domingo, 19 de agosto de 2007

Documento de Aparecida: cardeal admite alteração

O jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 18 de agosto de 2007 (sábado), traz a informação de que o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, que à época era o presidente do Celam, admitiu que o texto definitivo do Documento de Aparecida foi alterado antes de ser entregue ao Papa.

"O texto definitivo sofreu algumas modificações, mas são formulações que não têm a importância que lhes é atribuída agora, disse Errázuriz, acrescentando que se trata de mudanças "mínimas", que não alteraram o conteúdo" (O Estado de S. Paulo).

O que parece é que as ditas alterações foram feitas com o desconhecimento dos demais bispos participantes do Conferência de Aparecida - V Celam.

E disso se conclui das palavras de D. Odílio Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, que foi secretário-geral-adjunto da Conferência de Aparecida, ao afirmar: "é preciso verificar se quem fez isso tinha autoridade para fazer" (O Estado de S. Paulo).

Segundo noticia O Estado de S. Paulo, na mesma edição, o cardeal brasileiro Geraldo Majella Agnelo disse que: "A mesma coisa ocorreu na Conferência de Puebla, no México, em 1979, quando o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, atualmente presidente do Pontifício Conselho para a Família, mexeu no documento antes de ele ser enviado a Roma."

A verdade é a seguinte se já houveram precedentes, estes não justificam o que ocorreu no Documento de Aparecida, e até porque as alterações agora havidas ganharam publicidade. E o Documento de Aparecida não terá credibilidade se não for imediatamente restaurado o texto original.

Espera-se, pois, que haja o pronunciamento oficial da Igreja sinalizando sobre a apuração do caso, para que não passe como mais um precedente, como o ocorrido com o de Puebla acima noticiado, que, também somente agora, o grande público toma conhecimento.

Após pesquisas, levantamento de dados, consultas, debates e votações, não pode, com certeza, a Igreja hierárquica oferecer ao público um documento, afinal representativo da vontade de um ou dois participantes. Um tal documento assim carece de representatividade e, logo, de aceitabilidade e credibilidade.

O tema vem merecendo a atenção da Rádio Vaticano.

Leia também:


Crédito da foto: http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=17050

sábado, 18 de agosto de 2007

'Afastar-se da religião é avanço civilizatório'

A afirmação acima é de Richard Dawkins, professor na Universidade de Oxford (Inglaterra), em recente entrevista ao jornalista Herton Escobar, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 12/08/2007 (domingo), página A25.

A entrevista está atrelada ao lançamento, no Brasil, do livro "Deus, um Delírio", de autoria do entrevistado, a cargo da editora Cia. das Letras.

O tema não é novidade e inspira-me a fazer ligeiras considerações.

O filósofo Voltaire (1694-1778), expoente do Iluminismo, já pregara "o evangelho da razão".

E ainda filósofos como Ludwig Feuerbach (1804-1872), cuja opinião teve grande influência em Karl Marx (1818-1883), e Friederich Nietzsche (1844-1900), cujo pensamento foi objeto de tentativa de apropriação pela ideologia nazista, afastaram Deus e colocaram, em seu lugar, o homem, a razão, a ciência.

Nietzsche pregou "a morte de Deus".

O marxismo-ortodoxo, também conhecido por materialismo dialético ou marxismo-leninismo, foi a doutrina oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, após a Revolução de 1917. Na essência também negava Deus e prometia um paraíso de bens materiais.

A ideologia nazista não diferentemente negava Deus. Seu projeto era dominar culturalmente o mundo, como que "deletando" tudo que fosse contrário à essa doutrina e criando uma nova civilização.

O marxismo, como sistema de poder político, agonizou. E onde ainda não agonizou convive com outras idéias.

O nazismo, com a sua arrogância, é coisa do passado.

Aquilo que o professor Richard Dawkins quer passar para o público já foi experimentado na história recente, e até mesmo por força dos sistemas ideológicos de poder político. Dawkins não cria nada de novo, porque um certo distanciamento de Deus ou indiferença (tanto faz Ele existir ou não) - e até a sua negação - ou da religião (oficial) persistem no atual momento histórico da humanidade.

Efetivamente, para boa parte do mundo ocidental Deus (e, por extensão, Igreja e religião) não é um ser necessariamente relevante. No máximo, é um dado acidental, incapaz de interferir decisivamente.

Basta notar certos fatos: leis de aborto que foram aprovadas recentemente em países que se dizem cristãos, como México e Portugal; o desarmamento da sociedade que a nação brasileira não aprovou no referendo a que foi chamada a opinar. Isso é suficiente para demonstrar, na prática, que Deus não está no centro das decisões que as pessoas tomam (Ele é algo distante, indiferente ou negado).

Basta mais um exemplo recente.

O Continente Europeu é devedor da cultura cristã. Não obstante os esforços da Igreja, sobremodo na pessoa do Papa João Paulo II, os responsáveis pela redação ou aprovação da Constituição da União Européia não tiveram a necessária liberdade e altivez para inserir no texto o nome de Deus e uma referência ao cristianismo.

O capitalismo criou as periferias, criou o Terceiro Mundo.

Deus foi afastado. Ele é um estorvo ao "avanço civilizatório". Deus não está no centro dos grandes projetos dos homens de poder.

