizado no deserto (tenda) e, depois, no Templo em Jerusalém.

A palavra leitourgía assume, então, um sentido restrito, técnico, para designar o culto público e oficial realizado pelos sacerdotes e levitas no Templo. Em contrapartida, a mesma Septuaginta usou as palavras também gregas latreía (latria) e douleía (dulia) para o culto privado.


[1] cf. Joseph Ratzinger - Bento XVI, Jesus de Nazaré, tradução de José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ, São Paulo, Editora Planeta do Brasil Ltda., 2007, pp. 161-162.

Leia também:


Fonte da primeira imagem:
http://www.freewebs.com/camiloezagui/tora.jpg

Fonte da segunda imagem:
http://torah.foroportal.es/viewtopic.php?t=9


sábado, 15 de setembro de 2007

O termo Liturgia: sua origem


A palavra liturgia, que se tornou familiar depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), pertence à língua grega clássica. Os dois termos gregos: leitos (= público) e érgein (= fazer) dão origem à leitourgia (leit-o-erg-ia). Por sua vez, leitos é originário de léos, forma dialetal de laós (= povo). Érgein, também por sua vez, é um verbo fora de uso, porém que sobrevive no futuro érxoi e no substantivo érgon (= trabalho, serviço, obra).

Assim visto, liturgia se caracteriza por dois elementos: público (não privado) e fazer (ação).

Literalmente, liturgia significa serviço prestado ao povo, fundamentalmente sem objetivos particulares.

Na antiga Grécia, ou mais especificamente em Atenas, era o serviço feito por alguém de posses, de condição social elevada, a favor do povo. Algo destinado ao público (= povo, coletividade). Esse alguém o fazia espontaneamente, com liberdade, ou se sentindo no dever, como que obrigado a fazê-lo em razão da posição econômica ou social que ocupava na sociedade.

Mais tarde, ou mais precisamente na época helenista (helenismo), quer por leis, quer pelo uso ou pelo costume, o serviço passa a ser obrigatório por parte do cidadãos de posses, abastados, em favor do povo, da coletividade.

Eram tipos de liturgia, por exemplo, a realização de obras, como hospedaria para acolher forasteiros, construção de pontes, estradas; prestação de serviços, como a apresentação de coro no teatro; outros, como armamento de navios, promoção de jogos olímpicos, festas nacionais. E assim por diante.


Ainda mais tarde, sobretudo no Egito (fazia parte do mundo helênico), onde estava a cidade de Alexandria, por liturgia já se entendia qualquer prestação pública de serviço. E partir do século II antes de Cristo, na medida em que a religião tinha caráter preponderantemente público, a palavra liturgia, por extensão desse sentido, entra para o mundo religioso pagão para significar o serviço de culto (serviço cultual) prestado aos deuses por pessoas para tal fim designadas.

Estava preparado o caminho para ingresso do termo liturgia nas Escrituras Hebraicas, o que veremos n'outra oportunidade.


Fonte da primeira imagem:
http://www.nomismatike.hpg.ig.com.br/Grecia/ArquteturaGrega.html

Fonte da segunda imagem:
http://www.descobriregipto.com/biblioteca-antiga-alexandria.html

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Guia Litúrgico-Pastoral

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publicou o livro intitulado "Guia Litúrgico-Pastoral", para que, como diz Dom Manoel João Francisco, Bispo de Chapecó e então Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, "seja um ótimo meio para conhecer, viver e celebrar bem a liturgia". O livro já está em segunda edição.

O Guia tem como destinatários primeiros as equipes de liturgia. Não se trata de um livro que cuida apenas da celebração da Eucaristia. Compreende, na primeira edição, o ano litúrgico, celebrações da palavra, do matrimônio, das bênçãos e das exéquias, canto e música, espaço celebrativo e a pastoral litúrgica (aqui entra a formação litúrgica). E a segunda edição aparece, conforme informações da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, com "pequenas alterações no texto, e acrescentou um capítulo sobre Celebrações Ecumênicas (XI). No Capítulo sobre a Música Litúrgica (VII) acrescentou um item sobre a Dança Litúrgica. E no Capítulo sobre a Eucaristia (II), incluiu um pequeno roteiro de Adoração do Santíssimo e orientações sobre a missa na celebração da Confirmação".

É abrangente e, por assim ser, o livro interessa a todos os católicos.


Fonte da imagem: www.cnbb.org.br

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Madre Teresa de Calcutá: experiência da "noite escura"

Diários e cartas pessoais de Madre Teresa de Calcutá, inéditos, foram objeto do livro Mother Teresa: Come Be My Light (Madre Teresa: Venha Ser Minha Luz), de autoria do padre Brian Kolodiejchuk, missionário da Caridade. Padre Kolodiejchuk é o postulador da causa de canonização de Madre Teresa.

A novidade é a experiência da ausência de Deus: a "noite escura" a que se refere São João da Cruz, o grande místico espanhol.

O padre Brian Kolodiejchuk deu extensa entrevista à Agência Zenit, publicadas sob o título "Teresa de Calcutá: Luz desde a Escuridão", em duas partes. A primeira parte foi publicada no dia 06.09.2007, e a segunda no dia 07.09.2007, convindo serem lidas.

Vale anotar: "Sem o sofrimento, o trabalho da madre Teresa de Calcutá teria sido simplesmente trabalho social e não obra de Jesus Cristo, explica o postulador de sua causa de canonização, citando a própria beata" (Agência Zenit, 07-09-2007).

Leia também:



Fonte da imagem: www.randomhouse.com/doubleday

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Vaticano: uma visão japonesa

Sob o título "Vaticano visto de uma perspectiva japonesa", a Agência Zenit publica entrevista feita com o embaixador japonês Kagefumi Ueno.

A entrevista é interessante. Kagefumi Ueno é embaixador acreditado junto à Sé Apostólica, também chamada Santa Sé, desde novembro último.

Na visão do embaixador, a Santa Sé tem quatro sinais distintivos:

1º) um valor ou autoridade moral;

2º) instituição internacional, como as Nações Unidas;

3º) rede global; e

4º) poder de comunicação.

A autoridade moral lhe advém do desapego dos interesses seculares. Como instituição internacional, o Papa, para o embaixador, é como se fosse um secretário-geral da ONU. Como rede global, a Igreja está arraigada em todos os continentes, com centro operacional no Vaticano.

O poder de comunicação se manifesta por intermédio do periódico "L'Osservatore Romano" e outros meios de comunicação pelos quais a mensagem da Igreja alcança cada canto do mundo.

O embaixador comenta ainda os valores absolutos do cristianismo ante os valores relativos da cultura japonesa, o que pode explicar a baixa proporção de cristãos no Japão.

A entrevista merece ser lida, por inteiro, aqui.


Fonte da primeira imagem: www.vatican.va

Fonte da segunda imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jap%C3%A3o

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Igreja na Inglaterra e Gales: "Onde estão eles agora?"

A Igreja Católica na Inglaterra e Gales promove mais uma forte e efetiva ação evangelizadora: sensibilizar os católicos afastados do engajamento oficial na Igreja, para que a ela retornem. Um dia foram batizados ou até freqüentaram os ofícios litúrgicos, mas deixaram de comparecer. São os chamados católicos não praticantes e que compreendem dois terços da população católica na Inglaterra e Gales.

Na prática: cada católico praticante se envolve tomando consciência do papel evangelizador, para convidar os afastados à vida eclesial, começando pelos próprios familiares e amigos.

A iniciativa é da Agência Católica para Apoio à Evangelização (Catholic Agency to Support Evangelisation, CASE), cujo projeto é intitulado: "Where are they now?", ou seja, "Onde estão eles agora?".

A Catholic Agency to Support Evangelisation - CASE é um organismo (agência) da Conferência Episcopal Católica da Inglaterra e Gales. E seu projeto tem o apoio do cardeal Cormac Murphy-O'Connor, arcebispo de Westminster, e de outros bispos ingleses.

Anteriormente, a Igreja Católica na Inglaterra e Gales já havia promovido uma campanha de evangelização de incentivo às vocações religiosas. Leia aqui.


Fonte da primeira imagem: www.caseresources.org

Fonte da segunda imagem: www.catholic-ew.org.uk

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Dez anos sem Madre Teresa de Calcutá


Dia 5, quarta-feira, completam-se dez anos da morte de Madre Teresa de Calcutá.

Por sua extensa obra de caridade, simplicidade de vida e firme vigor na defesa da vida, Madre Teresa de Calcutá era tida como santa, já em vida. A santa de nossos dias.

A beatificação de Madre Teresa foi realizada pelo Papa João Paulo II no dia 19 de outubro de 2003. Leia aqui a homilia pronunciada pelo Papa durante o solene rito de beatificação.


Fonte da imagem: http://www.portalanjo.com/cruz/tereza.htm

O argumento "slippery slope" e a eutanásia


A expressão inglesa "slippery slope", que, em português, significa "ladeira escorregadia", é o argumento utilizado em defesa da vida, contra a eutanásia, pois.

O princípio tem aplicação sobremodo na Bioética.

Por exemplo, uma vez admitida a eutanásia, aberta fica a porta para maiores concessões. Como popularmente se diz: onde passa um boi, passa uma boiada.

Para o médico Renzo Puccetti, especialista em Medicina Interna e secretário do Comitê "Ciência e Vida" de Pisa-Livorno (Itália): "É um fato: nos países onde é legal, a eutanásia é praticada em maior medida", conforme denúncia noticiada pela Agência Zenit, sob o título O "Slippery Slope" da Eutanásia.

Leia mais aqui.