Na medida em que Deus não está em nada, o homem deixa de ser visto como pessoa, mas apenas como componente utilitário do sistema. Se útil, tudo bem. Do contrário, ele atrapalha o bem estar imediato e hedonista da sociedade. É bom matá-lo, porque Deus (ah, este!?) eles já o mataram.

O homem está hoje nessa encruzilhada. Um passado que vem do Iluminismo, passa pelas grandes sistemas ideológicos de poder (comunismo, nazismo, fascismo, fundamentalismo em suas acepções religiosa e racionalista), não conseguiu dar ao homem, dito liberto da tutela da religião (Kant), a felicidade prometida.

O pensamento e o livro do professor Richard Dawkins não têm cacife para tornar as coisas melhores ou piores. É chover no molhado. É apenas mais um dentre muitos que pregam a morte de Deus e que se colocam como adversos à intrínseca transcendência que permeia o homem em sua integridade.

É bem ao contrário, o homem de hoje, insatisfeito das coisas do mundo (sistematizá-las como "modernidade"), busca o sagrado, ainda que de forma difusa, mas o busca.


O homem quer, e precisa, de algo para além da ciência ou da razão.

Leia também:
Santidade
Recomeçar a partir de Cristo
Sou Católico - Vivo a minha Fé



Fonte da primeira imagem:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Dawkins
Fonte da segunda imagem:
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/e00012.htm

V Celam: Documento de Aparecida sob suspeita de adulteração

Notícias veículadas pelo jornal O Estado de São Paulo, edições de 15 e 16 de agosto, dão conta de que o Documento Final produzido pelo V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (V Celam), em Aparecida, sofreu alteração, à revelia dos bispos participantes.

O jornal revela que "As mudanças que adulteraram o Documento de Aparecida foram feitas pelo cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e pelo bispo argentino Andrés Stanovnik, respectivamente presidente e secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) na época".

Ao Papa teria sido entregue o documento adulterado e não o documento original.

O cardeal brasileiro Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil desabafa: "Eu pensei que estava levando o original", referindo-se à entrega do Documento feita ao Papa. Segundo o mesmo cardeal "as mudanças não foram de iniciativa de Roma".

A Igreja tem que apurar responsáveis pela adulteração e restaurar imediatamente o texto original. Se não o fizer, o Documento não terá credibilidade alguma. A isso se soma o desnecessário desgate (que já se constata) para a imagem da Igreja.


Leia mais aqui.

Leia também:

domingo, 12 de agosto de 2007

Pai


O espaço é para os pais.

Nossos pais.

São José.

São Joaquim.


Imagem: detalhe de "A volta do filho pródigo" (1668), de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669).

sábado, 11 de agosto de 2007

Palavra Missa


Em latim se escreve missa, que nada mais é do que uma substantivação de missus, particípio passado do verbo mittere. Aquilo que era verbo no particípio passado passa a ser substantivo no gênero feminino.

Em português, missa. Como se escreve em latim.

O verbo mittere significa, em português, deixar ir, deixar partir. Em sentido figurado, significa mandar, enviar.

A palavra missa era usada para indicar a despedida ao fim de qualquer reunião religiosa.

Com o tempo, como se verá, o sentido do vocábulo missa se amplificou, de modo a compreender toda a celebração. Do pouco (despedida) passou a designar o muito (o culto todo).

A evolução para a aplicação da palavra missa com o objetivo de designar a celebração eucarística no conjunto todo remonta ao fim do século V e início do século VI.

Repetindo, é entre o fim do século V e o início do século VI que se torna costumeiro indicar com o termo missa a união da liturgia da palavra e da liturgia eucaristíca, que formam, com os ritos iniciais e os de encerramento, a celebração eucarística (missa).

A expressão Ite, Missa est (da antiga missa em latim), que uns traduzem como "ide, (as preces) foram enviadas" [1], mas que, em verdade, o então Cânon da Missa do Missal Quotidiano traduz por "Ide, a missa terminou", é hodiernamente considerada uma expressão dita "pastoral", no sentido de "missão confiada àqueles que participaram da eucaristia" [2]. Nessa linha, se situa o Catecismo da Igreja Católica, a "Santa Missa (...) termina com o envio dos fiéis ("missio") para que cumpram a vontade de Deus na sua vida cotidiana" (n. 1332).

Anote-se que a palavra latina missio, empregada pelo Catecismo, é da família do verbo mittere (acima mencionado). Missio traz a idéia de despedida e de envio.

A expressão Ite, Missa est não deixa de ser parte do rito de despedida, com o qual se desfaz, se dissolve a assembléia. E o atual Missal Romano, em português, implantado a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), tem a seguinte versão: "Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe".

Não obstante alguns Padres da Igreja considerarem a pobreza do termo missa para expressar "aquilo que constitui o centro da vida cristã" (S. Gregório Magno e S. Cesário de Arles) [3], o Catecismo da Igreja Católica vê nessa palavra e em tantas outras que: "A riqueza inesgotável deste sacramento [da Eucaristia] exprime-se nos diversos nomes que lhe são dados. Cada uma destas expressões evoca alguns de seus aspectos" (n. 1328).

[1] Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Lexikon Editora Digital, 3ª edição, 2007, p. 524.
[2] cf. A. Nocent, história da celebração da eucaristia, in A Eucaristia teologia e história da celebração, de S. Marsili, A. Nocent, M. Augé, A.J. Chupungco, coleção Anámnesis 3, tradução de Benôni Lemos, São Paulo, Editora Paulus, 2ª edição, 1996, p. 206.
[3] cf. A. Nocent, Obra citada, p. 206.


Imagem: "Os discípulos de Emaús" (1601), de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). Fonte: www.nationalgallery.org.uk

sábado, 14 de julho de 2007

Pálio: insígnia litúrgica


Pálio é uma entre outras palavras do latim que fazem parte do patrimônio linguístico da religião católica. Vem de pallium, palavra com a qual se designava o "casaco retangular romano" (1).

O pálio, em forma de toldo (feito de tecido com franjas nas bordas), com quatro ou seis hastes, é geralmente usado na procissão de Corpus Christi (primeira imagem). Neste caso, o pálio simboliza a dignidade régia de Cristo. E o pálio, em forma de tira circular (colar), com duas faixas pendentes, uma sobre o peito e outra sobre as costas, é, originalmente, de uso do Papa, com seis cruzes. É deste que nos ocuparemos a partir de agora (segunda imagem).

Atualmente, o Papa concede o pálio somente aos arcebispos metropolitanos, designados simplesmente metropolitas (de metróple, cidade-padrão ou cidade principal de uma região), cujo pedido deve feito ao Papa como estabelecido pelo cânone n. 437 do Código de Direito Canônico (2). Por isso, denomina-se pálio arcebispal, com as seis cruzes bordadas em lã preta (para o pálio do Papa as seis cruzes podem ser pretas ou vermelhas). Faz sentido que o Papa use pálio distinto daqueles por ele conferidos aos arcebispos, como o fez recentemente Bento XVI: pálio mais comprido, com as seis cruzes em vermelho, e faixas pendentes com pontas de seda preta.

É o símbolo do poder dos arcebispos metropolitanos dentro da chamada província eclesiástica (agrupamento de dioceses vizinhas) e de comunhão com o Papa. É pessoal e intransferível. Se o Arcebispo mudar para outra sede metropolitana, necessitará de novo pálio, conforme rege o mesmo Código, em seu canône n. 437, parágrafo 3º.

O Papa concede também o pálio ao Patriarca Latino de Jerusalém.

O pálio só pode ser usado nas celebrações litúrgicas. O Papa pode usá-lo em qualquer parte do globo, em razão do poder de jurisdição universal que ele detém. O Arcebispo pode usá-lo em todas as igrejas da província eclesiástica por ele presidida, porém não fora do território da província.

O pálio é confeccionado pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Roma. É feito com lã branca de cordeiros, que são ofertados anualmente ao papa pelas jovens romanas, na festa de Santa Inês (21 de janeiro). Os pálios, em número correspondente aos novos arcebispos metropolitanos, são abençoados pelo Papa nas Primeiras Vésperas da Solenidade de São Pedro e São Paulo e são conservados em uma urna especial no Altar da Confissão da Basílica Vaticana (onde estão as relíquias do Apóstolo São Pedro). E, no dia seguinte, na celebração da solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (29/6), são impostos (entregues) aos arcebispos pelo Papa.

O simbolismo do pálio é significativo. Tecido com lã de cordeiro simboliza a ovelha perdida. Posto o pálio sobre os ombros simboliza o pastoreio, ação própria do pastor: carregar a ovelha frágil, doente.

No tocante ao simbolismo do pálio, é sugestivo reler a homilia de Sua Santidade Bento XVI, por ocasião da celebração da Santa Missa para início do Ministério Petrino do Bispo de Roma, em 24 de abril de 2005.


(1) cf. Pequeno Vocabulário Litúrgico, org. por A. Nosetti e C. Cibien, in Dicionário de Liturgia, org. por Domenico Sartore e Achille M. Triacca, São Paulo, Paulus, 2ª ed., 2001, p. 1272.

(2) Cân. 437 - § 1. O Metropolita, dentro do prazo de três meses após a recepção da consagração episcopal, ou, se já tiver sido consagrado, após a provisão canônica, tem a obrigação de pedir ao Romano Pontífice, por si mesmo ou por procurador, o pálio, com o qual se indica o poder de que está revestido o Metropolita na própria província, em comunhão com a Igreja Romana.
§ 2. De acordo com as leis litúrgicas, o Metropolita pode usar o pálio dentro de qualquer igreja da província eclesiástica a que preside, mas de modo nenhum fora desta, nem mesmo com o consentimento do Bispo diocesano.
§ 3. O Metropolita, se for transferido para outra sede metropolitana, precisa de novo pálio.


Fonte da primeira imagem: http://www.embuguacu.sp.gov.br/

Fonte da segunda imagem: http://tribunapopular.wordpress.com/

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A Sucessão no Vaticano

Um bom livro no mercado: A Sucessão no Vaticano, escrito pelo jornalista Wellington Miareli Mesquita, publicado este ano pela Editora Lindscape, já em segunda edição.

O autor está credenciado para tanto. É jornalista graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e pós-graduado em Filosofia Social pela Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma. Trabalhou no programa brasileiro da Rádio Vaticano, em Roma.

O livro abrange os últimos dias do Papa João Paulo II, sua morte e funeral; o conclave para eleição do novo papa; a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger - Bento XVI; início do pontificado de Bento XVI e os primeiros passos do novo Papa.