Fonte da imagem:
http://www.concurringopinions.com/archives/2005/12/are_subway_sear_1.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Gregório Magno: modelo a ser seguido

A Igreja Católica Romana celebra a memória de São Gregório Magno, papa e doutor da Igreja, nesta segunda-feira, dia 3/9.

Oriundo de família nobre e rica, Gregório nasceu em Roma no ano 540. A família tinha tradição política, como era costume da aristocracia. Giordano, seu pai, fora senador. Silvia, sua mãe, depois de enviuvar, ingressou na vida monástica. Conta-se que suas três irmãs viviam como monjas, provavelmente na própria casa paterna.

O próprio Gregório chegou a ser prefeito de Roma.

E ainda: o papa Félix III (483-492) fora um antepassado de Gregório.

Tempos depois de completar trinta anos, retira-se para a vida ascética, vivendo num mosteiro por ele construído em seu palácio, na colina Célio, em Roma. Antes distribuíra seus bens aos pobres e fundara seis mosteiros em suas propriedades localizadas na Sicília.

Na época de Gregório, o monaquismo era, antes de tudo, um modo de vida, e não uma estrutura organizada de vida monástica. Os monges eram, pois, leigos.

Mas, a vida monástica de Gregório não durou muito. O papa Bento I (574-578) convidou-o a seguir a carreira eclesiástica, ordenando-o diácono. O sucessor de Bento I, o papa Pelágio II (579-590), enviou-o como núncio à corte de Constantinopla, entre os anos 579 e 585, ao tempo em que Tibério II (578-582) e Maurício I (582-602) eram imperadores do Império Bizantino, também chamado Império Romano do Oriente.

Terminada a sua missão de núncio, Gregório volta a Roma e retoma a sua vida de monge.

Em 7 de fevereiro 590, o papa Pelágio II falece, vítima da peste que assolava Roma. E Gregório, pelo forte e uníssono clamor popular, é chamado, apesar de suas resistências, a assumir a cátedra de São Pedro. Aclamado papa, recebeu a ordenação episcopal a 3 de setembro de 590, iniciando seu pontificado com o nome de Gregório, mais tarde Magno (título que o povo lhe deu). Daí, Gregório Magno.

O papa Gregório Magno foi um organizador da beneficência da Igreja para socorrer os famintos e os flagelados dos sucessivos surtos de peste que se expandiam por toda a península.

Apesar de ter uma saúde frágil, foi um papa que enfrentou os problemas da sua época, num momento em que a Igreja parecia ser a única entidade organizada num mundo ocidental em ruína.

No plano diplomático manteve relações com o imperador de Bizâncio. No âmbito eclesiástico tornou mais forte o controle sobre as várias Igrejas, procurando eliminar os contrastes. Expandiu a cristianismo na Inglaterra.

Escreveu várias obras, entre elas, Tratados morais sobre Jó (escrita ao tempo em que Gregório era núncio), Homilias sobre os Evangelhos (pronunciadas entre 590 e 591), Diálogos, Homilias sobre Ezequiel, Comentário sobre o primeiro livro dos Reis, Comentário ao Cântico dos Cânticos e Regra Pastoral.

Foi um papa cônscio da importância da liturgia, e sob seu nome surgiram dois textos célebres: Sacramentário gregoriano (ou seja, um missal) e Antifonário para a missa (compilação de cantos corais), base para o futuro canto gregoriano.

Gregório Magno faleceu no dia 12 de março de 604. Logo depois de sua morte circularam biografias do Papa, por sua fama de santidade. E foi considerado um dos quatro grandes doutores da Igreja latina. É considerado Padre da Igreja.


Fonte da imagem:
www.puc-rio.br/campus/servicos/pastoral/santo_setembro.html


Instrução Geral sobre o Missal Romano

A Editora Paulinas lançou, no Brasil, a Instrução Geral sobre o Missal Romano, terceira edição, comentada pelo padre José Aldazábal Larrañaga, professor na Faculdade de Teologia da Catalunha e presidente do Centro de Pastoral Litúrgica de Barcelona e dirigente das revistas Phase e Misa Dominical. Título original Ordenación general del Misal Romano, traduzido para o português (Brasil) por Antonio Francisco Lelo.

A Instrução Geral sobre o Missal Romano, também conhecida abreviadamente pela sigla IGMR, tem por fim apresentar o livro (Missal), seus princípios e normas. Coloca-se, por isso, no início do Missal Romano.

O livro ora publicado traz uma tabela de correspondência entre o IGMR (1975) e IGMR (2002), respectivamente 2ª e 3ª edições típicas. Como tantos outros livros litúrgicos, por exemplo o Cerimonial dos Bispos, ainda fazem referência a números da IGMR-2ª edição (1975), a tabela de correspondência torna-se de muita utilidade para localização dos números correspondentes na nova IGMR-3ª edição. E ajuda muito no estudo comparativo.

No Brasil, está em vigor a 2ª edição típica do Missal Romano, de aplicação obrigatória desde 11 de abril de 1993. No entanto, já está sendo preparada a 3ª edição típica do Missal Romano para aplicação no Brasil.