É um livro de leitura atraente. Contém algumas fotografias em preto e branco. Dá vontade de lê-lo de fio a pavio o mais rápido possível. Há termos que, para o público em geral, mereceriam algumas notas de rodapé explicativas, como, por exemplo, Trophaeum Apóstolico, não obstante o livro de 192 páginas já contenha considerável número de notas (157).

Na página 120, ao enumerar cardeais eleitores por área geográfica (abril de 2005) e por país, parece-me que houve um equívoco: se se aponta 58 cardeais eleitores para a Europa, não se poderia apontar igual número (por país) para a Itália, sendo que Espanha e Alemanha aparecem com 6 cardeais eleitores cada um, França, 5, e Polônia, 3. Ou o número é maior por área geográfica (Europa) e ou é menor por país (Itália).

Esses senões não obscurecem, de maneira alguma, a qualidade do livro.

Ao lê-lo você saberá, por exemplo, que João Paulo II, a princípio, em 1982, deixava em aberto a possibilidade de ser enterrado na Polônia, questão a ser decidida pelo Colégio Cardinalício, pelo metropolita de Cracóvia e pelo Conselho Geral do Episcopado da Polônia. Mas, dois anos depois, o Papa mudou de idéia, deixando a escolha do lugar do enterro a cargo exclusivo do Colégio Cardinalício (página 68).

Saberá que o Cardeal Ratzinger, agora Bento XVI, gosta de plantas e de gatos. Ele tinha em seu apartamento suas plantas e seu gato de estimação (página 162).

E saberá mais: no encontro na Universidade de Regensburg, na segunda viagem de Bento XVI à Alemanha, ao mencionar o diálogo entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e um sábio persa, lá pelo século XIV, o Papa visava endereçar um recado claro a todos os fundamentalistas, inclusive cristãos. "As agências de notícias deram destaque à citação do papa omitindo todo o contexto em que foi proferida, esquecendo-se, por exemplo, de dizer que o próprio pontífice classificou como brusco e pesado o modo que o imperador se expressou" (página 185).

Por fim a mensagem de esperança do Cardeal Carlo Maria Martini: "Estou certo de que Bento XVI nos reservará muitas surpresas a respeito dos estereótipos com os quais foi definido às pressas" (página 154).

E, com certeza, uma das surpresas foi a visita de Bento XVI ao Brasil, deixando sua marca de simpatia e simplicidade, bem diferente do sisudo homem guardião da ortodoxia (ao menos era assim que boa parte da mídia o estereotipava).

Pois bem, o livro está aí. E boa leitura.

Leia também:
Bento XVI se assemelha com os "Padres da Igreja"

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Bento XVI: os dois modos de ver e conhecer Jesus

Na solenidade de São Pedro e São Paulo, hoje (29/6) celebrada na Praça de São Pedro, o Papa, mais uma vez, se posicionou contra o relativismo, ou melhor, contra aqueles que consideram Cristo como mais um entre os fundadores de grandes religiões ou mais um entre os grandes sábios da história.

Para Bento XVI há dois modos de ver e conhecer Jesus. O da multidão, cujo ver e conhecer é mais superficial; e o dos discípulos, cujo ver e conhecer é mais penetrante e autêntico.

A colocação feita pelo Papa me leva ao Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículos 13 a 17. Nesta passagem evangélica distingue-se aquilo que os homens em geral dizem e aquilo que os discípulos (círculo daqueles que seguem Jesus) dizem. Os primeiros vagueiam na concepção sobre Jesus. Estes (discípulos), ao contrário, o fazem (na pessoa de Pedro) de modo seguro e profundamente bíblico : "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo".

Leia mais aqui.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ano Paulino: 28/6/2008 a 29/6/2009

Bento XVI convocou nesta data (28/6), em Roma, um ano jubilar dedicado a São Paulo, o apóstolo das gentes, que vai de 28 de junho de 2008 a 29 de junho de 2009.

A convocação do Ano Paulino aconteceu na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, na celebração das primeiras vésperas da solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, patronos da cidade de Roma.

Roma, onde se conserva sob o altar da referida Basílica o sarcófago com os restos mortais de São Paulo (conforme a tradição e parecer de especialistas), será o local privilegiado para a celebração do Ano Paulino: série de celebrações litúrgicas, culturais e ecumênicas, iniciativas pastorais e sociais, inspiradas na espiritualidade do apóstolo. E peregrinações para visita ao túmulo de São Paulo, em Roma.

O Papa enfatiza também a "dimensão ecumênica" do evento, posto que o apóstolo comprometeu-se em levar a Boa Nova a todos os povos e batalhou pela unidade e concórdia de todos os seguidores de Cristo.

Nas dioceses, paróquias e todos os lugares que levem o nome do apóstolo Paulo ou nele e no seu ensinamento se inspirem poderão realizar atividades análogas as de Roma.

Parece-me que paróquias etc., mesmo que não levem o nome do apóstolo, não estão impedidas de fazer semelhantes realizações, uma vez que, em verdade, os cristãos não deixam de se inspirar na figura e no ensinamento de São Paulo.

Segundo o padre Edmund Power, osb, abade da Abadia de São Paulo Fora dos Muros, o Ano Paulino "constitui um acontecimento 'espiritual' para todo o cristianismo". Leia mais aqui.

O Ano Paulino tem uma dimensão tal que ultrapassa os muros do catolicismo romano.

Leia também:

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Professor universitário católico: algo que o identifica


O professor Joan-Andreu Rocha Scarpetta, teólogo e historiador, apresentou na Sala Magna da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, em evento patrocinado pela Conferência Episcopal Espanhola, realizada no dia 23/6 (sábado), quatro elementos que hoje conferem caracterização à identidade do professor universitário católico, quais sejam:

. otimismo antropológico;
. visão sacramental do mundo;
. tensão existente entre tradição e razão; e
. unidade do saber.

Como a universidade católica se encarrega da formação integral do homem, não é demasia que atualmente os formadores tenham requisitos, tais como os expostos, que os diferenciem perante os demais membros do magistério de qualquer outro tipo de universidade.

Leia mais aqui.

Fonte da imagem: http://topazio1950.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 26 de junho de 2007

Livro do Papa: edição nacional

O livro Jesus de Nazaré (título original Jesus von Nazareth), do teólogo Joseph Ratzinger - Bento XVI, tradução de José Jacinto Ferreira de Farias, SCJ, editado pela Editora Planeta do Brasil Ltda., já chegou às livrarias desde a semana passada.

Este livro é a primeira parte, que apresenta a figura e a mensagem de Jesus no seu ministério. A segunda parte, que consistirá em outro livro, conforme o Papa teólogo expõe no prefácio, cuidará das histórias da infância de Jesus, e será oportunamente editada e entregue ao público.

No prefácio, o teólogo menciona:

"Penso que precisamente este Jesus - o dos Evangelhos - é uma figura racional e manifestamente histórica" [pág. 17].

"Não preciso certamente dizer que este livro não é de modo algum um ato de magistério, mas unicamente expressão da minha procura pessoal "do rosto do Senhor" (cf. Sl. 27,8)" [pág. 19].

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Apóstolo Paulo: um ano só seu

O Papa Bento XVI proclamará no dia 28 de junho, quinta-feira, um ano especialmente dedicado a São Paulo, em recordação aos 2.000 anos do nascimento do apóstolo dos gentios. Segundo especialistas, São Paulo nasceu entre o ano 6 e 10 depois de Cristo.

A proclamação será feita na Basílica de São Paulo Fora dos Muros em Roma, por ocasião da celebração das Vésperas, às 17,30 horas.

Bento XVI vem, nas intervenções das audiências gerais das quartas-feiras, ministrando catequeses enfocando os vultos formadores do cristianismo, entre eles o apóstolo Paulo. E, longamente, o Papa se deteve não só na pessoa do apóstolo Paulo, mas também no seu pensamento teológico: Cristo como centro da vida do apóstolo, o Espírito Santo e a vida na igreja. Parece-me que todo esse elenco de quatro catequeses estava a sinalizar a fundamental importância do apóstolo das gentes para o cristianismo, justificando a proclamação de um ano especialmente dedicado a São Paulo.

Maiores detalhes virão, por certo, quando o Papa fizer a proclamação.

Saiba mais aqui.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Bispo ameaçado: CNBB expressa solidariedade

O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em reunião realizada ontem, dia 20 de junho, enviou carta a Dom Manoel João Francisco, Bispo da Diocese de Chapecó, em Santa Catarina, expressando-lhe a solidariedade da entidade.

A carta vai subscrita pelo Presidente da CNBB, Dom Gerado Lyrio Rocha, pelo Vice-Presidente, Dom Luiz Soares Vieira, e pelo Secretário-Geral, Dom Dimas Lara Barbosa.

Como postado anteriormente, o Bispo de Chapecó, Dom Manoel João Francisco, vem recebendo ameaças de morte, pelo fato de colocar-se a favor dos povos indígenas, cuja situação reclama uma solução justa tanto para os índios quanto para os pequenos agricultores.

Sobre a carta da CNBB ao Bispo ameaçado leia aqui.

Fonte da imagem: www.cnbb.org.br

terça-feira, 19 de junho de 2007

Bispo de Chapecó ameaçado de morte

Dom Manoel João Francisco, Bispo de Chapecó, no Estado de Santa Catarina, está sendo ameaçado de morte.

Os profetas, tanto no passado quanto no presente, incomodaram e incomodam àqueles que praticam injustiças contra os mais fracos. E é a favor destes que se coloca o Bispo Dom Manoel João Fancisco, em defesa dos índios.

Veja mais aqui.

Foto: www.paulinas.org.br

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Quadrinhos Mangá despertam vocações

A Igreja Católica na Inglaterra e Gales vem promovendo o incentivo às vocações religiosas, entre os jovens, com a utilização de história em quadrinhos tipo mangá (mangá é a história em quadrinhos de origem japonesa).

Clique aqui para conhecer essa novidade que já vem proporcionando resultados satisfatórios.

E aqui para ver os quadrinhos.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Da missa assistida à missa celebrada - parte 2 de 2

3. Houveram reações a esse deslocamento na compreensão e na vivência do mistério pascal celebrado. Uma dessas reações levou o nome de movimento litúrgico.

Movimento litúrgico é uma reação que se inicia nos ambientes monásticos no século XIX e ganha impulso com os Papas Pio X (1903-1914) e Pio XII (1939-1958).

A coroação do ideário do movimento litúrgico se deu com o Concílio Vaticano II, ao aprovar a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC), tornada pública em 4 de dezembro de 1963 pelo Papa Paulo VI. Foi o primeiro documento aprovado pelos padres conciliares, levando a justificar o quanto amadurecido era, à época, o ideário do movimento litúrgico.