Fonte da imagem: www.paulinas.org.br

domingo, 26 de agosto de 2007

Modelos de santidade: Mônica e Agostinho

Falar de Santo Agostinho é falar de Mônica, sua mãe. E, inicialmente, dela falaremos.

Mônica era uma mulher cristã.

Modelo de virtudes cristãs, a Igreja Católica Romana celebra amanhã (segunda-feira), dia 27/8, a memória de Santa Mônica.

De família de classe média e de formação cristã, Mônica nasceu no ano 331, em Tagaste, na Numídia (hoje Song-Ahras, na Argélia), então província do império romano, ao norte da África, e faleceu em Óstia, Roma, no ano 387, quando retornava com o seu filho Agostinho para a África.

Era casada com Patrício, homem pagão de Tagaste.

Sabe-se que o casal teve três filhos: dois homens (Navígio e Agostinho) e uma mulher (Perpétua).

Por ser Mônica uma mulher determinada e de assídua oração, conseguiu com que Patrício se preparasse para o batismo, vindo este a morrer, depois de ter sido batizado, no ano 371. Por essa época, Agostinho estava com 16 anos.

Mônica, repita-se, era uma mulher de oração. E, mais uma vez, por sua constante oração, alcançou a graça da conversão do seu filho Agostinho, como veremos mais adiante.

Agostinho, filho de Santa Mônica, bispo e doutor da Igreja, cuja memória a Igreja celebra na próxima terça-feira, dia 28/8, é também modelo de virtudes cristãs.

Aurélio Augustinho, mais conhecido por Santo Agostinho, ou Agostinho de Hipona, nasceu em Tagaste no dia 13 de novembro de 354 e morreu aos quase 76 anos de idade, no dia 28 de agosto de 430, em Hipona, também cidade da província romana de Numídia (atual Aunaba, na Argélia).

O cristianismo deve à Santa Mônica ter Santo Agostinho entre os grandes seguidores do Cristo. Convertido a Cristo aos 32 anos (ano 386), Agostinho recebeu o sacramento do batismo das mãos de Santo Ambrósio, bispo de Milão, na Vigília Pascal da Primavera de 387.

Agostinho foi professor, filósofo, teólogo, catequista. Ordenado presbítero em 391. E eleito bispo para a diocese de Hipona em 396. Enfim, um grande pensador e escritor. Um homem apaixonado pela busca da verdade, contemplativo, defensor da fé que abraçou e promotor da vida comunitária. É autor de inúmeras obras, como Confissões, A Cidade de Deus, A Trindade, A Graça, A Doutrina Cristã, Comentários aos Salmos, A Virgem Maria, Diálogo sobre a Felicidade, além de uma regra monástica. "Seus escritos permanecem monumento de extra ordinária sabedoria e o qualificam como o maior entre os Padres e doutores da Igreja Latina", como reza o Missal Romano.

É de Santo Agostinho esta invocação: "[Senhor] fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti". [1]


[1] Confissões, tradução de Maria Luíza Jardim Amarante, da Coleção Clássicos de Bolso, São Paulo, Editora Paulus, 2ª edição, 2003, p. 19, n. 1.


Fonte da primeira imagem:
http://www.agustinosrecoletos.org/nosotros_sanAgustin_pt/sanAgustin_05.php

Fonte da segunda imagem:
http://br.geocities.com/worth_2001/Patristica.html

sábado, 25 de agosto de 2007

Documento de Aparecida: CNBB confirma validade

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB vai adotar a versão modificada do documento da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe - V Celam, realizada na cidade de Aparecida (Brasil), entre os dias 13 e 31 de maio passado, conforme noticiou ontem a Rádio Vaticano.

Conhecido como Documento de Aparecida, a sua versão entregue ao Papa contém duzentas alterações em relação ao texto original, segundo a mesma Rádio. Para a CNBB, o que vale, no entanto, "é o texto assinado por Bento XVI".

Dessas coisas todas, exsurge é que Bento XVI, sem culpa, acabou por convalidar o Documento de Aparecida como lhe foi apresentado.

O Documento está maculado. Por sofrer alterações à revelia dos demais bispos da Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe - e, no caso, nada menos do que duzentas alterações (o que não é pouco) -, perde representatividade e, como conseqüência, credibilidade e aceitabilidade.

Entretanto, mesmo após "o texto assinado por Bento XVI", constatado o erro, como o foi, - e amplamente divulgado pela imprensa, inclusive pela Rádio Vaticano e Agência Zenit -, compete à Igreja, pelas vias pastorais ou canônicas, tomar as providências para retificação sem delongas, e não, ao contrário, 'botar panos quentes', para eternizar algo que desgasta a sua própria imagem. Aqui até cabe o provérbio latino, ora em português, "errar é humano, perseverar no erro é diabólico".

O restabelecimento do texto original é exigência, antes de tudo, de respeito à assembléia dos bispos, de reclamação ética e de busca da verdade.

Leia também:

V Celam: Documento de Aparecida sob suspeita de adulteração
Documento de Aparecida: cardeal admite alteração
Documento de Aparecida: versão resumida


Fonte da primeira imagem: www.cnbb.org.br

Fonte da segunda imagem: www.arquidiocesedeuberaba.org.br


segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Documento de Aparecida: versão resumida

O jornal O Estado de São Paulo, na edição do dia 18 de agosto (sábado), noticiou que o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), órgão da CNBB, denunciou a adulteração do Documento de Aparecida há três semanas, em carta enviada a vários bispos que participaram da V Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe, realizada na cidade de Aparecida (Brasil).

O Sr. Carlos Signorelli, presidente do Conselho Nacional do Laicato e que, como convidado, participou da Conferência do Celam em Aparecida, vai lançar, em português, "uma versão resumida do documento que todos possam entender, mas respeitando o texto votado pelo plenário".

A posição do Sr. Signorelli em mandar editar uma versão em português, ainda que resumida mas fiel ao texto original do Documento de Aparecida, é louvável, pois colocará em mãos dos leigos do Brasil algo que, em linguagem fácil, ajudará, na prática, a sua aplicação.

Leia também:

domingo, 19 de agosto de 2007

Documento de Aparecida: cardeal admite alteração

O jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 18 de agosto de 2007 (sábado), traz a informação de que o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, que à época era o presidente do Celam, admitiu que o texto definitivo do Documento de Aparecida foi alterado antes de ser entregue ao Papa.

"O texto definitivo sofreu algumas modificações, mas são formulações que não têm a importância que lhes é atribuída agora, disse Errázuriz, acrescentando que se trata de mudanças "mínimas", que não alteraram o conteúdo" (O Estado de S. Paulo).

O que parece é que as ditas alterações foram feitas com o desconhecimento dos demais bispos participantes do Conferência de Aparecida - V Celam.

E disso se conclui das palavras de D. Odílio Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, que foi secretário-geral-adjunto da Conferência de Aparecida, ao afirmar: "é preciso verificar se quem fez isso tinha autoridade para fazer" (O Estado de S. Paulo).

Segundo noticia O Estado de S. Paulo, na mesma edição, o cardeal brasileiro Geraldo Majella Agnelo disse que: "A mesma coisa ocorreu na Conferência de Puebla, no México, em 1979, quando o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, atualmente presidente do Pontifício Conselho para a Família, mexeu no documento antes de ele ser enviado a Roma."

A verdade é a seguinte se já houveram precedentes, estes não justificam o que ocorreu no Documento de Aparecida, e até porque as alterações agora havidas ganharam publicidade. E o Documento de Aparecida não terá credibilidade se não for imediatamente restaurado o texto original.

Espera-se, pois, que haja o pronunciamento oficial da Igreja sinalizando sobre a apuração do caso, para que não passe como mais um precedente, como o ocorrido com o de Puebla acima noticiado, que, também somente agora, o grande público toma conhecimento.

Após pesquisas, levantamento de dados, consultas, debates e votações, não pode, com certeza, a Igreja hierárquica oferecer ao público um documento, afinal representativo da vontade de um ou dois participantes. Um tal documento assim carece de representatividade e, logo, de aceitabilidade e credibilidade.

O tema vem merecendo a atenção da Rádio Vaticano.

Leia também:


Crédito da foto: http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=17050

sábado, 18 de agosto de 2007

'Afastar-se da religião é avanço civilizatório'

A afirmação acima é de Richard Dawkins, professor na Universidade de Oxford (Inglaterra), em recente entrevista ao jornalista Herton Escobar, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 12/08/2007 (domingo), página A25.

A entrevista está atrelada ao lançamento, no Brasil, do livro "Deus, um Delírio", de autoria do entrevistado, a cargo da editora Cia. das Letras.

O tema não é novidade e inspira-me a fazer ligeiras considerações.

O filósofo Voltaire (1694-1778), expoente do Iluminismo, já pregara "o evangelho da razão".

E ainda filósofos como Ludwig Feuerbach (1804-1872), cuja opinião teve grande influência em Karl Marx (1818-1883), e Friederich Nietzsche (1844-1900), cujo pensamento foi objeto de tentativa de apropriação pela ideologia nazista, afastaram Deus e colocaram, em seu lugar, o homem, a razão, a ciência.

Nietzsche pregou "a morte de Deus".

O marxismo-ortodoxo, também conhecido por materialismo dialético ou marxismo-leninismo, foi a doutrina oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, após a Revolução de 1917. Na essência também negava Deus e prometia um paraíso de bens materiais.

A ideologia nazista não diferentemente negava Deus. Seu projeto era dominar culturalmente o mundo, como que "deletando" tudo que fosse contrário à essa doutrina e criando uma nova civilização.

O marxismo, como sistema de poder político, agonizou. E onde ainda não agonizou convive com outras idéias.