Segundo Frei José Ariovaldo da Silva, OFM, “a Igreja, mediante a Constituição Sacrosanctum Concilium, tomou uma importante decisão pastoral: resgatar o essencial que se havia ‘perdido’ e recolocá-lo no seu eixo central.” (Sacrosanctum Concilium e reforma litúrgica pós-conciliar no Brasil, in A Sagrada Liturgia 40 anos depois, da Coleção Estudos da CNBB nº 87, Paulus, 2003, pág. 39).

O resgate do essencial, ou seja, do que “se havia perdido”, importa numa tomada de conscientização não para uma nova face da igreja, mas sim para a redescoberta daquela face que ficara por longo período, quase todo o segundo milênio, na sombra.

Nesse sentido, fala-se em resgates, aliás, necessários para a redescoberta da face da igreja que estivera na sombra. Para Frei José Ariovaldo da Silva, OFM, na obra mencionada (pág. 39), com a Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC):

Resgata-se a centralidade do mistério pascal na celebração da Liturgia (...). Resgata-se a vivência e compreensão da Liturgia como celebração do mistério pascal, como momento histórico da salvação. Resgata-se a Liturgia como a fonte mais excelente de espiritualidade cristã.

Resgata-se a linguagem simbólico-sacramental de toda a Liturgia (...). E resgata-se a compreensão dos sacramentos como celebração do mistério pascal

Resgata-se a dimensão eclesial-comunitária da Liturgia (...).


Resgata-se a prioridade da participação plena, consciente e ativa na Liturgia (...).


Resgata-se a tradição antiga de uma Liturgia que sabe se adaptar à índole dos difer
entes povos.

Um retorno às fontes (períodos: apostólico e patrístico).

Conscientizar de que o mistério pascal de Cristo é o eixo central da missa, e não as devoções ao Santíssimo Sacramento e aos santos. E conscientizar de que o Espírito Santo, desde o batismo de Jesus e mormente a partir do Pentecostes, é como que a alma da celebração litúrgica.

No retorno ao mistério, onde opera o Espírito, encontramos o Cristo, posto que, como ensinava São Leão Magno (século V): “aquilo que era visível no nosso Salvador passou para os mistérios” (Serm. 74,2: PL 54,398A, citado pelo Catecismo da Igreja Católica, n. 1115). Ou, na tradução da Antologia Litúrgica (Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, org. José de Leão Cordeiro, pág. 1031): “o que na vida do nosso Redentor era visível passou para os ritos sacramentais” (Papa Leão Magno, Sermones de Ascensione Domini [2] (= PL 54, 394-400; PLS 3,337;CCL 138 A; SCh74 bis; LH,II)).

“Nós encontramos nos mistérios do culto cristão a pessoa de Cristo, a sua obra salvífica, a sua eficácia de graça: “Eu te encontro nos teus mistérios” (AGOSTINHO, Apologia Prophetae David, 58)” (Prof. Dr. Pe. Pedro Alberto Kunrath, PUCRS, A Igreja e a Oração Litúrgica como Celebração do Mistério, in Teocomunicação Rev. Trim. de Teologia, editada pela PUCRS, Porto Alegre, v. 35, nº 149, Set. 2005, p. 481-495, nota de rodapé nº 26, à pág. 491).

Redescobrir a igreja como corpo místico de Cristo. Cristo é a Cabeça e os fiéis os seus membros. A liturgia tem sua dimensão divina e humana. Essa redescoberta dá enfoque à dimensão eclesial-comunitária, com destaque para a assembléia (povo convocado). É toda a assembléia, presidida pelo padre, que celebra. Deixa de ser o padre o único celebrante.

Hoje, mais do que participação ativa, consciente e plena, fala-se em celebrar. Para uma ou outra categoria passa-se pela formação litúrgica, que deve ser objeto de uma Pastoral Litúrgica.

Para Frei Alberto Beckhäuser, OFM, “a participação ativa, consciente e plena constituem requisitos para se obter uma participação frutuosa e eficaz.” (Liturgia na Vida da Igreja, in A Sagrada Liturgia 40 anos depois, da Coleção de Estudos da CNBB nº 87, Paulus, 2003, pág. 86).

A Constituição Sacrosanctum Concilum (SC), em verdade, preceitua que “os fiéis participem dela [celebração] com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente.” (n. 11). Adiante, no número 14, a SC coloca novamente o tema: “que todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas.” E mais: “Cumpre que essa participação plena e ativa de todo o povo seja diligentemente considerada na reforma e no incremento da Sagrada Liturgia” (SC, n. 14).

Com o advento do Concílio Vaticano II e a implantação das diretrizes contempladas na Constituição Sacrosanctum Concilium, a Igreja inicia a tarefa de fazer a passagem da missa assistida para a missa celebrada. A missa esta que contempla, como diretriz forte, a participação do povo como sujeito da celebração.

Agora, mãos à obra, pois, como dizia o Papa Paulo VI: “A tarefa do Concílio Ecumênico não está completamente terminada com a promulgação de seus documentos”.

Nesse sentido, vários documentos têm sido emitidos pelos Papas e Cúria Romana, assim como pela CNBB, para a implantação das diretrizes da Sacrosanctum Concilium.