O nazismo, com a sua arrogância, é coisa do passado.

Aquilo que o professor Richard Dawkins quer passar para o público já foi experimentado na história recente, e até mesmo por força dos sistemas ideológicos de poder político. Dawkins não cria nada de novo, porque um certo distanciamento de Deus ou indiferença (tanto faz Ele existir ou não) - e até a sua negação - ou da religião (oficial) persistem no atual momento histórico da humanidade.

Efetivamente, para boa parte do mundo ocidental Deus (e, por extensão, Igreja e religião) não é um ser necessariamente relevante. No máximo, é um dado acidental, incapaz de interferir decisivamente.

Basta notar certos fatos: leis de aborto que foram aprovadas recentemente em países que se dizem cristãos, como México e Portugal; o desarmamento da sociedade que a nação brasileira não aprovou no referendo a que foi chamada a opinar. Isso é suficiente para demonstrar, na prática, que Deus não está no centro das decisões que as pessoas tomam (Ele é algo distante, indiferente ou negado).

Basta mais um exemplo recente.

O Continente Europeu é devedor da cultura cristã. Não obstante os esforços da Igreja, sobremodo na pessoa do Papa João Paulo II, os responsáveis pela redação ou aprovação da Constituição da União Européia não tiveram a necessária liberdade e altivez para inserir no texto o nome de Deus e uma referência ao cristianismo.

O capitalismo criou as periferias, criou o Terceiro Mundo.

Deus foi afastado. Ele é um estorvo ao "avanço civilizatório". Deus não está no centro dos grandes projetos dos homens de poder.

Na medida em que Deus não está em nada, o homem deixa de ser visto como pessoa, mas apenas como componente utilitário do sistema. Se útil, tudo bem. Do contrário, ele atrapalha o bem estar imediato e hedonista da sociedade. É bom matá-lo, porque Deus (ah, este!?) eles já o mataram.

O homem está hoje nessa encruzilhada. Um passado que vem do Iluminismo, passa pelas grandes sistemas ideológicos de poder (comunismo, nazismo, fascismo, fundamentalismo em suas acepções religiosa e racionalista), não conseguiu dar ao homem, dito liberto da tutela da religião (Kant), a felicidade prometida.

O pensamento e o livro do professor Richard Dawkins não têm cacife para tornar as coisas melhores ou piores. É chover no molhado. É apenas mais um dentre muitos que pregam a morte de Deus e que se colocam como adversos à intrínseca transcendência que permeia o homem em sua integridade.

É bem ao contrário, o homem de hoje, insatisfeito das coisas do mundo (sistematizá-las como "modernidade"), busca o sagrado, ainda que de forma difusa, mas o busca.


O homem quer, e precisa, de algo para além da ciência ou da razão.

Leia também:
Santidade
Recomeçar a partir de Cristo
Sou Católico - Vivo a minha Fé



Fonte da primeira imagem:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Dawkins
Fonte da segunda imagem:
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/e00012.htm

V Celam: Documento de Aparecida sob suspeita de adulteração

Notícias veículadas pelo jornal O Estado de São Paulo, edições de 15 e 16 de agosto, dão conta de que o Documento Final produzido pelo V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (V Celam), em Aparecida, sofreu alteração, à revelia dos bispos participantes.

O jornal revela que "As mudanças que adulteraram o Documento de Aparecida foram feitas pelo cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e pelo bispo argentino Andrés Stanovnik, respectivamente presidente e secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) na época".

Ao Papa teria sido entregue o documento adulterado e não o documento original.

O cardeal brasileiro Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil desabafa: "Eu pensei que estava levando o original", referindo-se à entrega do Documento feita ao Papa. Segundo o mesmo cardeal "as mudanças não foram de iniciativa de Roma".

A Igreja tem que apurar responsáveis pela adulteração e restaurar imediatamente o texto original. Se não o fizer, o Documento não terá credibilidade alguma. A isso se soma o desnecessário desgate (que já se constata) para a imagem da Igreja.


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domingo, 12 de agosto de 2007

Pai


O espaço é para os pais.

Nossos pais.

São José.

São Joaquim.


Imagem: detalhe de "A volta do filho pródigo" (1668), de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669).

sábado, 11 de agosto de 2007

Palavra Missa


Em latim se escreve missa, que nada mais é do que uma substantivação de missus, particípio passado do verbo mittere. Aquilo que era verbo no particípio passado passa a ser substantivo no gênero feminino.

Em português, missa. Como se escreve em latim.

O verbo mittere significa, em português, deixar ir, deixar partir. Em sentido figurado, significa mandar, enviar.

A palavra missa era usada para indicar a despedida ao fim de qualquer reunião religiosa.

Com o tempo, como se verá, o sentido do vocábulo missa se amplificou, de modo a compreender toda a celebração. Do pouco (despedida) passou a designar o muito (o culto todo).

A evolução para a aplicação da palavra missa com o objetivo de designar a celebração eucarística no conjunto todo remonta ao fim do século V e início do século VI.

Repetindo, é entre o fim do século V e o início do século VI que se torna costumeiro indicar com o termo missa a união da liturgia da palavra e da liturgia eucaristíca, que formam, com os ritos iniciais e os de encerramento, a celebração eucarística (missa).

A expressão Ite, Missa est (da antiga missa em latim), que uns traduzem como "ide, (as preces) foram enviadas" [1], mas que, em verdade, o então Cânon da Missa do Missal Quotidiano traduz por "Ide, a missa terminou", é hodiernamente considerada uma expressão dita "pastoral", no sentido de "missão confiada àqueles que participaram da eucaristia" [2]. Nessa linha, se situa o Catecismo da Igreja Católica, a "Santa Missa (...) termina com o envio dos fiéis ("missio") para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana" (n. 1332).

Anote-se que a palavra latina missio, empregada pelo Catecismo, é da família do verbo mittere (acima mencionado). Missio traz a idéia de despedida e de envio.

A expressão Ite, Missa est não deixa de ser parte do rito de despedida, com o qual se desfaz, se dissolve a assembléia. E o atual Missal Romano, em português, implantado a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), tem a seguinte versão: "Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe".

Não obstante alguns Padres da Igreja considerarem a pobreza do termo missa para expressar "aquilo que constitui o centro da vida cristã" (S. Gregório Magno e S. Cesário de Arles) [3], o Catecismo da Igreja Católica vê nessa palavra e em tantas outras que: "A riqueza inesgotável deste sacramento [da Eucaristia] exprime-se nos diversos nomes que lhe são dados. Cada uma destas expressões evoca alguns de seus aspectos" (n. 1328).

[1] Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Lexikon Editora Digital, 3ª edição, 2007, p. 524.
[2] cf. A. Nocent, história da celebração da eucaristia, in A Eucaristia teologia e história da celebração, de S. Marsili, A. Nocent, M. Augé, A.J. Chupungco, coleção Anámnesis 3, tradução de Benôni Lemos, São Paulo, Editora Paulus, 2ª edição, 1996, p. 206.
[3] cf. A. Nocent, Obra citada, p. 206.


Imagem: "Os discípulos de Emaús" (1601), de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). Fonte: www.nationalgallery.org.uk

sábado, 14 de julho de 2007

Pálio: insígnia litúrgica


Pálio é uma entre outras palavras do latim que fazem parte do patrimônio linguístico da religião católica. Vem de pallium, palavra com a qual se designava o "casaco retangular romano" (1).

O pálio, em forma de toldo (feito de tecido com franjas nas bordas), com quatro ou seis hastes, é geralmente usado na procissão de Corpus Christi (primeira imagem). Neste caso, o pálio simboliza a dignidade régia de Cristo. E o pálio, em forma de tira circular (colar), com duas faixas pendentes, uma sobre o peito e outra sobre as costas, é, originalmente, de uso do Papa, com seis cruzes. É deste que nos ocuparemos a partir de agora (segunda imagem).

Atualmente, o Papa concede o pálio somente aos arcebispos metropolitanos, designados simplesmente metropolitas (de metróple, cidade-padrão ou cidade principal de uma região), cujo pedido deve feito ao Papa como estabelecido pelo cânone n. 437 do Código de Direito Canônico (2). Por isso, denomina-se pálio arcebispal, com as seis cruzes bordadas em lã preta (para o pálio do Papa as seis cruzes podem ser pretas ou vermelhas). Faz sentido que o Papa use pálio distinto daqueles por ele conferidos aos arcebispos, como o fez recentemente Bento XVI: pálio mais comprido, com as seis cruzes em vermelho, e faixas pendentes com pontas de seda preta.

É o símbolo do poder dos arcebispos metropolitanos dentro da chamada província eclesiástica (agrupamento de dioceses vizinhas) e de comunhão com o Papa. É pessoal e intransferível. Se o Arcebispo mudar para outra sede metropolitana, necessitará de novo pálio, conforme rege o mesmo Código, em seu canône n. 437, parágrafo 3º.

O Papa concede também o pálio ao Patriarca Latino de Jerusalém.

O pálio só pode ser usado nas celebrações litúrgicas. O Papa pode usá-lo em qualquer parte do globo, em razão do poder de jurisdição universal que ele detém. O Arcebispo pode usá-lo em todas as igrejas da província eclesiástica por ele presidida, porém não fora do território da província.

O pálio é confeccionado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. É feito com lã branca de cordeiros, que são ofertados anualmente ao papa pelas jovens romanas, na festa de Santa Inês (21 de janeiro). Os pálios, em número correspondente aos novos arcebispos metropolitanos, são abençoados pelo Papa nas Primeiras Vésperas da Solenidade de São Pedro e São Paulo e são conservados em uma urna especial no Altar da Confissão da Basílica Vaticana (onde estão as relíquias do Apóstolo São Pedro). E, no dia seguinte, na celebração da solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (29/6), são impostos (entregues) aos arcebispos pelo Papa.