Missal Romano, Lecionários e outros mais livros litúrgicos são adaptados ou elaborados segundo os desígnios do Concílio Vaticano II, traduzidos para a língua portuguesa.

Na apresentação da versão brasileira da segunda edição típica do Missal Romano, Dom Clemente José Carlos Isnard, OSB, então presidente da Comissão Episcopal de Liturgia, enfatizando a importância do novo Missal e da recordação do conteúdo da sua Instrução Geral, assim como da colocação em prática do Documento 43 da CNBB, destaca: “Não basta ter livros novos, é preciso renovar a vivência”.

Renovar a vivência, eis o grande desafio transformador. Entretanto, as normas e os livros ficarão apenas no papel, se pessoas não se qualificarem para a redescoberta da liturgia como sendo de natureza divina e humana, como assim celebrá-la e vivê-la.

Se a liturgia celebrativa fosse apenas divina, seria algo abstrato, não palpável ao ser humano. E, se fosse apenas humana, a celebração não passaria de evento comemorativo de tal e qual fato ocorrido no passado.

Liturgia em ação é celebração, e celebração só se faz com pessoas celebrantes, ativas.

Foto: Missa de encerramento da Semana de Bento 2006, em 11/10/2006, na Igreja Matriz Santo Antônio, em Bento Gonçalves - RS. Crédito da foto: Leandro Bortollozo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Da missa assistida à missa celebrada - parte 1 de 2

Fazei isto em minha memória (1Cor 11, 24-25)


Recordo-me que meu professor de português, lá pela década de 50 do século passado, ao dar exemplo de verbo transitivo de dupla regência mencionava o verbo "assistir". Para a regência direta (transitivo direto): "o médico assiste o doente", isto é, o médico socorre o paciente; o médico age. Para a regência indireta (transitivo indireto): "você assiste à missa" (ou eu assisto à missa), isto é, está presente ao ato litúrgico; não age.

Os exemplos - muito compreensíveis para a época - objetivavam demonstrar que num exemplo, quando o objeto é direto, o sujeito da frase tem um comportamento ativo, participa da ação. N'outro, quanto o objeto é indireto, o sujeito da frase tem um comportamento meramente passivo, de nada participa, apenas vê.

Com esse ilustrativo exemplo, pretendo falar de uma mudança: de sujeito passivo para sujeito ativo da missa.

A figura abaixo, que ilustra o texto, dá uma visão da missa dita pelo padre, e assistida pelo povo, que era modelo celebrativo anterior à implementação da Sacrosanctum Concilium, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965).

1. Antes, porém, uma sucinta abordagem sobre a fração do pão, ou ceia do Senhor, no alvorecer do cristianismo.

Os cristãos se reuniam para celebrar a ceia instituída por Cristo, dela participando comunitária e ativamente. E tão comunitários eram que procuravam ter tudo em comum.

O povo reunido, juntamente com o pastor que a presidia, era verdadeiramente o ator da celebração. E os cristãos tinham consciência de ser um povo sacerdotal (povo escolhido e mediador entre Deus e o mundo) numa comunidade toda ministerial, isto é, serviçal segundo o carisma ou dom de cada um.

Os cristãos celebravam e viviam o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Cristo. Cristo era a centralidade da celebração.

O valor e a dignidade dada à ceia do Senhor levaram os primeiros cristãos a se reunirem festivamente para celebrá-la no próprio dia da ressurreição do Senhor, denominado Domingo. O ato de reunir-se no domingo significava celebrar a eucaristia, tão vital para os primeiros cristãos.

Os cristãos de Abitinas (que ficava na África proconsular – província do Império Romano, correspondendo hoje ao norte da Tunísia e à costa mediterrânica da Líbia), no ano 304, foram martirizados pelo fato de se reunirem para celebrarem o dominicum. Dizia um deles (Emérito) ao procônsul romano ao ser interrogado: “Não podia [proibi-los de se reunirem], porque não podemos viver sem o dominicum...” (Actas dos Mártires in Antologia Litúrgica, Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, org. José de Leão Cordeiro, págs. 580-583).

A vida era modelada pela eucaristia celebrada – eucaristia vivida. A palavra celebrada era penetrante na vida dos cristãos. Escritas no coração, e não numa Bíblia muitas vezes fechada, elas também modelavam a vida dos cristãos – palavra vivida. Dizia outro deles (Ampélio) ao mesmo procônsul romano ao ser interrogado: “Sim, reuni-me com os meus irmãos, celebrei o dominicum e tenho comigo as Escrituras, mas escritas no meu coração. Dou-Te graças, Cristo. Escuta-me, Cristo” (ob. cit.).

“Fazei isto em minha memória” era não apenas uma fórmula eucarística, mas também uma fórmula de vida.

2. Entretanto: “No segundo milênio da era cristã (por influência remota dos povos franco-germânicos, a partir do século IX, e pelo posterior centralismo romano) aconteceu um impressionante deslocamento de eixo na compreensão e vivência da Liturgia.” (Frei José Ariovaldo da Silva, OFM, Sacrosanctum Concilium e reforma litúrgica pós-conciliar no Brasil, in A Sagrada Liturgia 40 anos depois, da coleção “Estudos da CNBB” nº 87, Paulus, 2003, pág. 36). E o articulista esclarece esse deslocamento de eixo: “A centralidade da Liturgia como celebração do mistério pascal cedeu lugar às devoções (devoção aos santos e ao Santíssimo Sacramento). As devoções passaram a ocupar o lugar central” (ob. cit., pág. 37).