O simbolismo do pálio é significativo. Tecido com lã de cordeiro simboliza a ovelha perdida. Posto o pálio sobre os ombros simboliza o pastoreio, ação própria do pastor: carregar a ovelha frágil, doente.

No tocante ao simbolismo do pálio, é sugestivo reler a homilia de Sua Santidade Bento XVI, por ocasião da celebração da Santa Missa para início do Ministério Petrino do Bispo de Roma, em 24 de abril de 2005.


(1) cf. Pequeno Vocabulário Litúrgico, org. por A. Nosetti e C. Cibien, in Dicionário de Liturgia, org. por Domenico Sartore e Achille M. Triacca, São Paulo, Paulus, 2ª ed., 2001, p. 1272.

(2) Cân. 437 - § 1. O Metropolita, dentro do prazo de três meses após a recepção da consagração episcopal, ou, se já tiver sido consagrado, após a provisão canônica, tem a obrigação de pedir ao Romano Pontífice, por si mesmo ou por procurador, o pálio, com o qual se indica o poder de que está revestido o Metropolita na própria província, em comunhão com a Igreja Romana.
§ 2. De acordo com as leis litúrgicas, o Metropolita pode usar o pálio dentro de qualquer igreja da província eclesiástica a que preside, mas de modo nenhum fora desta, nem mesmo com o consentimento do Bispo diocesano.
§ 3. O Metropolita, se for transferido para outra sede metropolitana, precisa de novo pálio.


Fonte da primeira imagem: http://www.embuguacu.sp.gov.br/

Fonte da segunda imagem: http://tribunapopular.wordpress.com/

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A Sucessão no Vaticano

Um bom livro no mercado: A Sucessão no Vaticano, escrito pelo jornalista Wellington Miareli Mesquita, publicado este ano pela Editora Lindscape, já em segunda edição.

O autor está credenciado para tanto. É jornalista graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e pós-graduado em Filosofia Social pela Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma. Trabalhou no programa brasileiro da Rádio Vaticano, em Roma.

O livro abrange os últimos dias do Papa João Paulo II, sua morte e funeral; o conclave para eleição do novo papa; a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger - Bento XVI; início do pontificado de Bento XVI e os primeiros passos do novo Papa.

É um livro de leitura atraente. Contém algumas fotografias em preto e branco. Dá vontade de lê-lo de fio a pavio o mais rápido possível. Há termos que, para o público em geral, mereceriam algumas notas de rodapé explicativas, como, por exemplo, Trophaeum Apóstolico, não obstante o livro de 192 páginas já contenha considerável número de notas (157).

Na página 120, ao enumerar cardeais eleitores por área geográfica (abril de 2005) e por país, parece-me que houve um equívoco: se se aponta 58 cardeais eleitores para a Europa, não se poderia apontar igual número (por país) para a Itália, sendo que Espanha e Alemanha aparecem com 6 cardeais eleitores cada um, França, 5, e Polônia, 3. Ou o número é maior por área geográfica (Europa) e ou é menor por país (Itália).

Esses senões não obscurecem, de maneira alguma, a qualidade do livro.

Ao lê-lo você saberá, por exemplo, que João Paulo II, a princípio, em 1982, deixava em aberto a possibilidade de ser enterrado na Polônia, questão a ser decidida pelo Colégio Cardinalício, pelo metropolita de Cracóvia e pelo Conselho Geral do Episcopado da Polônia. Mas, dois anos depois, o Papa mudou de idéia, deixando a escolha do lugar do enterro a cargo exclusivo do Colégio Cardinalício (página 68).

Saberá que o Cardeal Ratzinger, agora Bento XVI, gosta de plantas e de gatos. Ele tinha em seu apartamento suas plantas e seu gato de estimação (página 162).

E saberá mais: no encontro na Universidade de Regensburg, na segunda viagem de Bento XVI à Alemanha, ao mencionar o diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e um sábio persa, lá pelo século XIV, o Papa visava endereçar um recado claro a todos os fundamentalistas, inclusive cristãos. "As agências de notícias deram destaque à citação do papa omitindo todo o contexto em que foi proferida, esquecendo-se, por exemplo, de dizer que o próprio pontífice classificou como brusco e pesado o modo que o imperador se expressou" (página 185).

Por fim a mensagem de esperança do Cardeal Carlo Maria Martini: "Estou certo de que Bento XVI nos reservará muitas surpresas a respeito dos estereótipos com os quais foi definido às pressas" (página 154).

E, com certeza, uma das surpresas foi a visita de Bento XVI ao Brasil, deixando sua marca de simpatia e simplicidade, bem diferente do sisudo homem guardião da ortodoxia (ao menos era assim que boa parte da mídia o estereotipava).

Pois bem, o livro está aí. E boa leitura.

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