Segue-se que a assembléia deixou de ser celebrante. E o padre assumiu o papel de único celebrante. A missa passou a ser coisa do padre, nele estava centrada a liturgia. A estrutura da Igreja favoreceu isso: altar bem mais elevado e distante do povo. E o padre, de costas voltadas para o povo, rezava a missa na língua litúrgica – o latim. A palavra não era mais proclamada, mas apenas lida pelo padre para si mesmo, em voz baixa. O próprio padre tornara-se refém do ritualismo: qualquer deslize nas palavras e nos herméticos gestos podia afetar a eficácia do ato.

Com o suceder dos tempos, o latim deixou de ser a língua comumente falada, cedendo lugar as suas variantes hoje conhecidas (italiano, castelhano, português...). Mas a liturgia da missa continuou sendo em latim.

Diante dessa mutação do latim, como não foi feita a formação do povo para a língua litúrgica, o povo foi deixando de compreender as palavras pronunciadas na missa. Não obstante, o povo continuou tendo por ela forte atração devocional. E o povo acrescentava outras devoções no curso da missa, em particular, a reza individual do terço.

Para o povo a consagração, ou melhor, a elevação da hóstia grande, passou a ser o momento privilegiado da missa. Esse momento era assinalado pelo toque da campainha. O padre, como se disse, de costas voltadas para o povo, elevava a hóstia grande bem acima de sua cabeça, para que pudesse ser vista. Para o povo essa era a centralidade da missa: ver e adorar a hóstia consagrada.

Em resumo. O mistério pascal celebrado deixa de ser a fonte da espiritualidade. Cede lugar para as devoções populares. A eucaristia não é mais uma festa, onde todos celebram.

domingo, 3 de junho de 2007

Sou Católico - Vivo a minha Fé

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) editou um pequeno livro, mas de grande significado para o cristão (católico romano), denominado "Sou Católico - Vivo a minha Fé". O momento é de relativismo dos valores como contínua e veementemente vem sendo denunciado pelo Papa Bento XVI.

O que é relativo não é absoluto. Não é uma verdade por inteiro. É mais ou menos.

A cultura do relativismo entra também na religião. Daí, o chamado kit religioso: faço a minha religião, com os meus ritos, seleciono aquilo que, de várias religiões ou de filosofias da vida, mais satisfaça à minha subjetividade.

É relativo estar na Igreja ou não. É relativo assumir compromisso.

Nesse sentido, a insistência da busca da identidade cristã, para que ela não se perca no oceano do relativismo ou não se desfigure diante de tudo que passa a ser mais ou menos.

O livro da CNBB está aí. Colocado em boa hora nas mãos de todo o povo de Deus, para que se tenha um "conhecimento inteligente e afetivo da fé".

"Sou Católico". Não apenas católico, também "Vivo a minha Fé".

sábado, 2 de junho de 2007

Os evangelhos perdidos

Darrell L. Bock, professor e pesquisador no Seminário Teológico de Dallas, no Texas (EUA), já conhecido do público brasileiro pelo seu Quebrando o Código Da Vinci, volta à tona, agora, com o novo livro Os evangelhos perdidos, em tradução de Emirson Justino (Editora Thomas Nelson Brasil, Rio, 2007). Além de suas atribuições acadêmicas, é missionário da Igreja da Fraternidade de Trinity, em Richardson, Texas.

Pois bem, o livro Os evangelhos perdidos, com o subtítulo A verdade por trás dos textos que não entraram na Bíblia, cuja edição original foi lançada em 2006 pela Thomas Nelson, Inc., cuida de um meditado e longo estudo, fruto final da pesquisa realizada na Universidade de Tübingen, na Alemanha, sobre os chamados novos materiais (documentos que não estão na Bíblia, ou, especificamente, no Novo Testamento), em paralelo com os materiais tradicionais (documentos que estão no Novo Testamento).


A obra, na introdução, começa com uma indagação: "As novas descobertas indicam que o Cristianismo precisa de uma reforma?". A leitura é estimulada, e até a vista dessa indagação, pela leveza do texto; e, ao término de cada capítulo, vem um conjunto de perguntas para estudo.

A promoção com status de significativa relevância desses evangelhos perdidos (novos materiais) vem sendo dada pela chamada nova escola, cujo mentor é Walter Bauer, acadêmico alemão, que, em 1934, lançou um livro, intitulado em português Ortodoxia e heresia no Cristianismo primitivo.

A resposta à indagação inicial, o teólogo Darrell L. Bock assim sintetiza: "O que precisa de uma reforma não é o Cristianismo, mas a nova escola".

Confira: vale a pena ler o livro, para um crescimento na formação cristã e, como diz, o apóstolo Pedro: estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir (1Pd 3, 15).

Leia também:

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Bento XVI se assemelha com os "Padres da Igreja"

Para Julián Herranz, cardeal espanhol e eleitor do último conclave que elegeu o cardeal Joseph Ratzinger, "as circunstâncias históricas da Igreja e do mundo e as características pessoais do Papa Bento XVI, o assemelham, espiritual e pastoralmente, 'com os Padres da Igreja'."

Confira aqui não só os desafios que fazem Bento XVI assemelhar-se com os "Padres de Igreja", mas também os quatro fatores que concorreram para a sua eleição.